Capítulo Treze: O Destino da Jornada, Constantinopla
Agradeço a todos pelos votos e pelo carinho. Este livro será escrito aos poucos; desejo que cada palavra seja digna do meu coração.
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Esta jornada parecia estar chegando ao fim.
Pela primeira vez, Morfeus, deitado em uma cama de madeira, ergueu a cabeça e ficou a contemplar o teto, levemente absorto. Debaixo do travesseiro, guardava uma adaga, e a espada curta jamais se separava de seu corpo — a experiência acumulada o tornara prudente, assim como o conhecimento acumulado faz alguém erudito. Embora seu saber não se comparasse ao dos jovens herdeiros das famílias nobres, dedicados aos estudos nas academias aristocráticas, ele havia percorrido um caminho muito mais longo por outras veredas.
A vila exalava uma atmosfera cada vez mais agitada; mesmo que sua população não fosse tão densa quanto a de Pádino, sua proximidade com a capital, Constantinopla, trazia consigo o fluxo intenso de pessoas típico de um importante entreposto de comércio e via de passagem. Virando o rosto para a janela, Morfeus sentia que ainda existia uma barreira invisível entre ele e os demais habitantes comuns.
Ao levantar o braço, os traços escuros e flamígeros das runas mágicas em seu bíceps refletiam-se nos olhos azul-marinho, deixando-o momentaneamente absorto.
Bateram à porta. Após receber permissão, o velho mordomo entrou curvando-se, seguido por um homem trajando vestes brancas.
Seu olhar era frio; as vestes, etéreas; o capuz, amplo; os trajes brancos, adornados por filetes dourados, transmitiam uma solenidade e um mistério indizíveis.
Servo do Senhor?
Na mente de Morfeus, ressoaram as palavras do velho sobre esses religiosos: não eram insultos, tampouco elogios. Para Dom Quixote, esses homens não passavam de “negociantes que venderam suas almas a Deus”.
Tal expressão equivalia, quase, a “vender a alma ao demônio”, e as consequências eram óbvias. Sem querer acabar na fogueira como herege, Morfeus sabia que devia evitar qualquer comentário imprudente.
— Jovem senhor, este é Dom Megan, bispo da diocese de Cadora. Talvez ele possa acelerar sua recuperação.
O velho mordomo apresentou com deferência o bispo de alta posição — talvez para um herdeiro de duque um bispo não fosse alguém de muito destaque, mas, sendo fiel devoto, o mordomo fazia questão de mostrar reverência e humildade.
— Perdoe-me por não poder cumprimentá-lo, Bispo Megan.
Deitado, Morfeus parecia exaurido, postura que logo despertou a compaixão do bispo local — já ouvira falar das provações enfrentadas por aquele filho ilegítimo do duque. Fosse ou não um devoto sincero, o bispo elevaria em silêncio uma prece por ele.
— Onde há sinceridade, a forma é supérflua. O Senhor disse: “Toda devoção exibida aos outros é falsa.” Acredito que sua sinceridade não se limita a gestos.
Dom Megan postou-se diante de Morfeus; seus olhos serenos e tranquilos, o semblante de quem, na casa dos quarenta, já acumulava uma quietude incomum. Talvez Morfeus não soubesse, mas aquele homem era uma peça oculta promovida em segredo pela Casa Windesol, tendo-se tornado bispo aos trinta e sete anos — “um futuro promissor” era expressão justa para ele.
Diante da cordialidade, Morfeus ainda não largou a empunhadura oculta da adaga de aço mágico de Nápoles, apenas assentiu levemente e permaneceu em silêncio.
Megan não se demorou em formalidades, nem agiu como um médico ao examinar os ferimentos de Morfeus. Em vez disso, retirou do peito um pequeno crucifixo, que ergueu e passou brevemente sobre as lesões.
O grande número de fiéis no continente devia-se, em parte, a esses sacerdotes capazes de realizar milagres de luz — embora, muitas vezes, fosse necessário pagar caro por esse poder sagrado. Ainda assim, era uma ação de caridade e salvação; o progresso social decorre de atos justos e corretos, mesmo que, por vezes, também faça brotar corrupção e impureza.
Uma luz suave, acompanhada do cântico do bispo, brilhou sobre o corpo de Morfeus e logo se dissipou. Ossos e tendões aquecidos fluíam com uma leveza inédita, mas Morfeus sentiu um leve desconforto.
Era uma reação instintiva do corpo, como se, em algum nível, rejeitasse aquela luz universal.
O bispo não pareceu notar nada. Realizar magia sagrada avançada não o deixou sequer cansado — prova de que não era um tolo beneficiado pela Casa Windesol.
Ossos realinhados, carne regenerada — o poder do milagre era indiscutível, mas Morfeus, prudente, não tentou mover-se de imediato, comportamento que, aos olhos do bispo, só reforçava sua natureza cautelosa.
— A glória do Senhor será concedida aos bondosos, assim como o sol atravessa as nuvens.
Curvou-se, recuou, despediu-se sem palavras vazias; o velho mordomo fez o sinal da cruz e, respeitoso, acompanhou o bispo até a saída.
— Velho, você tinha razão... Esses homens santos não conseguem esconder esse cheiro.
Suspirando baixinho, Morfeus sentou-se e, como se rasgasse papel, removeu as ataduras. Observou o braço, sem vestígio de ferida, mas ainda marcado pelas runas de um vermelho escuro.
— E esse poder, onde me levará?
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Morfeus, em hebraico antigo, significa “presente”; esse nome o acompanhava há quinze anos, e só agora começava a compreender o real sentido oculto por trás dele.
Quando a imensa caravana avançou pelo segundo dia de viagem, e os muros grandiosos de Constantinopla se ergueram diante de seus olhos, Morfeus finalmente entendeu o significado de “presente”.
As muralhas, imponentes e escuras, estendiam-se até onde a vista alcançava, sem revelar seus limites. O amplo fosso de proteção não servia apenas à defesa, mas também facilitava o tráfego. Esta grande cidade era cortada por um rio navegável, que a dividia em duas partes: ao sul, a principal, vasta e próspera, abrigava nobres, plebeus e a família real, subdividida em muitos distritos. Uma cidade de quinhentos mil habitantes, construída graças às condições naturais privilegiadas, devia sua existência ao monarca fundador — Constantino.
Atrás de Constantinopla, estendia-se o oceano; além de cem milhas náuticas, situava-se outro reino — a chamada terra selvagem de Osgiliath. No entanto, o poder do Império Bizantino era tão considerável que ninguém ousava ameaçar a capital.
Ruas movimentadas, fileiras de edifícios sem fim desde o portão da cidade — ali era o cruzamento do mundo, a principal metrópole do continente, a capital imperial batizada em homenagem ao fundador do império.
Naturalmente, as correntes subterrâneas de poder ali eram incomparáveis a qualquer outra região.
Como que para encobrir algo, antes de entrar em Constantinopla, uma comitiva de carruagens aguardava já há algum tempo fora dos muros. Quatro robustos cavalos alteraram o conceito que Morfeus tinha sobre carruagens; ele sabia, ali começava verdadeiramente sua incursão no universo da nobreza.
Sem o brasão escandaloso da família da Íris Roxa, a carruagem era discreta. Além de uma guarda de doze homens, o restante dos soldados e guardas ficou fora da cidade. O velho mordomo, agora de manto negro e capuz, assumiu silenciosamente o posto de cocheiro.
Surpresa.
Morfeus, no interior da carruagem, virou-se de leve, mas não afastou a cortina do veículo luxuoso. Pelas brechas do tecido, vislumbrou transeuntes nas largas avenidas — havia mais gente ali do que vira em toda a sua vida.
No interior, o conforto o envolvia; o carpete ostentava o brasão da Casa Windesol, de traços antigos e imponentes. A mesa de madeira exalava uma fragrância delicada; a carruagem deslizava com suavidade, sem solavancos. Garrafas de vinho rubro, de aroma límpido e encorpado, repousavam ao alcance, cada qual oriunda das mais renomadas vinícolas do império — verdadeiros tesouros.
Sozinho, Morfeus permanecia em silêncio. O fascínio da cidade grandiosa não o seduzia — para ele, era apenas uma selva substituída por outra. Adaptar-se às regras seria sua única constante dali em diante; antes de admirar o entorno, preferia firmar cada passo no chão.