Capítulo Quarenta e Nove: As Três Colegas de Quarto
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Morpheus havia acabado de entrar pelo portão principal da academia. Esta instituição de administração puramente militar possui um estilo fortemente marcial, de tal forma que sua aparência se assemelha a um castelo, podendo ser chamada de outra cidade dentro da cidade de Constantinopla, excetuando-se o palácio imperial.
Os muros têm mais de dez metros de altura, os guardas são impecáveis; não há fosso, apenas uma estrada de terra batida circunda a academia.
Seguindo Brown para dentro da academia, avista-se uma larga estrada de pedras, limpa e bem cuidada. Às margens, alinham-se quase uma centena de estátuas, com as figuras humanas acima e, abaixo, inscrições de suas vidas. A maioria das esculturas de cavaleiros mostra cavalos com as quatro patas no ar, indicando que o cavaleiro caiu heroicamente no campo de batalha.
Pode-se dizer que todos eles são os fundadores do vasto território imperial.
“Um bando de velhos notáveis, cada um é o orgulho da nossa Academia de Cavaleiros”, disse Brown, que teve sua habitual postura desbocada rapidamente contida assim que adentrou aquele ambiente. Por mais irreverente que fosse, o respeito genuíno emergia instintivamente em ocasiões como aquela. “A Sétima Companhia ainda não voltou. Devem chegar perto do meio-dia. Vou te levar ao dormitório, depois se vira.”
Virando-se, Brown lançou um olhar para Morpheus, que o acompanhava, e comentou com desdém: “Você é mesmo diferente, veio sem trazer nada?”
“Coisas materiais.”
“Hahaha!” Brown gargalhou, como se tivesse ouvido a maior piada, e, ao deixar a solene avenida, apontou para um prédio barroco de três andares, nem luxuoso nem miserável: “Está vendo aquilo? Morar numa porcaria daquelas! E tem uns moleques ali que trouxeram uma carroça inteira de coletâneas de poesia, ficam declamando na varanda todo santo dia. Devem ter o cérebro no traseiro!”
“Quando eu lutava na fronteira de Gistan, mal via uma cama! Passei seis meses usando a mesma armadura, sem tirar do corpo, e quando a guerra acabou, parecia que ela tinha criado raízes em mim!” Brown claramente desprezava aqueles jovens mimados, cutucou o ouvido e jogou a cera fora com destreza. “Coisas materiais, gostei disso. Só por isso, prometo que vou te poupar de umas boas surras no futuro.”
Morpheus abriu um sorriso largo e sincero.
A armadura de Brown era igualmente um modelo padrão imperial, mas jamais poderia ser confundida com aquelas reluzentes armaduras de Milão dignas de nobres; exibia marcas de batalhas por toda parte, algumas remendadas, os sinais do martelo e da solda do ferreiro ainda visíveis. Morpheus sabia muito bem que as histórias desse sujeito irreverente não eram menos complexas do que as dos heróis imortalizados nas estátuas.
O dormitório da Sétima Companhia ficava quase todo no terceiro andar. Assim que entrou no prédio, Morpheus sentiu-se envolvido por um cheiro masculino intenso, mistura de suor e chulé, sensação há muito esquecida. Brown, consultando um pergaminho, procurava o número do quarto de Morpheus. O corredor, de estilo clássico, refletia a silhueta dele no piso encerado; nas paredes, de vez em quando, quadros de gosto duvidoso e execução grosseira, todos de conteúdo vulgar, davam a Morpheus uma impressão mais direta e profunda do que era ser “cavaleiro”.
“Aqui.”
Brown parou, e, diante do olhar atônito de Morpheus, ergueu o pé e desferiu um chute na pesada porta, que, apesar do peso, cedeu como papel, e o trinco voou, quebrando um vaso na janela e espalhando água pelo chão.
“Sou preguiçoso demais para usar chave. Assim faço o pessoal da intendência trabalhar mais um pouco. Vivem pegando uns trocados aqui e ali, e nem cansam disso.”
O grandalhão entrou sem cerimônia. O quarto era uma suíte, com condições melhores do que Morpheus imaginava. Três camas já estavam arrumadas; a quarta, única vaga, estava tomada por pilhas de livros, entre eles títulos como “O Livro dos Pássaros”, “A Canção de Roland” e “Antologia de Nárik”.
“Se fosse você, jogava esse monte de papel velho pela janela!” resmungou Brown, olhando ao redor. “Quarto em ordem, tudo limpo... Se treinassem com a mesma dedicação que fazem faxina, seria perfeito.”
“Vou indo. As regras da academia você descobre depois.” Apontou para a placa torta atrás da porta, onde um prego já havia se soltado. “Não sei ler quase nada. Fora bandeira de guerra e trombeta de carga, o resto não me interessa.”
Ao sair, o sujeito deixou para Morpheus uma silhueta larga, mas carregada de certo peso, deixando-o pensativo.
Tudo então ficou em silêncio, restando apenas o som da água escorrendo do vaso. Morpheus enxugou o suor da testa, recolheu os cacos e sentou-se numa das poucas cadeiras desconfortáveis do quarto.
Após três noites sem dormir, esfregou os olhos e rapidamente adormeceu.
Três dias antes, quando Della o trancou naquele quarto escuro, Morpheus, que acabara de despertar o poder dos elementos, mas não sabia como utilizá-lo, forçou-se a usar todo o conhecimento teórico que recordava, depois que a vela se apagou, para concentrar energia e criar um brilho tênue na ponta do cajado. Seguindo as instruções que Della lhe dera, aprendeu sozinho a condensar uma lâmina cega de energia elemental. Após inúmeras tentativas fracassadas, finalmente, ao amanhecer do terceiro dia, conseguiu completar a tarefa. Só então, instruído por Della em meditação, pôde deixar a torre.
“Só quando o homem se encontra em perigo iminente, é que o senso de urgência o faz superar os próprios limites. O que Freud fez, o que eu fiz, até mesmo o que teu pai fez, tudo segue esse princípio. E um dia, você estará no lugar onde todos olharão para cima, contemplando o paraíso enquanto encara o abismo.”
Antes de partir, Della lhe dissera isso.
Naquele momento, Morpheus curvou-se em respeito, sem nada mais dizer.
A Academia de Cavaleiros de Cauchy era uma lenda no império, famosa por formar grandes homens e cavaleiros para a capital. Mas a lenda das lendas era a Sétima Companhia.
Nessa academia não havia divisão por séries; tudo era decidido pela força. Os mais jovens e fracos ficavam para trás, os fortes e briguentos avançavam. A companhia de Morpheus, a Sétima, não era a mais poderosa em combate, mas era, sem dúvida, a mais peculiar.
Resumindo: seus membros eram, no olhar comum, um bando de lunáticos.
Mesmo assim, com mais de trezentos anos de tradição, a Sétima Companhia formou mais da metade dos alunos cujos nomes foram registrados nos anais oficiais, a “História de Bizâncio”.
Ou seja, era um ninho de excêntricos.
Assim, cerca de uma hora após Morpheus iniciar uma meditação desconfortável, a Sétima Companhia retornou ao dormitório, fazendo-o despertar lentamente.
O barulho no corredor tinha uma rusticidade ausente dos ambientes nobres, diferente da algazarra do mercado, era uma informalidade cheia de vigor masculino.
Exatamente como o cheiro que sentira ao entrar no prédio, uma intensa presença de testosterona.
“Mas que diabos foi isso?! Quem foi o idiota—”
Enfim, os futuros colegas de Morpheus entraram no quarto. O primeiro a adentrar tinha voz potente, porém não rouca; ao contrário, era cheia e melodiosa. Apesar das palavras grosseiras, faltava-lhe o tom rude dos marginais, era evidente que aprendera a xingar há pouco tempo.
Não era alto, pouco maior que Morpheus, então com quinze anos, mas com ombros largos. Seu rosto era estranho: feições infantis contrastando com uma pele marcada e curtida, causando uma sensação de desacordo. Era bem moreno, com dentes alvos.
Ao ver a fechadura quebrada, praguejou alto, mas ao deparar-se com Morpheus já de pé, engoliu as palavras e ficou imóvel, até que alguém atrás o empurrou, fazendo-o se afastar, ainda calado, observando Morpheus.
Os dois próximos a entrar eram peculiares: um, baixinho, de expressão sombria — talvez pela maquiagem pesada nos olhos, transmitia uma sensação de malícia; o outro, gordo, com um coxão de frango na mão, lambuzado de gordura, absorto em sua comida, nem percebeu a presença do estranho.
Só quando quase esbarrou em Morpheus, notou o colega parado na porta e o estranho no quarto.
No segundo seguinte, para surpresa de Morpheus, o gordo, num rompante, largou o osso de frango e sacou a espada, gritando: “Inim—”
“Dá um tempo”, disse o baixinho, acertando um chute no traseiro do gordo, que caiu no chão ainda mastigando. No chão, o gordo olhou para Morpheus, mais curioso do que assustado ou desconfiado.
“Desculpem-me. O instrutor Brown trouxe-me até aqui para esperar vocês. A partir de hoje, sou aluno da Academia de Cavaleiros de Cauchy e colega de quarto de vocês. Assumo toda a responsabilidade pela porta e pelo vaso quebrados e peço desculpas pela minha intromissão.”
Morpheus rapidamente encontrou as palavras certas. Não era algo que dominava, mas as lições de Aquino e a observação dos nobres mascarados nos bailes o haviam ensinado o valor dessas formalidades.
Mas, pelo visto, tais modos não tinham muita serventia ali.
Ao mencionar o vaso, os três quase não reagiram ao comentário sobre a porta, mas ao ouvirem “vaso”, o grandalhão que entrara primeiro mudou de expressão drasticamente. Correu até a janela, murmurando algo como “Que o Senhor nos proteja”, numa agilidade que faria inveja a qualquer ofensiva de guerra.
“Graças a Deus!”
Ao ver que o buquê fora colocado num copo d’água improvisado por Morpheus, o sujeito suspirou aliviado, teatral como um ator de palco.