Capítulo 4: Pedindo a Mão Com Uma Perna de Cordeiro Nas Costas

Há um Rio Meia-Lua na Estepe Pastor Lin Xi 2261 palavras 2026-03-04 20:12:53

A velha senhora Anxin lançou um olhar reprovador ao filho e disse: Setenta e Sete, talvez a criança tenha realmente ouvido direito, parece que é isso mesmo.

Setenta e Sete respondeu: Mãe, eu ouvi – mas não posso comentar. Ontem, os três da casa do Han Audacioso foram levados. Ouvi o secretário do grupo, Bai Hada, dizer que realmente aconteceu algo com a família Han, mas ninguém sabe ao certo o quê.

Shalina suspirou e disse: Uma criança tão boa, como podem decidir executá-lo assim, de repente?

Os olhos da senhora Anxin brilhavam com lágrimas enquanto ela falava, resignada: Depois de tudo, é a pobreza, não é?

— Como assim, vovó? Ser pobre agora é crime de morte? — perguntou Qiqige, completamente confusa.

Setenta e Sete lançou para a filha um olhar severo.

A senhora Anxin disse: Menina, está discutindo com a avó? Ser pobre não é crime, mas viver na penúria não é motivo de orgulho. Quero dizer, se a família deles não fosse pobre, Heilong não teria ido para a cidade. Se ficasse em casa cultivando a terra, ninguém o incomodaria...

— E ainda assim comem doces? Eles sempre têm balas no bolso — comentou Alaif, não escondendo a inveja.

— Isso é só para mostrar! Estragam demais o menino, nós não vamos imitar a família Han! — Setenta e Sete resmungou, irritado. — Mesmo que ficasse em casa, Heilong não seria bom agricultor. Aquele moleque... se quer saber, é igual a “João Três”, que não come carne de defunto só porque os vivos não deixam.

Shalina então olhou para Setenta e Sete e disse: Nós também temos filhos, pra que falar essas coisas duras? Cuidado com as palavras.

A senhora Anxin estendeu as mãos para aquecê-las no braseiro e disse: Mãos ao arado, olhos no futuro.

...

No povoado, o vento era forte; na curva do rio, era ainda mais. O vento levantava a neve acumulada nas dunas, transformando-a em verdadeiras tempestades brancas. Uma figura caminhava a passos largos, carregando um saco de estopa nas costas, vindo do alto curso do rio Baoyin. O casaco de pele de carneiro estava coberto de neve, já todo esbranquiçado. Era um homem alto e robusto, a barba curta e cerrada estava tomada pela geada. O vapor quente que saía de sua boca e narinas se transformava em névoa branca, imediatamente dispersada pelo vento.

Esse viajante apressado era Bão Pedra, aparentando quarenta e poucos anos. Sua família vivia no assentamento de Guailisi, nas estepes do Escudo do Pavão, a cerca de duzentos quilômetros do povoado da Lua Crescente. “Guailisi” significa “amêndoa silvestre” em mongol, e “assentamento” é como chamam as pequenas comunidades naquela região, equivalendo a “grupo” ou “vila”. O local é voltado principalmente ao pastoreio, com algumas atividades agrícolas, e quase todas as famílias possuem rebanhos próprios, com centenas de ovelhas.

Bão Pedra enfrentou muita dificuldade, trocando de ônibus duas vezes até chegar ao grupo da Lua Crescente. Ele vinha visitar Baubayin, seu amigo de longa data. Como não havia amêndoas silvestres nessa época de frio intenso, trouxera consigo duas pernas de carneiro no saco.

Receber um amigo que enfrenta vento e neve e ainda traz um presente tão valioso era motivo de grande alegria para a família Bau. Duas pernas de carneiro! Em um lugar onde mal se via carne durante o ano inteiro, isso daria assunto para ostentar durante meses.

Bau Daixiao, filha mais velha de Baubayin e Gia, estava especialmente feliz, sorrindo discretamente, tentando conter sua alegria. Conta-se que, ao saber que sua nora dera à luz uma menina, Bau Enhe ficou um pouco decepcionado, pois esperava por um neto, e por isso insistiu em chamá-la de “Daixiao”, esperando que ela trouxesse um menino para a família. E, de fato, três anos depois, Gia teve um menino, Bau Muren.

Daixiao e a mãe, Gia, estavam ocupadas na cozinha, preparando pratos de chucrute, nabo, vagem seca, berinjela seca e, claro, usando a carne de carneiro recém-chegada, que combinava com qualquer prato.

Na sala interna, Baubayin conversava e tomava chá com Bão Pedra, que de vez em quando também trocava algumas palavras com Bau Enhe, o ancião deitado próximo ao fogão. Claro, o velho falava de modo confuso, era difícil entender; os dois principalmente queriam agradá-lo, sem se importar tanto com o que ele dizia.

Quando as cortesias se esgotaram e Baubayin fumou dois cachimbos de tabaco, notou que Bão Pedra ainda não abordava o assunto principal, o que o deixava um pouco ansioso.

Qual seria o assunto principal? Obviamente, o casamento dos filhos.

Baubayin bateu o cachimbo na borda da cama e, sorrindo, perguntou: Bão, este ano o inverno nas estepes trouxe muita neve?

— E como trouxe! Sorte que preparamos bastante alimento para o gado, não tivemos problemas. Qingshan, meu filho, é muito trabalhador. Já deixo tudo no assentamento sob responsabilidade dele, está tudo em ordem — respondeu Bão Pedra, elogiando propositalmente o filho, e então olhou para a janela.

Do lado de fora, na cozinha, Daixiao ouviu o nome “Qingshan” e sentiu um calor inexplicável no peito.

...

O dia caía. O vento derrubava a neve do telhado, girando sob a beirada da casa, e batia contra as janelas, fazendo o vidro tremer.

— O tempo passa rápido. Lembro daquele verão em que choveu tanto nas estepes do Escudo do Pavão, que até assustava. Parecia que incontáveis pessoas despejavam baldes de água das nuvens negras, deixando todo mundo atordoado. Ainda bem que você tinha um acampamento mongol no assentamento, senão eu teria sido desmanchado pela chuva.

Bão Pedra percebeu que Baubayin estava conduzindo a conversa para aquele tema e sorriu, dizendo: Não vou esconder de você, irmão Baubayin. Desde que nos separamos naquele dia, nunca deixei de pensar nisso. Agora que as crianças cresceram, não podemos mais adiar. Aproveitei esses dias antes do Ano Novo para vir conversar com você.

O coração de Baubayin se encheu de alegria, embora seu rosto não demonstrasse. Vendo que Muren ainda servia chá ao lado, disse: Muren, vá até a casa dos An, diga que o tio Bão está aqui e convide o tio Setenta e Sete para vir beber conosco e ajudar a receber o convidado.

— Está bem, vou agora mesmo!

Muren respondeu prontamente, pegou o chapéu e saiu correndo. Queria causar boa impressão ao futuro sogro, mostrando-se obediente, sensato e capaz. Além disso, gostava de ser o mensageiro em ocasiões como essa.

No grupo da Lua Crescente, ou em qualquer vila do interior, um dos trabalhos preferidos dos rapazes ou mesmo das crianças era convidar pessoas para comer em casa. Bastava uma ordem dos pais e ninguém recusava, não importava a distância; todos corriam orgulhosos. Naquela época, convidar alguém para jantar era motivo de imenso orgulho. Se alguém perguntasse no caminho para onde ia, o peito se estufava e respondia-se com orgulho: “Vou convidar fulano para comer e beber em minha casa”, sentindo-se importante. Ao chegar na casa do convidado, chamava-se todos de tio, e dizia: “Meu pai convida você para beber conosco”, como se a família fosse a mais rica do povoado, sentindo-se realizado.