Capítulo Quarenta e Cinco: Ostentação, o Deus da Morte que Passa Rente ao Rosto
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Neste momento, Morfeu já havia retornado ao canto do salão, pegando a taça de vinho tinto que um criado lhe entregara. Olhou para o líquido vermelho e encorpado, perdido em pensamentos.
— Morfeu.
Uma voz fria e clara soou atrás dele. Ao se virar, Morfeu percebeu que era a duquesa Assara. No entanto, agora, de pé ali, ela parecia bem mais acessível do que havia se mostrado à mesa de jantar.
Seria pelo leve sorriso que se desenhava em seus lábios? Morfeu não sabia ao certo. Apenas pousou a taça, limpou delicadamente a boca com um lenço de seda e, em seguida, assentiu cortês:
— Sim, excelência.
— Não gosto desse tipo de tratamento, assim como já detestei Viorcina.
Assara não demonstrou entusiasmo em excesso. Caminhou lentamente até a mesa, sem a delicada ventarola de Nina, mas com uma dignidade impossível de imitar para qualquer menina.
— Nunca tinha ouvido falar de Viorcina antes; hoje foi a primeira vez.
Morfeu foi sincero. Diante de grandes aristocratas, ele sempre optava pela verdade; era, de fato, o modo mais amistoso para um jovem se apresentar perante um veterano nobre.
— Comecei a estudar Viorcina aos seis anos e só a larguei aos vinte e três. Desde então, jamais desejei tanto tocá-la novamente quanto hoje — disse Assara, quase como se falasse consigo mesma. — Como se chama aquela música?
— “A Tristeza do Rio Mori”. Meu mestre já a mencionara para mim, mas também é minha primeira vez ouvindo-a.
— Tens um mestre digno de respeito.
— Obrigado.
— Chame-me apenas de Assara, Morfeu.
— Sinceramente, não ouso.
Ao ouvir tais palavras, a duquesa, normalmente tão reservada, esboçou um leve sorriso. Seu rosto, de delicadeza etérea, floresceu como uma flor de lótus sob o luar, causando nos presentes um impacto não menor do que o desabamento estrondoso das geleiras no extremo norte de Caslandi.
Naquele instante, os nobres presentes ficaram boquiabertos — era inimaginável o que teria encantado tanto aquela duquesa temida por todos naquele rapaz. Muitos ali, inclusive, viam o sorriso de Assara pela primeira vez.
— É tradição da família Wendersol? Todos incapazes de mentir, como tolos?
Enquanto sorria, o manto gelado de indiferença que a envolvia parecia dissolver-se, e Morfeu sentiu-se menos tenso do que antes.
— Melhor ser tolo do que um falso cavalheiro construído sobre mentiras.
Essa frase fez com que o sorriso da duquesa esmorecesse por um breve momento, tornando-se frio. Contudo, em um instante, ela se recompôs, esboçando um sorriso amargo e soltando um leve suspiro.
— Ergo esta taça a ti, tolo destinado a brilhar no Império.
— Obrigado, duquesa Assara.
Morfeu sorriu, ergueu a taça e tomou um gole. Ao pousá-la, viu a duquesa caminhando até o músico que acabara de tocar outra canção. Trocaram algumas palavras, nada que surpreendesse os demais, e logo Assara retirou-se, alegando compromissos.
Ninguém percebeu, porém, as lágrimas que escorreram discretamente quando ela subiu na carruagem, segurando a longa saia de veludo.
Por trás do brilho da honra aristocrática, há dores e frios que só o próprio conhece.
Enquanto isso, Morfeu se deparava com um novo desafio no salão.
Após algumas peças de abertura, a música de dança começou a indicar que a jovem nobreza deveria procurar parceiros para o baile. Morfeu, contudo, parecia desinteressado. Não se adiantou a convidar nenhuma das jovens que, com olhares ansiosos, aguardavam um convite para uma valsa. Ao se virar, foi interceptado por uma delas.
Era Nina. A típica donzela nobre, que havia observado atentamente a conversa entre Assara e Morfeu. Agora, com um gesto sutil, estendia-lhe a mão, convidando-o para dançar.
Morfeu hesitou por um instante, mas não se intimidou, nem fez papel de tolo. Apenas ajustou o laço do pescoço, estendeu a mão para Nina e juntos entraram no salão de dança. Ao som suave da música, cumpriu, de maneira correta, seus primeiros passos em um evento formal.
Após uma despedida cortês, Morfeu, como já esperava, viu no canto do salão um “cavaleiro protetor das damas” fazendo-lhe sinal para conversar, com expressão nada amigável.
— Não tenho interesse em trocar inutilidades contigo. Não penses que, por seres um bastardo de Wendersol, podes fazer o que quiseres.
Norian, já portando o distintivo de mago intermediário da Academia de Magia de Pansell, ignorou o aviso de Nina. — Fique longe dela, ou então...
— Ou então? Vais usar tua magia para reduzi-lo a cinzas? Tens energia suficiente para quantos feitiços de segundo nível? Aposto que, se não fosse pela doação do laboratório de alquimia de teu pai, nem o professor Dodar te daria atenção.
Antes que Morfeu respondesse, uma voz preguiçosa interrompeu Norian, obrigando-o a calar-se. Era Humir, o prodígio que, aos onze anos, já ostentava o título de mago iniciado. No campo da magia, a palavra dele prevalecia, e Norian não ousava rebater. Engoliu a raiva e silenciou.
— Ouvi dizer que teu pai tentou abrir caminho para ti junto ao diretor e foi rechaçado? Realmente lamentável.
Ao saber do “feito glorioso” de Morfeu, o jovem gênio torceu o nariz: — O mundo da magia só se abre para poucos talentos. Parece que tu não tiveste sorte.
A frase foi implacável, o que satisfez Norian, que lançou um olhar de desdém a Morfeu: — Um bastardo que nunca ouviu falar de Teoria das Cordas do Espaço; discutir com ele é pura perda de tempo.
— Tempo? Sabes o que é tempo?
Morfeu, que até então se mantivera em silêncio, sorriu. De braços cruzados, fitou os dois jovens — o arrogante e o prodígio — e perguntou, em tom baixo.
O gesto indicava certo desagrado.
— Já ouviste falar das discussões da Teoria das Cordas de Hofves sobre o tempo? Se não, não me fales de inutilidades. Não penses que frequentar a Academia de Talens por alguns dias é o mesmo que decorar toda a biblioteca.
— Estás falando da edição simples de mil trezentas e quarenta e sete páginas?
A resposta de Morfeu deixou Norian boquiaberto e atraiu o olhar de Humir.
— Que pena. As pesquisas mais recentes sobre teoria das cordas já foram publicadas no Império Gilman. Talvez não tenhas visto “Sobre a Queda e Reconstrução da Torre”, de Hofves, onde ele mesmo refuta grande parte dos conceitos que criara e faz novas correções. O estudo sobre o tempo avança sem parar, mas tu permaneces parado no teu próprio mundo.
— Tu...
Norian emudeceu, incapaz de rebater. Sem conhecer a fundo Morfeu, não ousava refutar aquelas palavras. Afinal, a pesquisa de Hofves era conhecida há vinte anos; a biblioteca de Pansell era vasta, mas Norian só folheara superficialmente a edição antiga, publicada há mais de duas décadas. Agora, tentava ostentar erudição e acabou envergonhado.
— Onde leste isso? A biblioteca de Talens não possui mais livros de magia do que a de Pansell.
Humir, o jovem mago, interveio, com um tom mais sério: — O Império Gilman é o paraíso dos magos acadêmicos; os livros de lá raramente circulam em outros impérios. Isso deixa só duas possibilidades: ou tens meios extraordinários, ou estás mentindo.
— Acredites ou não — Morfeu deu de ombros e continuou —, acrescento apenas que tua capacidade de condensação de elementos é fraca, eis tua fraqueza. O controle do fogo que exibiste no estalar de dedos não foi tão fluido quanto imaginavas; na verdade, até para transformar o feitiço falado em um sussurro, foste forçado. Obter o título de mago não é tão fácil assim. Aposto que, para passar na avaliação de avanço, deves ter recorrido a algo, não?
Essas palavras pareceram detonar algo.
O jovem à sua frente ainda não sabia esconder emoções. Levantou a mão, pronto para atirar um feitiço em Morfeu, os olhos arregalados — suas palavras haviam tocado num ponto sensível!
No banquete, não era o único mago; no instante em que o prodígio Humir ergueu a mão, vários aristocratas, discretos, mas poderosos, voltaram seus olhares para o canto do salão.
Mas o que viram não foi um mago punindo Morfeu com magia.
Para um mago, a condensação, transformação, reorganização e liberação dos elementos de um feitiço de segundo nível leva cerca de um segundo e meio a dois segundos. Para um “quase mago” sem experiência, esse tempo ultrapassa dois segundos.
No mesmo intervalo, Morfeu já teria desferido três golpes fatais no abdômen do Rei de Carba com sua adaga.
Assim, antes mesmo de o prodígio terminar a condensação dos elementos, a lâmina de Morfeu já roçava o pescoço de Humir — tudo em menos de meio segundo.
Contudo, ele não permitiu que a situação fugisse ao controle. Ao sentir a lâmina fria, Morfeu recolheu a adaga na manga, deu um leve peteleco na bochecha de Humir e disse calmamente:
— A magia, por vezes, não é tão útil quanto imaginas.
Humir ficou estático, suando frio.
Aos onze anos, criado numa família de magos, estudava magia desde os seis. Chegar tão longe exigira tanto quanto de qualquer outro, mas nunca sofrera um revés — a juventude e o mimo familiar o tornaram presunçoso; o sucesso alimentou sua arrogância. Tudo isso terminou ali, com Morfeu mostrando-lhe, em meio segundo, o quão tênue é a linha entre a vida e a morte.
A lâmina sequer brilhou; o movimento de Morfeu foi tão rápido que pareceu apenas ter tocado de leve o rosto do menino, sem qualquer indício de intenção letal.
Mas a morte já havia roçado o rosto de Humir.