Capítulo 63 – Enquanto Uns Se Alegram, Outros Se Preocupam
— O serviço aqui em casa está extremamente puxado, onde eu teria tempo para ir até a casa dela? Além do mais, a família Bao mora tão longe — disse Baio Muren, mantendo o semblante sério.
— Não venha discutir comigo, rapaz! Se eu mando você ir, você vai, para de enrolar. Antes, quando não deixava, você ia escondido, não pense que eu não sabia.
Atingido no ponto fraco pelo pai, Baio Muren apenas riu, encabulado.
— Mééé, mééé — algumas poucas e nada “graves” vozes de ovelha chegaram aos ouvidos de Baio Bayin, que logo disse ao filho: — Muren, espera um pouco antes de continuar o trabalho. Vai logo dar um pouco de capim às ovelhas, não deixa que fiquem berrando.
— Não é falta de capim, mãe foi dar água para elas. Quando veem gente, berram — explicou Baio Muren.
— Que preguiça, hein... Ah, mesmo que use jornal para forrar, faça direito, não deixa tudo torto, é desperdício de jornal! — gritou Baio Bayin ao filho, voltando-se em seguida para a filha: — Dai Xiao, sua sogra é realmente insuportável! Aquela família toda é assim, melhor evitar contato com eles.
Baio Dai Xiao baixou a cabeça, o sorriso sumindo de seu rosto...
...
Quando voltou a dar aula, Yuan Zhenfu passou a olhar para Alai Fu com especial simpatia, chegando a dirigir-lhe perguntas com frequência. Sempre que Alai Fu tinha alguma dúvida, ele explicava pacientemente.
No intervalo, Li Sanfu se aproximou para provocar Alai Fu:
— Ah Huang, o professor Yuan está cada vez mais legal com você...
Alai Fu, irritado, respondeu:
— Qualquer dia vou abrir a sua cabeça de novo!
Li Sanfu, debochado, inclinou a cabeça para ele e disse:
— Isso seria ótimo, é exatamente o que eu queria. Se abrir mesmo, vou pra sua casa me recuperar, cheio de mimos e sem precisar ir à escola. Que maravilha...
— Maravilha nada, seu nariz escorrendo! — exclamou Alai Fu, batendo na cabeça de Li Sanfu e saindo correndo, gargalhando.
Li Sanfu correu atrás, quase alcançando-o, quando o “Dicionário Vivo”, Gegen, tocou o sino anunciando o início da aula.
Alai Fu parou e disse:
— Hora de bater em retirada, vamos pra sala, chega de brincadeira.
Li Sanfu respondeu:
— Tá bom, Ah Huang, essa palmada eu não esqueci, vou retribuir na primeira oportunidade!
— Só na próxima vida! — respondeu Alai Fu, já entrando na sala à frente de Li Sanfu.
A aula era de música, e Gegen entrou na sala com seu estojo de morin khuur nas costas...
...
Yuan Zhenfu não tinha aula, mas não conseguia ficar parado na sala dos professores. Com a desculpa de ir ao banheiro, foi dar uma volta no portão da escola.
Os outros professores, vendo sua figura inquieta pela janela, começaram a comentar em voz baixa...
...
Qiqige limpou as garrafas coloridas no parapeito da janela, depois pegou um bordado. Mas logo se perdeu em pensamentos e, distraída, espetou o dedo. Soltou um “ai”, espremendo o sangue que saía da picada...
...
Havia aborrecimentos, mas também alegrias. Nos últimos seis meses, as boas notícias não paravam de chegar à aldeia do Rio da Lua Crescente, e todas tinham a família Bao como protagonista. Após o casamento de Jinbao e Baio Dai Xiao, chegou a vez de Baio Muren se casar.
O casamento de Baio Muren foi ainda mais animado; em comparação ao da família Jin, além de pomposo, teve fortes traços culturais. O que mais espantou a todos foi o banquete: abateram nada menos que cinco grandes carneiros! Nem o chefe da aldeia, nem o do distrito, jamais tinham tido tamanho poder e recursos! Baio Bayin, trabalhador e poupador por toda a vida, conseguiu juntar uma verdadeira fortuna, e agora exibia suas conquistas para todos verem!
Mal sabiam, porém, que Baio Bayin, por causa do orgulho, quase comprometeu o que tinha e o alicerce da família. Não só se endividou, como também recorreu a artifícios. Jiya, furiosa, chegou a dizer que ele era “um burro magro tentando arrastar carga pesada”, mas ele não deu ouvidos e seguiu obstinado.
...
Nos dias que antecederam o casamento, Baio Bayin andava com a cabeça cheia, sempre atordoado.
Certa noite, após o jantar, Baio Bayin estava sentado na grande pedra à porta de casa, fumando cachimbo, quando Li Laicai, Wang Shouhui e Wu Renqing vieram rindo e conversando. Sem lhe dar opção, os três o pegaram, ou melhor, o arrastaram às pressas até a casa do “Dicionário Vivo” Gegen. Mesmo assim, chegaram tarde: a sessão de histórias já havia começado.
O “Dicionário Vivo” estava sentado no kang do lado norte, contando com grande entusiasmo:
— Cao Cao, ao deter o imperador, controlava todos os senhores da guerra. Resumindo, ele sequestrou o imperador e, em nome deste, impunha ordens aos demais. Quem não obedecia, sofria. Foi assim que Cao Cao, também conhecido como Mengde, iniciou a guerra. No começo, o alvo era Liu Biao e Liu Bei, para tomar Jingzhou, e nada tinha a ver com Sun Quan.
— Mas não foi o comandante de Sun Quan, Zhou Yu, que enfrentou Cao Cao em Chibi? — interrompeu Wang Shouhui.
— Deixa de falar besteira, como se só você soubesse de tudo. Se é assim, todo mundo devia te ouvir? — repreendeu Tong Weishan.
— Aqui, para ouvir histórias, só precisa de orelha, ninguém está obrigando vocês a ficarem mudos. Sigam ouvindo — disse Bai Hada, e todos se calaram. Wang Shouhui, de bom humor, só ria. Tong Weishan, de olhos arregalados, não ousou reclamar.
O “Dicionário Vivo” deu uma risada e continuou:
Dizem que Cao Cao escreveu uma carta a Sun Quan: “Recentemente, por ordem do trono, comandei a expedição contra os culpados. Meu estandarte aponta ao sul, Liu Cong se rendeu sem luta. Agora, preparo oitocentos mil soldados para caçar ao seu lado, general, em Wu.” Traduzindo: ultimamente, eu, a mando do imperador, fui combater os culpados. Meu exército foi ao sul, Liu Cong se rendeu de medo. Agora, preparei oitocentos mil soldados para ir caçar contigo aí no seu território... Vejam só a ousadia de Cao Cao! Oitocentos mil soldados, para “caçar”? Quem acredita nisso? Quando Sun Quan mostrou a carta aos seus, todos ficaram espantados — meu Deus, oitocentos mil soldados, se cada um pisar, esmaga o reino de Wu!
O “Dicionário Vivo” olhou ao redor; pela ordem de Bai Hada, ninguém ousou interromper. Ele bateu levemente o pedaço de madeira e continuou:
Será que Cao Cao tinha mesmo tanta gente? No “Romance dos Três Reinos” fala-se em “oitocentos e trinta mil descendo o Yangtzé”, mas nos registros históricos eram pouco mais de duzentos mil. Na verdade, muitos acham que esse número era só para impressionar, tentando vencer pelo medo, sem lutar. O objetivo era assustar Sun Quan, fazer com que se apavorasse só de ouvir falar em tanta gente. Na prática, o número devia ser pelo menos a metade, e os efetivamente prontos para a batalha, ainda menos. A carta de Cao Cao não passava de ameaça, igual a um panfleto gigantesco, só para intimidar. Juntando todas as tropas, não chegava a oitocentos mil, muito menos só de marinha. Era pura ostentação!