Capítulo Cinquenta e Seis: Príncipe Longino

Cetro Negro Asa da Morte Nassarion 3395 palavras 2026-02-07 18:51:08

Segundo capítulo do dia, peço um voto vermelho.

“Oh.”

Morfeu parecia pouco interessado, assentiu com a cabeça e sentou-se na cadeira junto à janela, permanecendo absorto. Depois de um longo momento, virou-se de repente e perguntou: “Ela pertence à família real?”

“Filha do Príncipe Hades.”

Hiddink parecia já estar esperando por essa pergunta de Morfeu; estendeu a mão e entregou a Cowen um frasco de pomada, que este lançou ao gordo cujo ferimento nas costas ainda não estava curado. Os outros três colegas de quarto voltaram-se e olharam para Morfeu, como se aguardassem sua reação ao ouvir essa notícia.

“Príncipe Hades... o comandante das forças terrestres? Príncipe Longinus?”

Morfeu sentiu um calafrio interno; era certamente a família descrita com menor frequência, mas com o conteúdo mais impactante na “Crônica dos Brasões” — Longinus. Esse sobrenome real não era apenas sinônimo de poder supremo no Império Bizantino; o próprio Príncipe Hades era reconhecido há um século como um dos mais poderosos cavaleiros do império, apelidado de “Cavaleiro Sangrento” — pois sob as botas de seu exército jazem mais de dez mil almas.

Ele era o assassino oficial do império, o próprio significado de ferocidade e sangue; sempre que mencionado, o temor sobrepujava o respeito.

Hiddink assentiu: “Lilith Longinus. Ninguém no campus ousa mencionar esse nome; todos a evitam. Ela é forte, mas, para ser honesto, se Buzer lutasse até o fim, não necessariamente perderia. Contudo, o pai dela é tão implacável que ninguém se atreve a provocar.”

“Entendi.”

Morfeu soltou o ar, sorrindo amargamente, sem saber o que dizer.

Realmente, ele se sentia numa situação delicada; como herdeiro legítimo de uma antiga família aristocrática do império, seu apoio era incomparável. Agora, porém, havia provocado uma família de nível ainda mais elevado, de um príncipe, mais poderosa até que os Windsor. Sentia-se culpado por ter causado problemas ao pai, que tanto se esforçou para colocá-lo ali.

A culpa corroía-lhe o coração.

Mas o que poderia fazer?

Os problemas que nunca encontrara nas florestas agora o deixavam preocupado; esfregou vigorosamente o rosto e, olhando para os três colegas que se preparavam para ir jantar, disse: “Vou descansar um pouco, não vou comer.”

Os três não perceberam nada; apenas o conheciam há dois dias e ainda não compreendiam seu temperamento, assumindo que ele tinha o hábito de pular o almoço, e saíram.

Morfeu não estava inquieto ou temeroso; apenas sentia necessidade de um ambiente silencioso para pensar sobre as escolhas que deveria fazer. Pegou sua varinha de madeira de fênix, pequenas luzes dançaram na ponta, e ele ficou contemplativo, logo tomando uma decisão.

O clima no refeitório estava estranho naquele dia.

A estrutura era simples, de pedra; o teto não tinha a grandiosidade das pinturas em cúpula do refeitório da Academia Talens, nem os pisos luxuosos. A alimentação dos estudantes tinha uma característica: era bruta. Pão de centeio abundante, suficiente para matar alguém de tanto comer, mas pouca carne, geralmente salgada. Não era que a academia não tivesse recursos, mas seguia um padrão: refeições nutritivas apenas antes dos exercícios ao ar livre. Como eram todos filhos de nobres, jamais mimavam aqueles jovens de paladar apurado.

Naquele momento, contudo, os nobres comiam pão preto e conversavam baixinho, sem devorar tudo rapidamente para fugir, como era costume. Olhavam furtivamente ao redor, com o olhar focado na entrada do refeitório. Como esperado, a figura dominante e arrogante não apareceu.

Pela primeira vez na história, os alunos comeram em paz, mesmo com pão rústico e carne salgada. Claramente, não apenas Buzer sentiu que aquela refeição era deliciosa.

Após o descanso do almoço, Morfeu voltou ao campo de treinamento, armado e em posição; ninguém associava aquele calouro, já famoso por brigar com o instrutor, ao protagonista do rumor que se espalhava pelo campus — porque a disciplina “História do Sistema de Cavalaria” era tão impopular que só atraía estudantes veteranos e de fraco desempenho, muito distantes do prestigiado Sétimo Pelotão. Morfeu não revelara seu nome, e quando viram Lilith derrotada, todos os olhares se voltaram para ela; quando pensaram no responsável, Morfeu já havia desaparecido.

Assim, naquela tarde, Morfeu parecia igual a sempre, apenas utilizando uma forma de empunhar a arma diferente, completando a tarefa sob o olhar tácito do instrutor, como Brown havia sugerido, até o pôr do sol.

Ao entardecer, sem ter comido o dia todo, Morfeu não acompanhou os colegas ao refeitório, para a planejada “festa”, mas tomou outro caminho — rumo a uma pequena casa, diferente das residências de pedra dos dormitórios da academia, onde, segundo Brown, Lilith residia.

Brown não se surpreendeu ao saber que Morfeu havia derrotado Lilith; apenas lhe dirigiu um polegar em sinal de aprovação, sem dizer mais nada.

A noite era fria; Morfeu, olhando para a casa iluminada à frente, apertou com força o punho na espada.

Será que não sairia um bando de cavaleiros da família para o esquartejar?

Morfeu sentia pela primeira vez o peso de uma grande família. Sempre fora ele quem intimidava os outros; agora, precisava enfrentar sozinho. Enfim, compreendeu — na maioria das vezes, um nome forte vale mais do que qualquer poder pessoal.

Como seria esse encontro?

A casa, em estilo barroco, era imponente; Morfeu parou à porta, respirou fundo e bateu com decisão.

Após um momento, a porta se abriu.

Erguendo o olhar, o herdeiro da família Windsor ficou surpreso — diante dele, um homem forte como uma montanha, cerca de quarenta anos, de expressão nada feroz, sem ostentar poder, mas que imediatamente fez Morfeu pensar no velho Dom Quixote. Cabelos castanhos bem arrumados, sobretudo escuro de padrões discretos, mas de valor elevado.

No peito, nenhum brasão; no corpo, apenas fivelas metálicas nas botas, tudo discreto e apagado — talvez a marca mais evidente daquele homem. Olhou para Morfeu, sem emoção, e disse: “Tem algo a tratar?”

A voz era densa, sem alegria ou tristeza.

“Vim pedir desculpas à senhorita Lilith.”

Morfeu não fez nenhum gesto aristocrático, nem sorriu de forma servil ou rígida; apenas assentiu diante da pergunta, revelando o motivo da visita.

O homem à porta não perguntou mais nada, recuou um passo e disse: “Entre.”

Morfeu olhou ao redor, sentindo que o homem imprimia à casa uma atmosfera desolada, solitária e fria.

Entrou na casa de pedra; não havia luxo, o interior era semelhante ao dormitório de Morfeu, apenas com mais objetos pessoais — uma sala pequena, quartos fechados, um depósito escuro, tudo um pouco desarrumado, até menos do que seu próprio dormitório. Assim era a moradia de Lilith.

Na parede, duas espadas longas penduradas, como peças de coleção; na mesa, livros e álbuns de poesia e prosa bizantina, todos ligados à cavalaria. Uma armadura pesada de Milão, feita sob medida, estava no suporte, sempre polida, sem poeira. O copo era muito usado, as penas também.

O homem, já voltando para dentro, sentou-se casualmente diante da lareira, na cadeira, que rangia sob seu peso. Morfeu não se sentou, apenas ficou de pé, em silêncio.

“Foi você quem a feriu hoje.”

Uma afirmação, não uma pergunta; o homem, com o olhar fixo nas chamas da lareira, falou sem virar a cabeça.

“Sim.”

“Veio pedir desculpas por isso?”

“Não vou dizer aquelas bobagens sobre quem começou. Estava irritado, acabei pegando pesado.” Morfeu respondeu sem hesitar, dando de ombros. “Não peço desculpas por tê-la atingido, mas por ter exagerado.”

Essas palavras fizeram o homem diante da lareira erguer lentamente a cabeça, mas seu olhar permaneceu no fogo; respirou fundo, como se refletisse, e murmurou: “Ela nunca apanhou na vida, nem mesmo de mim, seu pai.”

Pai?

Morfeu confirmou quem era aquele homem: o Príncipe Hades, um dos maiores do Conselho dos Cavaleiros da Távola Redonda do império!

No entanto, aquele homem, retratado como um assassino cruel nos livros de heráldica, não transmitia a aura louca ou fria esperada; por algum motivo, Morfeu sentiu que ele era como Dom Quixote — alguém que, após atingir poder extremo, retornou à simplicidade.

Diante daquela frase do Príncipe Hades, Morfeu sabiamente permaneceu calado, em pé.

“Morfeu Windsor, embora seja o último descendente de Akal, se eu sacar a espada e o partir em pedaços agora, o que seu pai faria? Arriscaria toda a família numa guerra comigo? Ou simplesmente desmoronaria?”

O tom era neutro; no brilho da lareira, o rosto do príncipe parecia uma escultura, com uma frieza implacável.

“A espada curta de aço mágico de Nápoles, a varinha de madeira de fênix... Sei quem está por trás de você, mas isso não me impedirá de agir.”

A frase do príncipe fez os olhos de Morfeu se arregalarem.

Após um momento de silêncio, o jovem aristocrata, pela primeira vez sentindo pressão, respondeu lentamente: “Sou apenas um filho ilegítimo.”

“Um filho ilegítimo interessante.”

O Príncipe Hades encarou silenciosamente a lareira; ambos ficaram calados, como estátuas.

Muito tempo depois, o príncipe perguntou: “Sabe por que ainda não foi despedaçado?”

Morfeu, naturalmente, balançou a cabeça.