Capítulo Sessenta e Três: Tal Pai, Tal Filho
Ainda envolto nos trabalhos de conclusão de curso, hoje só haverá uma atualização. Ontem recebemos 440 votos vermelhos; se hoje mantivermos esse nível, amanhã publicarei um capítulo extra. Para ser sincero, na tentativa de evitar encher linguiça, apaguei mais de dez mil palavras nos últimos dias. Escrevo pouco, mas deleto muito; a velocidade de atualização está bastante lenta, mas faço tudo para que a leitura seja mais agradável para vocês. Agradeço a todos pela paciência com esse ritmo; quando terminar a graduação, prometo aumentar em pelo menos cinquenta por cento o número de publicações. Peço compreensão pelo esforço de um formando e, independentemente de tudo, é preciso garantir o diploma. Espero que compreendam.
Sendo honesto, Hidinque, como membro de uma família tradicional de nobres, herdou uma mente astuta e calculista. Possui várias habilidades aparentemente excêntricas, mas, no meio da floresta, esses talentos mais úteis aos aristocratas da pena não têm serventia. Seu desempenho brilhante vinha, sobretudo, de sua preparação meticulosa; porém, quanto ao conhecimento sobre a floresta, ele estava, assim como a maioria do pelotão, ainda em estágio inicial.
“Agora é outono, estamos na Floresta Ébola. Considerando a quantidade de bestas mágicas e a distribuição na cadeia alimentar, muitos animais que entram no cio nessa estação tornam-se especialmente ‘receptivos’. Para ser franco, esse exercício não será apenas um passeio montado ou uma mera movimentação de tropas.”
Enquanto falava, Morfeu estendeu a mão até a bolsa lateral do cavalo de Hidinque, pegou uma adaga reserva e a lançou para ele. Em seguida, assobiou um sinal peculiar para os companheiros Gordo e Cowen, fazendo um gesto específico. Então, como de costume, conferiu todo o seu equipamento: cajado mágico, adaga, a faca mágica e um facão para abrir caminho.
A postura de Morfeu em nada lembrava um cavaleiro, mas sim um autêntico caçador de monstros das lendas, como notavam os outros três.
De longe, o instrutor soou uma breve corneta de chamada, indicando que os cadetes deveriam se reunir a pé, não montados. Armados até os dentes, os quatro seguiram pela trilha, iniciando o treinamento intensivo de uma semana no coração da Floresta Ébola.
Para Morfeu, que se sentia praticamente em casa, o ar trazia sinais tênues, porém perigosos, que o mantinham em constante alerta.
O primeiro dia não foi tão árduo quanto se imaginava. Até Lilith, pouco afeita ao ambiente selvagem, conseguiu suportar. Após o sol alcançar o meio do céu, realizaram dezenas de exercícios de formação e ataque rápido dentro da floresta. Não se deve subestimar esse treinamento; controlar cavalos em meio à mata é muito mais difícil do que em planícies. Embora o ambiente fechado não favoreça combates de cavalaria, é uma lição essencial para os alunos aprenderem a superar adversidades naturais.
Ao cair da noite, o pelotão entrou em período de descanso livre. O fogo de acampamento pouco ardia por causa da lenha úmida; somente Morfeu sabia quais folhas de certas árvores eram impermeáveis e podiam ser usadas para acender a fogueira. Ao entardecer, ele e Cowen recolheram dois grandes cestos delas e, sob olhares invejosos, assaram as linguiças guardadas por Gordo. O aroma era irresistível e enchia a boca de água.
Morfeu, no entanto, surpreendeu os colegas ao defumar sua adaga com uma folha estranha, deixando-a negra de fuligem.
Mas nada disso afetou a crescente amizade do grupo. O desempenho de Morfeu já o consagrava como o mais forte entre eles, e a convivência lhe proporcionou o primeiro verdadeiro círculo de amizades desde que se integrara à turma. Com o tempo, descobriu que Cowen, apesar de parecer calado, era o mais falante; que Buzel, além de recitar belas poesias, escondia uma força de cavaleiro de elite; e que Cowen, tão forte quanto Gordo, manejava armas pesadas com uma mão e ainda erguia um escudo, sendo tanto resistente quanto ofensivo.
Na madrugada, o grupo adotou um descanso disperso, simulando a formação de pequenas patrulhas em acampamentos, o que significava lidar sozinho com emergências. Ao dividir as vigílias, Morfeu assumiu sozinho a primeira parte, o que inquietou Hidinque. Este só conseguiu dormir após insistir e garantir a guarda do turno anterior ao amanhecer.
Em vez de ficar junto à fogueira apagada, como os outros, Morfeu subiu silenciosamente até o topo de uma árvore próxima ao acampamento, ocultando sua presença e sem se entregar à meditação, atento a todos os sons ao redor.
O acampamento estava em silêncio sob o luar, com apenas o canto dos insetos e pássaros e o ocasional voo de morcegos cortando o céu, numa tranquilidade aparente. Porém, quando a meia-noite avançava, Morfeu, empoleirado num galho, estreitou os olhos e fixou o olhar em um arbusto na borda do acampamento.
Como previra, a Floresta Ébola, mesmo tão próxima de Constantinopla, era tão rica em espécies quanto as regiões mais remotas do império. O clima fresco de início de outono, após uma chuva, marcava para as feras mágicas o período de caçadas para acumular gordura para o inverno. Isso já era preocupante o suficiente; se acrescentássemos o fato de que algumas dessas bestas estavam em cio, ninguém conseguiria dormir tranquilo.
Não que Morfeu esperasse algum alerta da academia; ele nunca foi de depositar esperanças nos outros. Com o tempo, os instintos de caçador e a frieza, que pareciam ter se dissipado em Constantinopla, retornaram-lhe ao corpo. Vestido em couro, permaneceu imóvel, extraindo lentamente a adaga de aço mágico de Nápoles, cuja lâmina, propositalmente enegrecida pela fumaça, não refletia a menor luz.
No campo de visão, uma sombra indistinta se aproximava sorrateiramente pela vegetação, sem ruído, deixando apenas algumas marcas na relva. Não havia cheiro estranho no ar. O intruso, como um espectro, contornava as tendas sem atacar, talvez procurando algo.
A lua quase cheia iluminava a noite, mas não projetava a sombra daquela criatura que parecia dissolver-se no ar. Morfeu, concentrado, não olhava diretamente para a vaga silhueta no chão, esperando pacientemente, como um pescador aguardando o peixe morder a isca.
Após três minutos, com o surgimento de mais pegadas, Morfeu lançou-se subitamente, saltando do galho em absoluto silêncio.
Seu corpo descreveu um arco longo no escuro, e, no momento em que brandiu a adaga, o instinto de caçador experiente explodiu com força.
Um estalo seco ecoou — ossos partidos pelo golpe da adaga. Morfeu surgiu à borda do acampamento; onde antes parecia não haver nada, sangue jorrou subitamente, como se um balde tivesse sido virado. Com um giro, cortou de lado um vulto, abrindo-lhe a carne num segundo.
Um urro de dor acordou quase todos!
Com duas runas mágicas ativadas, Morfeu chegava à força de um grande cavaleiro; só neste tipo de luta, sem reservas, tal poder ficava claro. Abateu em um golpe uma fera quase no topo da cadeia alimentar: o tigre-de-prata. Essas bestas, maiores e mais fortes que tigres comuns, eram especialistas em caçar à noite, ocultando-se com as runas do próprio corpo. Três anos antes, Morfeu teria evitado a todo custo um confronto direto, confiando apenas em sua habilidade de escalar árvores para escapar. Agora, porém, eliminava sozinho duas dessas criaturas, capazes de enfrentar cavaleiros de guarda avançada.
Sem parar, virou-se e correu em direção a uma árvore imensa.
O som de passos pesados atrás dele denunciava o membro mais feroz do grupo de tigres-de-prata. Morfeu não hesitou; em dez passadas, apoiou-se no tronco, impulsionando-se para o alto. Com um salto mortal perfeito, desceu em direção ao dorso do tigre e cravou-lhe a lâmina de cima para baixo.
O rugido ecoou, fazendo bandos de aves levantarem voo.
Quando Buzel, o mais lento, saiu da tenda com a adaga em punho, deparou-se com uma cena que deixou todos boquiabertos.
Morfeu Windesol, o nobre herdeiro do lírio-púrpura, estava, sob o luar, esfolando com perícia e rapidez um enorme tigre com uma adaga que brilhava em azul. Ao seu lado, uma cabeça de tigre do tamanho de um tórax humano, um corpo sem cabeça e mais dois corpos de felino já arrancados da pele. O cheiro de sangue era intenso.
Hidinque não conseguiu mais esconder o espanto; aproximou-se, examinou a cabeça descomunal e tentou abrir a bocarra cheia de presas afiadas, mas Morfeu conteve-o com um gesto.
“Apesar de não ter veneno, um corte dessas presas é quase impossível de cicatrizar. Uma vez fui mordido por uma dessas feras; meu tornozelo sangrou por três semanas. Se eu não tivesse encontrado a erva certa, provavelmente teria ficado aleijado.”
Enquanto falava, Morfeu arrancou um talo de grama e passou ao lado dos dentes do tigre, que cortou-se instantaneamente. Cowen, que se aproximava, arregalou os olhos ao ver aquilo.
Mas o que mais intrigava Hidinque eram as palavras de Morfeu. Olhou ao redor, viu o instrutor já se afastando e sussurrou: “Antes? Que diabos, você já foi mordido por um desses? Aposto que nem o instrutor passou por isso!”
A reação de Hidinque fez Morfeu sorrir, percebendo que a amizade entre eles se fortalecia. Sem explicar muito, continuou esfolando o tigre — a pele do tigre-de-prata é valiosa e, bem tratada, pode virar uma capa camuflada. Esse conhecimento, aprendido nos livros, era de grande utilidade para Morfeu; ainda mais valiosas eram as runas sobre a pele, pois boa parte da arcanologia se baseava nesses dons naturais criados pelo próprio Criador, e as linhas prateadas formavam um diagrama mágico precioso.
No entanto, o cheiro de sangue espalhava-se, deixando Morfeu inquieto ao observar a floresta ao redor.
Era evidente que os instrutores já estavam preparados para ataques assim; na verdade, antes mesmo do ataque, o instrutor já estava pronto para soar o alarme — normalmente, após uma emboscada fracassada, os tigres-de-prata abandonam a presa, o que permitia aos instrutores não proteger diretamente as tendas. Claro, a presença de dois grandes cavaleiros era a principal garantia. Mas quem esperaria que um jovem recém-ingresso fosse capaz de, sozinho, abater três feras que atormentariam qualquer cavaleiro de guarda intermediária?
Enquanto os demais aprendiam a enfrentar perigos, Morfeu já sabia como eliminá-los.
Filho de tigre, tigre é. Assim deve ser.