Capítulo 13: Alguém Ousa Comer Raviólis Cru

Há um Rio Meia-Lua na Estepe Pastor Lin Xi 2381 palavras 2026-03-04 20:12:58

A senhora Anxin sorriu novamente, mas o sorriso trazia consigo uma ponta de tristeza. A idosa suspirou: Ano Novo, Ano Novo... Se não é “superar dificuldades”, então é “superar a falta de dinheiro”. Sem dinheiro, não há Ano Novo; com dinheiro, todos os dias parecem festa.

Alaif disse: No futuro, quero que todos os meus dias sejam como o Ano Novo.

Sharina respondeu: Essa foi uma bela fala, Alaif. Então estude com afinco, cresça e ganhe muito dinheiro. Assim, sua avó, seu pai e eu teremos uma vida boa...

Alaif riu e perguntou: E minha irmã?

Sharina lançou um olhar para a filha e, sorrindo, disse: Quando chegar a hora, sua irmã já terá se casado e ido para outra casa, não vai precisar da sua ajuda.

— Mãe, olha só o que você está dizendo... — O rosto de Qiqige corou imediatamente.

Sharina então acrescentou: O melhor é que ela se case com alguém que tenha um emprego estável, receba salário todo mês e, pelo menos, nunca falte arroz ou farinha em casa, nem precise sair para pedir emprestado...

Seja rico ou pobre, o Ano Novo precisa ser celebrado. Como em todas as casas, a família Bao também estava envolvida na agitação e no calor dos preparativos. Todos se envolviam, homens e mulheres com tarefas diferentes: Baobayin e Baomuren acenderam um braseiro no pátio, simbolizando uma vida próspera e ardente no ano que se iniciava.

Baomuren olhou para as chamas saltitantes e pensou: Todo ano acendemos esse braseiro, mas nossa vida nunca melhora. Só serve para desperdiçar lenha. Mas jamais ousaria dizer isso em voz alta. Falar algo assim na véspera do Ano Novo seria, aos olhos de Baobayin, uma heresia, e ele no mínimo levaria um tapa ou um pontapé.

Jiya e Bao Daixiao estavam preparando os raviolis. Daixiao vestiu especialmente roupas novas, sendo a única na família a ter roupas novas para a data. Com a proximidade do Ano Novo, Jiya e Baobayin haviam combinado em segredo: se a filha se vestisse bem, mais pretendentes apareceriam.

Bao Daixiao ficou encarregada de abrir as massas. Enquanto fazia isso, de repente soltou uma risada.

Jiya perguntou: Por que está rindo?

— Mãe, só estou achando graça... Imagine se todos comessem raviolis crus, não iam acabar com dor de barriga?

Bao Daixiao acabara de se lembrar de uma história, uma anedota bastante conhecida às margens do Rio Lua Crescente. Dizem que certa vez, um garotinho travesso, ao ver a família preparando os raviolis para o Ano Novo, não resistiu à fome e, quando ninguém olhava, enfiou dois raviolis crus na boca.

Sempre que se aproximava uma data festiva e preparavam raviolis, Jiya contava essa história, deixando todos com o coração apertado.

Jiya arrumava cuidadosamente os raviolis na esteira de bambu, buscando alinhá-los perfeitamente, desejando um bom presságio para o novo ano.

— Era um menino forte. Não tinha medo de dor de barriga.

— Um menino? Mãe, você nunca contou quem era essa criança. Conta pra mim, de quem era filho?

— Mas não vá sair contando por aí, senão vão dizer que fico fofocando — advertiu Jiya.

— Pode deixar, mãe. Além da Qiqige, com quem mais eu falaria?

— Tem certeza? — Jiya olhou fixamente para a filha.

Bao Daixiao entendeu o recado: a mãe achava que ela contaria para Bao Qingshan. Ficou corada.

Jiya endireitou a postura e disse: Se não fosse a pobreza, não teria tanta vontade de comer raviolis, que só apareciam na mesa umas poucas vezes no ano. Esse menino era Jinbao, filho de Jin Shunlai e Tian Xinghua.

— O quê? Era ele? — Bao Daixiao quase não conseguia parar de rir. Nunca imaginou que Jinbao, sempre tão quieto, tivesse esse “feito glorioso” em sua história.

A façanha de Jinbao de comer raviolis crus já havia se espalhado pelo Rio Baoyin, chegando até a família Bao, em Guailisigacha, nas pradarias do Escudo do Pavão — claro, sem mencionar o nome do protagonista. Quando Tang Yuchun fazia raviolis em casa, sempre contava essa história.

Wulantuya riu: Que menino esperto! Gostei.

Bao Qingshan, porém, desdenhou: Que graça tem? Foi culpa dos adultos, que deviam ter cozinhado logo uma leva para as crianças.

Bao Qingshan andava irritado com a irmã e fazia de tudo para contrariá-la.

— Mãe, olha o meu irmão! Vive implicando comigo. O que eu fiz para ele?

Tang Yuchun respondeu: Ele está só falando bobagem. E ainda diz que os adultos são preguiçosos! Quem é que não espera nem a carne estar bem cozida para começar a comer?

Bao Qingshan respondeu: Carne ao ponto tem mais sabor e mais nutrientes! Muito cozida perde a graça.

Bao Shitou caiu na risada: Qingshan, vai dar uma volta lá fora. Quando os raviolis estiverem prontos, você volta para comer. Vá dar feliz ano novo para Jinshan e Yinshan, seu tio e sua tia.

Bao Qingshan resmungou e bateu a porta, saindo.

— Esse rapaz está possuído — disse Bao Shitou. Mudando o tom, continuou: Não se deixe enganar pela proximidade do povoado do Rio Lua Crescente com a cidade. A vida lá é dura. Ouvi dizer que há famílias que nem sequer têm raviolis de farinha branca para o Ano Novo. Ainda bem que aquele menino dos raviolis crus não era nosso Qingshan. Se fosse, com o recheio sendo só carne de cordeiro, um bolinho já seria suficiente para dar dor de barriga.

Alaif, de fato, estava ansioso, com fome e água na boca, quase desejando jogar dois raviolis crus na boca.

Quando é que os raviolis vão para a panela? Por que o tempo passa tão devagar?

— Mãe, será que o relógio de parede parou? — Alaif olhava para o relógio na parede, achando que os ponteiros não se moviam.

Ansetessete ficou irritada e falou alto: Alaif, não diga isso! Nosso relógio nunca parou, funciona o ano todo!

“Funcionar” era uma palavra de bom agouro, significando sorte. Na noite do Ano Novo, ouvir que o relógio “não funciona” era inadmissível para Setessete. Ela levantou-se imediatamente e deu corda ao relógio, enchendo-o de energia.

Qiqige riu e disse: Mãe sempre contou que havia uma criança aqui no povoado que comeu ravioli cru. Alaif, por que você não experimenta um para ver se o recheio está no ponto?

— Eu sou bobo ou você é? Ravioli cru não se come! — retrucou Alaif.

Todos riram.

— Meu neto é muito esperto! — disse dona Anxin, abraçando o neto e acariciando sua cabecinha.

— Pega um palito de fósforo e segura as pálpebras abertas. Se dormir, não chamamos você para comer ravioli — provocou Qiqige.

Alaif gritou: Isso não está certo, não gostei!

Anxin sorriu: Qiqige, não provoque seu irmão. Ele ficou correndo pelo povoado até escurecer, deve estar faminto.

Os raviolis, parecendo verdadeiros tesouros, finalmente chegaram à mesa. Naquela noite, Alaif comeu até não poder mais. No inverno, usava calças acolchoadas apertadas por um cinto; naquela noite, soltou um pouco o cinto. Comeu até ficar completamente satisfeito, matando de uma vez toda a vontade acumulada ao longo do ano.

Passado o Ano Novo, chegava março no calendário solar.

Em março, a cidade de Honglou ainda sentia o frio cortante da primavera. Pessoas apressadas ou caminhando sem pressa pelas ruas não usavam mais roupas tão grossas e pesadas, mas ainda estavam bem agasalhadas. Quase todos, pedalando ou a pé, tinham as sobrancelhas franzidas, como se pesassem nos ombros preocupações que não conseguiam aliviar, como se a vida exigisse demais.

Para viver, para sobreviver, todos lutavam com afinco!