Capítulo 109 — Há quem goste de se intrometer

Há um Rio Meia-Lua na Estepe Pastor Lin Xi 2268 palavras 2026-03-27 00:33:04

Na casinha da extremidade leste da família Bao, que tinha uma entrada independente, Bao Muren insistia em escutar os movimentos dentro da barriga de Ulan Tuya. Ela ria, empurrando-o de leve, e dizia:

— Tem pouco mais de um mês. Ainda não vai se mexer.

Bao Muren segurou-lhe a mão e disse, comovido:

— Tuya, você é a grande benfeitora da nossa família Bao, uma benfeitora de verdade! Eu, Bao Muren, agradeço profundamente a você! Vou tratá-la bem pelo resto da vida...

...

Alguns dias depois, Bao Bayin realmente mandou abater uma ovelha para oferecer um banquete de comemoração e receber parentes e amigos.

Havia muitos convidados. Além de todos os membros das famílias dos dois compadres, Bao e Jin, veio também a família inteira de An Qishiqi. Naturalmente, Bao Qingshan não se dignou a aparecer, e Yu Xiulan também não veio. Foram convidados especialmente o secretário do Partido da aldeia, Bai Hada, o chefe da segurança pública, Temur, e os jovens que haviam ajudado a procurar a ovelha durante a tempestade de neve.

No banquete, além da tradicional carne de ovelha cozida à mão e da sopa de carneiro, Ulan Tuya preparou a especialidade secreta herdada de sua família: perna de cordeiro assada ao molho especial. Todos comeram até não parar de elogiar. Como era de esperar, Bao Muren também não deixou faltar a morin khuur e entoou alegres canções folclóricas de melodia prolongada.

Alaifu comeu depressa. Depois de assistir um pouco à apresentação, voltou para casa, pois precisava aproveitar bem o tempo para revisar as matérias. No caminho, porém, encontrou Han Heihu por acaso.

“Isso só pode ser obra de algum fantasma. Justo quem eu queria evitar tinha de aparecer”, resmungou Alaifu consigo mesmo. Como não havia mais como escapar, aproximou-se a contragosto.

Nos últimos dois anos, Han Heihu vinha indo com mais frequência à cidade de Honglou, e também passara a se vestir de maneira mais moderna. O cabelo repartido em três por sete estava besuntado de brilhantina, tão lustroso que até uma mosca provavelmente escorregaria ao pousar. Vestia uma camisa xadrez vermelha de gola enorme; embaixo, calças jeans com bocas de sino tão largas que não dava para ver que sapatos usava. Cada passo levantava uma nuvem de poeira. Um par de óculos escuros de lentes coloridas estava empurrado para a testa, parecendo dois grandes holofotes...

...

— Amarelinho! Amarelinho! A carneiro estava gostosa, hein? Não comeu tanto a ponto de os olhos quase saltarem das órbitas? — disse Han Heihu, com ar debochado.

Se outra pessoa o chamasse por aquele apelido, Alaifu se enfureceria. Mas, diante daquele homem, não podia fazer nada; era melhor não provocá-lo.

— Não comi tanto assim. Tenho de voltar logo para casa e estudar. A prova está chegando! — respondeu Alaifu, sem parar de andar. Queria afastar-se depressa daquele sujeito de cabelo engordurado.

— Não precisa ter medo. Eu não vou fazer nada com você. Só queria perguntar uma coisa: trouxe da cidade um monte de histórias ilustradas. Quer dar uma olhada?

“Histórias ilustradas” era o nome pelo qual os moradores do Rio Lua Crescente chamavam os livrinhos de quadrinhos, uma das maiores paixões das crianças daquela época. Nas pobres zonas rurais, onde a televisão ainda não havia se popularizado, depois de ouvir histórias narradas pelo rádio, nada atraía mais as pessoas do que ler aqueles livrinhos. É claro que as crianças e os adultos do Rio Lua Crescente também tinham outra preferência especial: ir à casa do “Dicionário Vivo” para escutar histórias.

— Guarde para você. Eu tenho de ir — disse Alaifu, e saiu correndo.

Han Heihu bateu o pé, levantando uma nuvem de poeira — aquelas calças boca de sino realmente faziam o vento soprar! Furioso, ele disse:

— Seu moleque! Não acredito que essas histórias ilustradas não vão conseguir atraí-lo. Espere só eu chamar todas as crianças da sua classe. Quero ver quem ainda vai ter cabeça para estudar.

A verdade era que Han Heihu queria usar as histórias ilustradas para seduzir os travessos da turma e impedi-los de revisar as matérias. Se os alunos fossem mal na prova, ele conseguiria arruinar a reputação de Yuan Zhenfu!

...

Entretanto, em meio à atmosfera alegre da família Bao, ainda havia um lado desagradável.

As donas da casa e as convidadas serviam primeiro e comiam depois. Além disso, não bebiam nem participavam de brindes, por isso terminavam de comer rapidamente. Algumas largavam as tigelas e os hashis e iam para a cozinha ajudar no trabalho; outras iam para o pátio conversar.

Ulan Tuya estava prestes a se curvar para lavar as panelas quando Jiya percebeu e imediatamente a impediu:

— Tuya, não precisa fazer esse tipo de coisa. Eu já fiquei com medo de que preparar a perna de cordeiro assada fosse cansá-la. Esse trabalho exige ficar curvada por muito tempo; não quero que você se force.

Ulan Tuya ainda tentou argumentar, mas Tian Xinghua, que estava ao lado, arrancou-lhe a escova das mãos e, puxando-a, disse:

— Menina, agora que está grávida, precisa obedecer ainda mais. Veja como sua sogra cuida de você! Tuya, você devia estar muito feliz. Na minha família, nunca chegamos a esse ponto de cuidar tanto da Dai Xiao. Eu é que preciso aprender com sua sogra.

Jiya não respondeu. Pensou consigo mesma: “Hum! Está mesmo na hora de você aprender. Não fique dizendo uma coisa pela frente e fazendo outra pelas costas!”

— Não há problema, eu não sou tão frágil assim — disse Ulan Tuya.

— Mesmo assim, não pode. Nesta fase, é preciso ter o máximo de cuidado.

Tian Xinghua olhou para Qiqige, estendeu-lhe a escova e disse:

— Qiqige, venha lavar as panelas. Tuya está grávida; não é conveniente que faça isso.

Qiqige não pensou muito naquilo. Pegou a escova e começou a lavar as panelas. Na verdade, não queria ter ido ao banquete naquele dia. Só comparecera porque seus pais e Yuan Zhenfu haviam insistido muito. Já que tinha vindo, falaria o mínimo possível e ajudaria o máximo que pudesse, para que ninguém ficasse comentando pelas costas depois que ela fosse embora.

Tian Xinghua segurou a mão de Ulan Tuya e saiu da casa conversando e rindo. No pátio, procurou um lugar fresco e sentou-se.

Shalinna viu tudo e ficou muito incomodada, mas não podia dizer isso abertamente. Ao passar atrás de Qiqige, falou em voz baixa:

— Mandaram você lavar, então lave. Está maluca?

Qiqige ficou confusa por um instante, mas logo entendeu o que a mãe queria dizer. Seu rosto corou de vergonha e ficou ardendo. Ainda assim, lavou a panela até deixá-la impecável, sem dar margem a qualquer crítica.

...

Bao Dai Xiao aproximou-se, conduzindo a filha Meihua pela mão, e disse:

— Qiqige, pare um pouco e descanse. Você quase não comeu à mesa, não foi?

— Irmã, eu já estou satisfeita.

Então sorriu para Meihua e perguntou:

— Meihua, diga à tia: você já comeu o suficiente?

Meihua abraçou a perna da mãe e não respondeu.

— Meihua, seja boazinha. A tia Qiqige fez uma pergunta. Você tem de dizer: “Estou satisfeita”...

— Estou satisfeita — respondeu Meihua, timidamente.

— Já tem três anos e ainda é tão retraída, exatamente como o pai — disse Bao Dai Xiao. — Venha, Qiqige, vamos sair para tomar um ar fresco. O trabalho aqui dentro pode esperar...

— Venha, deixe-me carregá-la.

Qiqige estendeu os braços e pegou Meihua no colo. Sem perceber, exclamou:

— Nossa, como esta menina pesa! Pelo jeito, tudo o que havia de gostoso em sua casa foi dado para ela comer, não foi?

...

Tian Xinghua era extremamente hábil com as palavras. Quando queria enganar alguém, conseguia deixá-lo completamente desnorteado com a maior facilidade. Por isso, no vilarejo do Rio Lua Crescente, quem não a conhecesse muito bem acabava iludido pelas aparências e acreditava que ela era uma pessoa de bom caráter, sensata, preocupada com os outros e atenciosa.

Jiya fora conquistada justamente por aquela “fachada falsa” e concordara de bom grado em casar sua filha Bao Dai Xiao com Jinbao.

Tian Xinghua começou então a iludir Ulan Tuya:

— Tuya, você é realmente muito capaz. Está cuidando de uma criança e ainda carrega outra na barriga. Deve estar exausta. Quando minha nora, sua cunhada Dai Xiao, estava grávida, eu não deixava que ela fizesse absolutamente nada.