Capítulo Cinquenta e Cinco: Ira e Remorso
Nos últimos dias, tenho passado as manhãs no laboratório da escola, realizando experimentos, e as noites escrevendo, mal encontrando tempo para tudo. Ontem, acabei quebrando um béquer e cortei profundamente o dedo, o que me deixou bastante irritado.
Com o dedo machucado e sangrando, aproveito para pedir votos, brincando. Haverá uma segunda atualização à noite, e peço aos amigos que ainda não adicionaram à biblioteca, que o façam, pois isso me motiva.
A jovem, cujo nome ninguém sabia, exibia uma postura destemida, com as pernas cruzadas sobre a cadeira, olhando Morfeus de maneira descarada e sem nenhuma vergonha.
No púlpito, o velho professor parecia surdo, continuando sua aula sobre a decadência dos Cavaleiros de Fridim sem levantar a cabeça, alheio ao fato de que já haviam tombado mais de cinco conjuntos de mesas e cadeiras no centro da sala. Com dedos ressequidos, molhou-os na língua, virou uma página e prosseguiu:
“No que diz respeito aos interesses dos Cavaleiros de Fridim, podemos observar...”
Morfeus levantou-se lentamente.
Não era alto, mas fitou a jovem que ostentava o emblema de Cavaleira de Guarda Avançada no peito e caminhou até ela, passo a passo.
A situação deixou os estudantes ao redor perplexos; até mesmo a garota, orgulhosa na cadeira, abriu levemente a boca, surpresa.
Morfeus parou a um metro dela, que o olhou sem entender, sem saber o que dizer. Na verdade, poucos no instituto, depois de serem espancados por ela, conseguiriam se levantar assim. Cavaleiras de Guarda Avançada possuem força incomum; como dizia o antigo tutor de Morfeus, Dom Quixote, o treinamento dos cavaleiros é muito mais complexo que o dos espadachins, com ênfases diferentes. Aquela jovem claramente era explosiva e poderosa, capaz de lançar Morfeus, desprevenido, cinco ou seis metros para longe com um único chute, algo que nenhum dos instrutores que já brigaram com ele conseguiria fazer.
Mas este rapaz, que foi chutado sem motivo, nunca se contentou em ser apenas um bom aluno obediente. No instante em que ela rompeu as regras, estava predestinado a se tornar o primeiro exemplo da irritação de Morfeus.
Levantou o pé, sem piedade.
“Pum!”
Desta vez, quem voou foi a garota que estava na cadeira.
O som de respiração presa ecoou; ao redor, muitos ficaram boquiabertos!
Morfeus não demonstrou nenhuma intenção de poupar a menina; após o chute, deu um salto e avançou até a garota, que ainda tentava se levantar, e aplicou outro golpe!
“Pum!”
Dessa vez até o velho professor ergueu a cabeça, mas com os olhos turvos, viu apenas uma cena indistinta, balançou a cabeça e voltou a ler o livro.
Os alunos já não conseguiam se manter sentados. Por mais calmos que fossem, ficaram boquiabertos com a sequência de ações de Morfeus!
“Você ousa—”
“Pum!”
O terceiro chute.
A tal “virtude cavaleiresca” de respeito às mulheres era, para Morfeus, uma bobagem. Olhando para a garota, atordoada no chão, ele a ergueu pelo colarinho e, como se fosse um saco de batatas, jogou-a sobre a mesa ao lado!
“Craque!”
A mesa se despedaçou, madeira voando. A orgulhosa cavaleira estava agora caída no chão, totalmente pasma.
Cavaleiras de Guarda Avançada não ficariam invalidadas por alguns golpes, mas era certo que ela não conseguiria se levantar tão cedo.
Piedade? Morfeus não sabia o que havia de especial para se compadecer; para ele, ela era apenas uma lunática que o atacara sem motivo, e seu revide era instintivo, sem relação com o sexo da adversária.
Gente vinda da selva é tanto racional quanto irracional.
Morfeus cuspiu para o lado, não por desprezo, mas porque o sangue lhe fervia depois daquele chute. Aos olhos dos outros, parecia arrogância extrema.
A aula já não podia seguir; Morfeus olhou ao redor, notando que o centro da sala era um campo de ruínas, com poucos colegas sentados, todos observando-o como se vissem um fantasma, alguns murmurando preces, o que ele achou estranho.
Era só uma briga, precisava de tanto?
Ao olhar para a garota, de olhos arregalados, aparentemente em choque, Morfeus limpou o canto da boca e saiu para fora da sala.
O silêncio era absoluto, apenas seus passos ecoavam. Todos, independentemente de status ou habilidade, observavam aquele vulto com reverência.
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A manhã inteira foi inútil, Morfeus sentiu que desperdiçar tempo era um pecado. Ao voltar ao dormitório, a primeira coisa que fez foi treinar alguns diagramas mágicos com sua varinha. Após três dias e noites na torre de Dela, já aprendera a usar fios cristalinos da mente para concentrar energia na ponta da varinha. Embora as lâminas elementares criadas não fossem tão afiadas quanto lâminas reais, ao menos conseguiam marcar o painel de pedra bruta.
Morfeus percebeu que desenhar diagramas mágicos com a varinha era bem mais fácil do que com uma pena. A varinha, por ser direcionada, corrigia muito dos tremores do pulso durante o desenho, reduzindo o erro. Agora entendia por que magos avançados usavam ferramentas mágicas para desenhar diagramas; seres capazes de desenhar, sem erro, dezenas de nodos apenas com os dedos eram raríssimos. Era melhor memorizar mais diagramas do que perder tempo com precisão minuciosa.
Era uma questão de eficiência; para Morfeus, o tempo nunca era suficiente.
Desenhar diagramas consome energia cristalina. Agora, com a energia acumulada após o desaparecimento da runa mágica, Morfeus finalmente ultrapassara o limiar de mago de baixo nível: isso significava poder lançar um feitiço completo de ataque ou defesa de nível um, reconhecido pela guilda mágica. Contudo, até então, não aprendera nenhum feitiço desse tipo. Os livros que Dela lhe dera eram sobre sistemas mágicos e áreas de ponta, todos relacionados com problemas estudados pela “Congregação do Compasso Dourado”. Seu caminho era o mais direto e plano rumo ao topo.
Porém, não encontrara nenhum livro sobre encantamentos básicos ou feitiços de ataque e defesa.
Usando a varinha para cortar linhas finas em um pergaminho no chão, Morfeus desenhou rapidamente dez diagramas básicos, sem gastar núcleos caros para testar sua qualidade, apenas ativando-os com os poucos fios cristalinos que restavam.
O poder do diagrama depende do material, precisão, intensidade e pureza da energia, tudo muito complexo. Os diagramas desenhados por Morfeus em pergaminho brilhavam apenas com luz tênue; se Dela os desenhasse em uma placa de pedra pura com alta condutividade, o “diagrama de iluminação por fogo” produziria um círculo de chamas. No estado ideal, poucos conseguem alcançar a chama “incolor”; ter fogo azul já é raro. O nível de Morfeus, por ora, era apenas conseguir uma pequena luz.
Mas isso bastava. Morfeus, de humor ruim, esgotou sua energia cristalina e entrou em meditação, mas sua mente perturbada impediu um bom resultado.
Era natural; aquela briga o deixara inquieto. Embora tivesse vencido, e aprendido um pouco sobre relações humanas, ao se acalmar percebeu que talvez tivesse exagerado.
Ainda não sabia sentir culpa especial por lutar contra uma garota; apenas achava que talvez tivesse sido duro demais.
Esse escrutínio interior era diferente da simplicidade da selva: lá, caçar era caçar, matar era o objetivo, e se a presa fugisse, bastava persegui-la até o fim. Agora, diante de uma sociedade complexa, Morfeus ainda não aprendera a ser diplomático. O que o atormentava era um questionamento de consciência.
Sem conseguir meditar, não insistiu. Com o espírito inquieto, suspirou, olhando para fora da janela como qualquer jovem atormentado, os dedos acariciando inconscientemente a pequena espada de aço mágico na cintura. Tudo que aprendera parecia inútil, e acabou se lembrando das palavras do velho Aquino e das lágrimas da pequena freira ao se despedir.
“Aconteceu algo grande!”
A porta do dormitório, recém reparada pelos soldados do departamento de manutenção, foi escancarada. Buzer entrou correndo, radiante por finalmente ter algo para se vangloriar, sem se preocupar em limpar a gordura na boca que indicava alguma comida furtada, apontando para fora da janela:
“Acabei de ouvir que houve uma briga na sala de aula!”
“Isso é tão raro?”
Morfeus ergueu as sobrancelhas, e seu humor, já confuso, piorou.
“Briga não é raro! O estranho é que dizem que aquele sujeito foi derrotado! E ficou tanto tempo no chão que nem conseguiu se levantar! Isso é um verdadeiro milagre!” O gordo explodiu em palavrões, agitado, como se o Império de Gabriel tivesse sido esmagado por Bizâncio. “Aquela demônia! Será que finalmente alguém a levou ao tribunal?”
A pose solene de oração foi interrompida por um chute de Hiddink, que entrou logo depois. Buzer, com seus quilos extras, caiu na cama rindo alto, enquanto Morfeus observava a mesa quebrada, perdido em pensamentos.
O grandalhão Koven entrou, fechou a porta, abafando o ruído do corredor, e enquanto tirava a roupa murmurou:
“Quem consegue brigar aqui não é pessoa comum. Estou há um ano e nunca vi alguém enfrentar ela; se fosse eu, provavelmente…”
“Seria igual para qualquer um, não adianta supor.” Hiddink sentou-se, bebeu água, ergueu levemente o olhar, curioso ao ver Morfeus distraído:
“O que foi? Não entendeu o que aconteceu?”
“Lembra por que ontem saímos tão rápido do refeitório? Era por causa de uma peste que ninguém ousa provocar,” Hiddink inclinou o corpo, voz baixa. “Aquela é alguém que ninguém ousa desafiar. Quem a ofende, está literalmente condenado a esperar pela morte.”