Capítulo Sessenta e Quatro: A Jovem Senhorita que Causa Problemas
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O núcleo de Constantinopla normalmente refere-se ao palácio imperial, mas há outra área que possui igual importância: o Patriarcado, onde reside o líder espiritual de todo o Império Bizantino.
Não muito longe dessa construção de um branco puro, ergue-se um edifício de tonalidade cinza-azulada, sombrio e imponente. Embora não alcance a altura intimidante da Catedral de São Lourenço, inspira um temor gélido quando observado de baixo: é o célebre Tribunal da Inquisição.
Hoje, desse edifício normalmente silencioso e lúgubre, saíram alguns fiéis vestidos de mantos negros. Não eram monges ou sacerdotes, mas sim membros internos da Inquisição conhecidos como “Mensageiros”.
Eles levaram consigo três pergaminhos, cada um selado com mais de treze lacres secretos, e dirigiram-se a três lugares distintos — o Patriarcado, o Palácio de Constantinopla e o centro de inteligência imperial, a sede do “Olho de Águia”.
Naquele dia, a Ordem dos Cavaleiros do Templo, subordinada diretamente ao imperador, soou a trombeta de convocação; o Patriarcado emitiu um decreto com o selo cruzado de chaves de cobre, abrangendo todo o território nacional; e, nas sombras, o Duque de Essara contemplava a lua cheia que emergia, perdido em pensamentos.
Os ventos da mudança começavam a soprar.
Lilith aparentava calma, mas sua mão segurando o punhal tremia levemente. O chão estava encharcado de sangue; essa jovem dama, de considerável habilidade, lutara ferozmente por mais de três minutos contra um tigre adulto de pelagem prateada, exaurindo todas as suas forças.
A coragem e a serenidade que costumava exibir desapareceram; o ombro, ferido pela fera, fez Lilith sentir, mais do que nunca, a presença ameaçadora da morte. Nenhum treinamento, por mais árduo, poderia prepará-la para enfrentar uma criatura três vezes maior do que ela. Como cavaleira de elite, deveria ser capaz de derrotá-la em três movimentos, mas o pânico inédito e o recuo constante quase a fizeram cair nas garras do tigre.
Felizmente, ela logo se adaptou ao ritmo da batalha e retomou o controle; caso contrário, teria desonrado a medalha em seu peito. Passou a mão no sangue que lhe manchava o rosto, ergueu os olhos para a lua brilhante e se perdeu em pensamentos.
“Formem filas! Cuidem dos feridos!”
A Primeira Companhia, considerada a mais poderosa, não contava com alguém como Morfeus, cuja percepção na floresta superava até a dos sentinelas. Dois cadetes de guarda quase foram surpreendidos por dois tigres prateados; escaparam da morte, mas ficaram feridos, o que era esperado. O instrutor, com expressão austera, comandou os cadetes, que pela primeira vez enfrentavam uma investida de criaturas mágicas, reunindo-os rapidamente, impondo um clima grave e tenso.
Naquela noite, a Primeira e a Sétima Companhia tiveram destinos opostos por causa de uma única pessoa.
A história do progresso humano é marcada por disputas e sangue; incontáveis guerras e inovações permitiram que essa raça, aparentemente frágil, se estabelecesse no continente. Comparados aos elfos, cuja existência se tornou quase lendária, os humanos avançaram a passos largos.
Competição, bravura, desejo de provar superioridade e inveja dos mais talentosos fomentam, ao longo de uma vida breve, feitos surpreendentes.
Lilith não pregou os olhos aquela noite. Apesar de seu jeito rude e costume de dormir abraçada a um brinquedo, não foi a austeridade das condições que a manteve acordada, mas sim uma curiosidade inquietante: queria saber se o “teste” planejado pelo colégio teria feito aquele sujeito, que tanto a incomodava, passar vergonha.
Era época de acasalamento dos tigres prateados, mas não era fácil que essas criaturas do topo da cadeia alimentar atacassem simultaneamente os acampamentos do colégio. Ninguém acreditava em coincidências; muitos percebiam que fora uma armadilha deliberada, mas o efeito desejado foi alcançado — o treinamento no dia seguinte foi eficiente, pois todos sabiam que a própria vida era o bem mais precioso, e até o habitual burburinho desapareceu.
Exceto na Sétima Companhia, todas as demais tiveram feridos, em maior ou menor grau. A Terceira foi a mais afetada: um cadete de guarda teve o braço fraturado pela força de um tigre prateado, precisando abandonar o treinamento e retornar a Constantinopla de carruagem militar.
Ainda sob o pôr do sol, aquele jovem nobre, ao entrar pela porta da cidade, deparou-se com um grande contingente de cavaleiros prontos para partir — marchando pela estrada em direção ao exterior.
Postura rigorosa, equipamento de primeira, atmosfera hostil; os escudos exibiam a cruz, simbolizando o orgulho da Ordem dos Cavaleiros do Templo, uma das três forças de elite do império.
O Império Bizantino abrigava mais de vinte ordens de cavaleiros; a Ordem do Templo, com cerca de quatro mil e quinhentos membros, era a maior e mais poderosa, principal força de combate do império.
O contingente de mais de mil homens à sua frente excedia qualquer treinamento comum. Embora operações militares fossem frequentes, nunca partiam armados desde dentro da cidade; tropa regular só vestia armaduras completas e abaixava os visores antes de um ataque.
Agora, todos os cavaleiros do Templo, de nível equivalente aos guardas de elite, estavam equipados para o combate. Após sair da cidade, aceleraram, avançando pelo bosque de Ébola, os cascos retumbando como trovões, imponentes.
O jovem nobre, ignorando a dor no braço quebrado, saltou da carruagem e, ao ver o esquadrão levantando poeira à distância, ficou perplexo.
“Guerra?”
Durante o acampamento noturno, Lilith arrumou discretamente seu punhal, olhou para os cadetes reunidos em torno da fogueira e, sem fazer ruído, conduziu sua montaria por uma trilha estreita.
O acampamento disperso dificultava o controle dos cadetes pelos instrutores; nunca se ouvira falar de alguém vagando pela floresta de madrugada.
Impulsiva, de temperamento quase masculino, Lilith era ousada e direta, sem ser afetada, com certa bravura masculina, mas faltava-lhe maturidade. Sentindo-se recuperada e convencida de sua preparação, desobedeceu à ordem, infiltrando-se sozinha na floresta, motivada apenas pela vontade de ver se alguém passara vergonha.
Imprudente?
Se Morfeus estivesse presente, teria repreendido sem hesitar, dizendo que sua ignorância era criminosa, não inocente. Mas o mundo não é feito de “ses”; as pessoas buscam o caminho certo pelos erros, sempre foi assim.
Enquanto Lilith talvez já tivesse passado vergonha na opinião de alguns, Morfeus contemplava o cozinheiro Buzel espalhar pimenta especial sobre a carne assada. Como herói da Sétima Companhia, Morfeus e seus colegas saboreavam a carne do tigre prateado, sem objeções. Apesar da textura dura, era muito melhor que linguiça, e todos comiam com prazer.
A escala de vigia não gerou protestos; ao revelar sua habilidade de dormir com olhos abertos, Morfeus causou espanto e admiração, mas, acima de tudo, respeito. Assim, ele se recostou num galho, como tantas vezes fizera na floresta, atento e silencioso.
Fazia tempo que não voltava ao bosque; a familiaridade despertou inúmeras lembranças. Fragmentos confusos passaram diante dos olhos: Dom Quixote ajustando sua postura com a espada, o aroma de tabaco da cabana de Hook, o livro de capa preta, “Confissões”, e as palavras inesquecíveis nele inscritas.
Como se fosse um ritual obsessivo, Morfeus recordou o conteúdo daquele livro negro, associou à inacabada “Summa Teológica” de Aquino e, de repente, sentiu um déjà-vu. Embora fossem obras distintas, agora entendia porque o velho dizia ter arriscado a vida para obtê-lo.
Se fosse publicado em Bizâncio, certamente seria tachado de “heresia”.
Ao pensar nisso, Morfeus ficou apreensivo, temendo que o mentor, aparentemente livre e despreocupado, tivesse novos problemas. Mas mal esse pensamento surgiu, um estranho uivo ao longe interrompeu sua reflexão.
Bandos de aves levantaram voo; Morfeus se ergueu de súbito. Conhecedor de lobos, já enfrentara o rei de Karba, e, na floresta próxima a Hook, esses predadores eram os mais ferozes e astutos. Sabia distinguir o significado de cada tipo de uivo.
O uivo que ouvira, porém, era incomum — não era uma comunicação habitual, nem se assemelhava a nenhum significado que Morfeus conhecesse, mas transmitia uma única emoção: raiva.
Era como um grito humano de fúria, desesperado e intenso.
Ao olhar para cima, viu uma lua cheia extraordinariamente brilhante.
Morfeus franziu o cenho; não tinha intenção de investigar. Havia muitos animais selvagens, e aquele uivo estava a pelo menos um quilômetro de distância, o limite para propagação de sons na floresta. Os demais talvez ignorassem o ruído por causa do crepitar da fogueira, mas Morfeus já estava em alerta.
Por um tempo, não houve outros sons.
Ao segurar o punho da espada, Morfeus lentamente embainhou a lâmina de aço mágico de Nápoles, mas, de repente, ouviu um grito familiar!
Lilith?
Morfeus ficou momentaneamente atordoado; o grito repetiu-se e ele reconheceu de imediato: era idêntico ao que ouvira quando invadira o quarto de Lilith!
Droga! O que ela está fazendo aqui?
Morfeus não teve tempo para pensar; só lhe veio à mente a advertência do Príncipe Hades: “Se alguém machucar ela de novo, eu corto você.”
Sacou o punhal, arrancou a bainha e a lançou contra o acampamento de Buzel, atravessando a lona e atingindo o abdômen do cozinheiro, que, dolorido, acordou com um grito.
“Levantem-se e fiquem atentos! Nada de movimentos bruscos!”
Morfeus deixou essa ordem e desapareceu entre as copas. Buzel abriu os olhos, ainda entorpecido, e só viu a árvore balançando levemente, mas o interlocutor já não estava lá. Murmurou “maluco”, mas rapidamente se levantou para alertar os outros dois.