Capítulo Sete Ambição, a Vendeta Herdada por um Século
Ontem encontrei-me com os mestres Fogo e Inocente, e conversámos sobre diversos aspectos da escrita. Aprendi imenso e acredito que este livro terá uma qualidade superior a "O Esqueleto do Dragão". Esses dois autores excepcionais explicaram muitos conceitos, permitindo-me adquirir uma nova compreensão sobre a arte de escrever. Espero que os próximos capítulos possam satisfazer todos os amigos leitores.
A lista de novos lançamentos é uma competição feroz, por isso cada clique é importante, e claro, votos e favoritos são ainda melhores. A partir de hoje, haverá dois capítulos diários. Aqui está o primeiro!
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A aparência da visitante não surpreendeu Morpheus, pois, graças ao seu ouvido apurado, ele já conseguira deduzir a altura da rapariga pelo compasso dos seus passos. Ela vestia roupas simples, indistinguíveis das pessoas que passavam pelas ruas, mas o rosto delicado, bem cuidado, e a pulseira de prata valiosa que usava no pulso denunciavam, de forma subtil, a sua origem distinta.
Pelos padrões comuns, a jovem à sua frente teria cerca de dezasseis ou dezassete anos, o corpo começando a revelar formas femininas, o rosto ovalado e os olhos verdes como esmeraldas conferiam-lhe já alguma graça. No entanto, para Morpheus, o único ponto em que os seus olhos repousavam não era o ligeiro contorno dos seios nem o brilho curioso dos olhos que o observavam, mas sim o alvo pescoço.
Ele calculava de que ângulo precisaria para cortá-lo com a adaga.
— Desculpe... é o jovem Morpheus? — disse ela.
As palavras "meu senhor" ficaram por dizer, deixando no ar um significado peculiar. A rapariga parecia inocente e pura, mas Morpheus semicerrava os olhos. Na selva, existiam demasiadas criaturas perigosas capazes de matar sem serem notadas. Aranhas venenosas, que se disfarçavam de folhas secas, conseguiam matar um javali adulto com uma única mordida. Aquela rapariga, que deixava à mostra uma brecha quase impercetível, não inspirava mais confiança do que tais criaturas.
— Trago-lhe um convite... O meu pai pediu-me que o entregasse em mãos.
Ao ver que Morpheus não revelava qualquer expressão, a rapariga pareceu um pouco desapontada, mas logo se lembrou de algo e um leve brilho de satisfação surgiu-lhe nos olhos, quase como um texugo do mel ao encontrar uma colmeia.
Ela estendeu-lhe um envelope comum de papel pardo. Morpheus recuou ligeiramente, e com os dedos da mão livre — a outra segurava a adaga —, prendeu o envelope, retirando-o sem cerimónias.
O comportamento estranho de Morpheus deixou a jovem por instantes confusa. Respirou fundo, como se tomasse uma decisão, e disse:
— Será que um nobre não convida uma dama a entrar...?
Ela deu um passo à frente, mas calou-se de súbito. Uma lâmina fria estava encostada ao seu pescoço.
A jovem, assustada, não gritou. Percebeu, num instante, que se desse mais um passo, a garganta ser-lhe-ia cortada sem hesitação. Era um instinto natural. A pessoa diante de si não se assemelhava a nenhum dos jovens nobres que conhecera, cujos olhos se enchiam de lascívia ao vê-la. Os bêbados devassos com quem estava habituada a lidar não podiam ser comparados ao homem diante de si.
— Compreendo.
A jovem, agora surpreendentemente calma, recuou um passo, afastando-se do alcance da espada. Morpheus, com os olhos semicerrados, gravou para sempre na memória da “Flor de Pading” a imagem do seu pescoço.
— Talvez tenha sido demasiado caloroso.
A voz do velho mordomo soou atrás da jovem, fria:
— O senhor ainda precisa de descansar. Agradecemos a sua visita pessoal. A família Wendersol não esquecerá a gentileza dos Blair.
A rapariga, que até há pouco exibia uma expressão inocente, transformou-se num instante, cumprimentando com a maturidade e compostura de uma dama da alta sociedade. Sem mais palavras, virou-se e saiu.
— A família Blair, senhores de Pading. Brannie é filha do conde Isaac Blair. Mandar a própria filha trazer uma mensagem a este lugar... não é por acaso que os Blair são conhecidos como oportunistas entre a nobreza.
O velho mordomo curvou-se ligeiramente, como que a pedir desculpa.
— Perdoe a minha ousadia ao deixar que a jovem viesse diretamente ao seu quarto.
Morpheus virou o envelope entre os dedos, a adaga riscou-o de lado com destreza, cortando o selo de cera do brasão dos Blair. Abriu-o e entregou a carta a Pafá.
— Um dia, terei de enfrentar o mundo sozinho. Fizeste bem, é melhor aprender a ser cauteloso agora do que lamentar no túmulo.
Morpheus sabia que o velho mordomo o testava constantemente. Contudo, não se incomodava. Era uma espécie de treino, diferente do perigo constante da selva, exigindo mais da mente — e era nisso que ele era menos hábil.
A adaga rodou-lhe entre os dedos antes de ser enfiada de volta na bainha. O jovem nobre, tão peculiar, murmurou:
— Que gente estranha... Acham mesmo que oferecer uma oportunidade de acasalamento gratuita lhes trará algum benefício?
O mordomo ao lado ficou boquiaberto.
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A noite em Pading continuava animada.
O desenvolvimento do Império Bizantino era visível aqui. Mesmo ao cair da noite, grande parte da cidade permanecia iluminada, principalmente no centro — zona reservada às atividades da nobreza.
A família Wendersol, de renome no império, tinha um significado indizível para Pading. Em suma, todos os nobres de Pading eram, em certo sentido, “fidalgos da terra”. Mesmo em Constantinopla, a capital, não passariam de membros de segunda linha. Por isso, só lhes restava brilhar nos seus pequenos domínios. Ainda assim, a nobreza nunca deixa de ser ambiciosa. A família Blair, que gere esta velha cidade há quase duzentos anos, sob a liderança do novo chefe já começava a ter hipóteses de entrar no círculo restrito da alta nobreza de Constantinopla.
A chegada de Morpheus e sua comitiva esteve longe de passar despercebida. Mesmo sem ostentar o brasão púrpura da família, os nobres bem informados rapidamente perceberam de onde vinham os cavaleiros imponentes e o mordomo vigoroso. O convite para o banquete, assinado pelo próprio conde Blair, foi entregue por cortesia — e quem não perceberia as intenções ao enviar a bela filha, “Flor de Pading”, para fazê-lo pessoalmente?
Para a nobreza, ninguém deixa de perseguir poder através de alianças matrimoniais até ao dia do casamento.
Contudo, tudo não passava de formalidade. Todos sabiam que a família Wendersol atravessava uma crise e que a viagem de regresso a Constantinopla seria perigosa.
Por isso mesmo, o gesto da “Flor de Pading”, vindo sozinha oferecer-se, tinha um peso ainda maior. Mas só um louco colocaria a própria filha em perigo — a ambição não era exclusiva do conde Blair; aos dezassete anos, Brannie também a possuía.
Ao cair da noite, o hotel onde se hospedava o único herdeiro dos Wendersol permanecia silencioso.
Consciente do perigo, Morpheus não seria tão ingénuo a ponto de comparecer a um banquete. Diante daquela sociedade humana complexa e colorida, ele brincava com a adaga, pensativo, fitando a rua mal iluminada pelo luar e pelas tochas.
O mordomo trouxe-lhe a ceia ao quarto, sem sequer permitir que Morpheus saísse. A pedido de Morpheus, Pafá enumerou brevemente os possíveis inimigos que a família Wendersol enfrentava.
Claro, se fosse para listar todos os rivais e adversários de uma família antiga, preencheriam vários rolos de pergaminho. Por isso, o velho mordomo limitou-se ao essencial.
— A vingança do duque Cristóvão... As rivalidades entre nobres são ainda mais sujas do que eu imaginava.
Morpheus já compreendia o peso das honras e desonras que lhe eram impostas — nunca nutrira amor ou ódio gratuitos. Se tinha herdado a honra, também teria de suportar o ciclo quase centenário de vendetas.