Capítulo Trinta e Dois: A Magia, Essência de Todas as Coisas
Agradeço a todos os amigos pelos votos vermelhos. Ontem foram 360, hoje haverá dois capítulos, totalizando 6000 palavras. Aqui está o primeiro capítulo, desejo a todos um Feliz Dia do Trabalhador. Aos estudantes, se tiverem um tempo, ajudem em algumas tarefas domésticas em casa; olhem mais para os outros e menos para si mesmos, assim a vida será mais bela.
Morfeu não encontrou palavras.
Enquanto teorias inacreditáveis abalavam tudo o que ele conhecia, Daila comprovou, com ação prática, a viabilidade daquele conceito.
Talvez seja assim que soam trovões onde reina o silêncio: sem cenas grandiosas nem rituais de magia espetaculares, apenas um projétil elemental de primeiro nível, ainda em estado semicondensado, atravessou a matriz defensiva de nível quarenta e sete, antes considerada intransponível. Assim como Morfeu dissera, se matar um javali com uma só estocada era sinal de habilidade, o que ocorreu ali era o equivalente a nocautear um dragão menor com um único soco.
“A teoria não serve apenas para ser repetida, assim como treinar esgrima não é só para ganhar medalhas inúteis.” Daila, parada no centro do cômodo iluminado, falou suavemente: “Agora, coloque-o ali em cima.”
No centro do quarto, onde o ambiente era opressivo e quase desprovido de móveis, uma pesada mesa de pedra surgiu do chão ao comando de Daila. Linhas complexas cobriam toda a superfície, e Morfeu conseguia distinguir alguns nós de matrizes mágicas — mas seu propósito era um completo mistério para ele.
Um jovem que mal havia começado a aprender magia jamais entenderia o real significado daquilo, assim como ignorava que aquela mesa de pedra, movida por Daila com um leve toque de magia elemental, valia o suficiente para comprar metade da Academia Talens. Mas, sem os sete círculos avançados de matrizes desenhados em sua superfície, aquele bloco de pedra de Vanmir seria apenas uma matéria-prima mágica, sem preço extraordinário em um leilão.
Ao largar o corpo ainda quente sobre a mesa, Morfeu percebeu que aquela superfície intricada possuía funções inimagináveis. Ao tocar sem querer o tampo, sentiu um leve calor. Enquanto Daila retirava de uma estante um estojo de madeira ricamente decorado, Morfeu pressentiu que estava prestes a presenciar uma cena terrivelmente cruel e sangrenta.
“O título de mago, nos primórdios, englobava muitos outros significados.” Daila abriu o estojo com uma chave que não se sabia de onde viera, revelando onze facas de tamanhos diversos — de uma minúscula lâmina para raspar ossos, do tamanho de uma unha, até um grande cutelo serrilhado — e ainda quatro tesouras de modelos variados, dispostas ordenadamente nos encaixes da mesa. “A primeira a provar que o Sol, e não nosso mundo, era o centro do universo, foi uma astróloga que ousou desafiar o poder do Papa. A teoria física dominante foi criada e confirmada por um mago elemental que gostava de maçãs. O grande alquimista Jacó fez contribuições extraordinárias nos estudos de reações internas e em cadeia da matéria. Se não fosse pelo mestre em poções Niel, que desenvolveu fórmulas para combater doenças, talvez um terço do continente já teria sucumbido à peste.”
“Ou, por exemplo, Hitchcock, que desenvolveu a teoria do ‘ponto crítico’ dos escudos mágicos elementais, era professor de magiologia das feras. Seus objetos de dissecação iam desde rãs, corpos humanos reais até dragões menores de ouro. Chegou-se a brincar que qualquer criatura que cruzasse seu caminho acabava dissecada por ele. Agora, entende o real sentido da palavra ‘magia’?”
Daila colocou as onze lâminas de prata e as quatro tesouras nos encaixes da mesa, enquanto a umidade condensada fervilhava, lavando os instrumentos já brilhantes.
“A magia abarca tudo?”
“Em linhas gerais, sim.”
Daila não se alongou. Examinou rapidamente os cortes que Morfeu fizera antes, assentiu e comentou: “Ataques precisos; quem te treinou tem boa técnica.”
Ergueu os olhos e, como se por acaso, lançou um olhar divertido para a adaga que Morfeu jamais largava.
Morfeu permaneceu em silêncio, sem mencionar o nome de seu primeiro mentor.
Daila também não se prolongou em palavras e iniciou imediatamente a explicação, enquanto as lâminas começavam, sem piedade, a dilacerar o infeliz vampiro. Morfeu, curioso sobre o que Daila quisera dizer com “eu disseco uma metade, você disseca a outra”, não imaginava que, durante quase três horas, Daila fosse dissecar quase por inteiro aquele corpo perfeitamente proporcionado, poupando apenas o coração que Morfeu perfurara antes. Praticamente todos os músculos e órgãos foram abertos com habilidade e até certo lirismo.
Ao fim, sem demonstrar o menor cansaço, Daila recolocou as ferramentas já utilizadas nos encaixes para limpeza. Pegou de um dos frascos próximos uma garrafa de líquido rubro-escuro, abriu-a delicadamente e despejou o conteúdo sobre o peito do vampiro, cuja pele havia sido esfolada em camadas.
No instante seguinte, o vampiro, privado de todos os órgãos e músculos — exceto o coração — começou a mudar. O órgão, até então imóvel, pulsou forte ao contato com o líquido escarlate, e filamentos da mesma cor se estenderam como raízes, cobrindo em segundos todo o corpo. Os músculos reassumiram suas formas, a pele rasgada cicatrizou a olhos vistos e, em menos de dois minutos, o vampiro estava restaurado, como se nunca tivesse sido dissecado!
E, surpreendentemente, abriu os olhos.
Contudo, Daila não parecia disposta a ouvir-lhe palavra alguma. A matriz mágica da mesa brilhou ao contato de sua mão; as asas negras do vampiro foram presas antes que pudessem se mover, e o corpo, agora desperto, permaneceu imóvel como se estivesse congelado. Apenas os olhos abertos transbordavam uma fúria intensa.
Mas diante de Daila, essa fúria se transformou em puro terror.
A mulher que, impassível, acabara de dissecar o vampiro depositou, com suavidade, o frasco de sangue de píton de Miro, agora pela metade, sobre a mesa e falou baixo:
“Você tem duas chances.”
Morfeu assentiu, baixando o olhar para o vampiro imobilizado. Pegou a primeira das pequenas lâminas usadas por Daila, girou-a nos dedos e, exalando lentamente, disse:
“Comparado ao macaco-pedra da Mória, sua anatomia nem é tão complexa.”
Nos tempos em que precisava caçar partes de feras mágicas para sobreviver, Morfeu já era hábil com o bisturi — só lhe faltava precisão.
O vampiro, de olhos arregalados, sentia-se humilhado, vendo um garoto que não tinha nem um décimo de sua idade começar a rasgar seu corpo, impotente para protestar.
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Quando Morfeu finalmente deixou a torre, já era madrugada.
A torre imponente bloqueava o luar em suas costas. Ele caminhava pelas sombras, passos exatos como sempre, embora agora com olheiras escuras sob os olhos, demonstrando cansaço — afinal, foram seis horas ininterruptas de dissecação até atingir o padrão exigido pela mentora.
Mas o padrão não era apenas esquartejar o infeliz vampiro; durante todo o processo, nenhuma fibra muscular podia ser danificada além do necessário, nem uma artéria ou veia cortada à toa. Se o açougueiro perfeito era descrito pelo ditado “dissecar um boi sem esforço”, Morfeu agora trilha esse caminho da perfeição.
Por que dissecar? Para que um mago precisa disso? Para o povo comum, magos são capazes de pulverizar um homem com um gesto. Mas Morfeu percebeu, ao estudar, por que o primeiro capítulo de “Fundamentos da Teoria Elemental” dizia: “O mago nasce para buscar a verdade.” A dissecação serve para obter conhecimento detalhado e amplo — e, ao mesmo tempo, para reconstruir silenciosamente toda sua visão de mundo.
Assim como Daila queimou sem piedade as anotações que Morfeu fizera sobre teoria elementar, o conhecimento dos livros jamais se igualará à experiência direta. Por mais que Daila lhe desse acesso aos textos mais avançados do continente, isso não significava que aquelas teorias continuariam válidas por cem anos.
A nova lista de leituras estava pronta. Desta vez, Morfeu não buscaria livros na velha estante de Daila, mas precisaria ir à grande biblioteca da Academia Talens em busca de tomos clássicos, não para memorizá-los, mas para encontrar falhas e lacunas.
Parece injusto: o que milhões tomam como verdade, agora cabe a Morfeu questionar — felizmente, ele já tem alguma base, frágil como um castelo de cartas, mas suficiente para ser ousado em seu campo.
Avançando pela noite, Morfeu não desperdiça um segundo.
A Academia Talens estava insólita e silenciosa. Sob o véu da noite profunda, Morfeu chegou à biblioteca, que permanecia aberta durante a madrugada. Após o registro, seguiu a lista e começou a busca.
Naquele instante, a biblioteca era tão silenciosa quanto um túmulo. Era a maior de todas, exceto pela Real, com mais de cem mil volumes em um prédio colossal. Como nobre, Morfeu tinha acesso à maior parte do acervo e, se exibisse sua identidade de herdeiro dos Windesol, poderia acessar até as salas mais restritas.
Naturalmente, a lista incluía obras raras só disponíveis nessas salas. Morfeu dirigiu-se ao bibliotecário, mostrou o emblema emprestado por Daila, e o funcionário, interrompendo um bocejo, prontamente o guiou até a sala central, marcada como “Seção de Leitura Nível Quatro”, indicando que Morfeu podia entrar.
Morfeu assentiu, entrou sem responder e, na sala iluminada, deparou-se com uma figura familiar.
Crivey.
Parecia não notar sua chegada. Aquele garoto, socorrido e apanhado logo no primeiro dia de aula, seguia absorto em seu próprio mundo, completamente alheio ao que o rodeava.
Morfeu não sabia por quanto tempo as palavras de Daila manteriam Crivey naquele estado de esquecimento de tudo — dez dias? Um ano? Uma vida inteira?
Crivey era apenas um passageiro em sua jornada. Por isso, os conselhos de Dom Quixote continuavam ressoando em seus ouvidos: “A amizade entre homens sempre se constrói sobre interesses; dar a vida por um amigo é a maior tolice, não acredite nas bobagens dos romances de cavalaria.”
O velho sempre parecia ter muito a dizer sobre esse tema, como se carregasse uma dor secreta que só sabia expressar assim.
E afinal, o que é, realmente, ser amigo?