Capítulo 99: O livro de registro das dívidas foi perdido

Há um Rio Meia-Lua na Estepe Pastor Lin Xi 2365 palavras 2026-03-04 20:14:44

O filho mais velho de Bao Qingshan e Yu Xiulan nasceu no segundo ano de casamento do casal, e recebeu o nome de Bao Suozhu. Não faz muito tempo, o segundo filho, Bao Suolian, veio ao mundo. Em dois anos, dois filhos; isso encheu Bao Qingshan de alegria até as sobrancelhas! No verão, era comum que toda a família Bao, das crianças aos idosos, se reunisse no pasto, para espairecer um pouco. Nessas ocasiões, Bao Shitou não se continha de felicidade, abraçava o neto Suozhu e, apontando para o rebanho, dizia: "Neto querido, este grupo de ovelhas é do seu avô para você; aquele outro ali é para o seu irmão, Suolian. E aquele lá, o avô está guardando para... para seu irmãozinho ou irmãzinha que ainda virá..."

Bao Suozhu batia palmas de alegria, gritando que queria comer carne de cordeiro.

Bao Shitou respondia: "Você é mesmo um pequeno guloso! Criar ovelhas é para desenvolver a pecuária, para enriquecer a família, não é para matar e comer todo dia. Se todo mundo fosse tão guloso quanto você, mesmo que as montanhas estivessem cheias, uma hora acabava tudo."

Bao Qingshan, ao lado, observava a conversa entre avô e neto, rindo satisfeito.

Bao Shitou, ao virar-se, disse: "Qingshan, por que está rindo assim feito bobo?"

"Não estou rindo de nada, só fico feliz de ver vocês dois tão contentes."

"A nossa felicidade é toda graças a você. Veja só..." Bao Shitou olhou ao redor, certificando-se de que não havia estranhos, e continuou: "No começo, você ainda brigava comigo, dizendo que eu estraguei sua história com a Baodai Xiao. Se não tivesse estragado, você teria casado com a Xiulan? Quem me daria dois netos como esses? Veja só, Baodai Xiao casou-se com Jinbao, e aí? Até agora só teve uma filha, e lá do outro lado do Rio Meia-Lua o controle de natalidade é rígido. Quero ver se ela tem coragem de ter outro filho..."

"Por que não teria? Ela, como nós, é mongol, tem direito a políticas diferenciadas."

"Mas, mesmo com política diferenciada, nada é tão flexível quanto aqui. O Rio Meia-Lua fica perto da cidade de Honglou, debaixo do nariz dos chefes, quem se atreve a desobedecer? Baodai Xiao..."

"Papai, fale mais baixo! Se Xiulan ouvir esse papo de Baodai Xiao, vai acabar brigando comigo..."

"Não se preocupe, Xiulan não é ciumenta como você!"

"Agora que já tem dois netos, está satisfeito, né?" disse Bao Qingshan, sorrindo.

"De jeito nenhum! Ainda não tenho neta, temos que ter mais! Mesmo que tenha que pagar multa por causa do controle de natalidade, temos ovelhas, podemos pagar!"

"Ah..." Bao Qingshan ficou sem palavras.

Desde que conseguiu cultivar mudas de arroz em estufas de plástico, Pu Jiandong ganhou grande fama e passou a ser ainda mais valorizado por Baihada. Por sugestão dele, o comitê do partido da aldeia decidiu, após reunião, nomear Pu Jiandong como chefe da terceira cooperativa, antiga terceira equipe de produção, pois lá havia mais arrozais do que em qualquer outro grupo.

Pu Jiandong ficou surpreso e honrado, mas temia ser jovem demais para conquistar o respeito geral. Recusou algumas vezes, mas não conseguiu escapar, e acabou aceitando. No início, alguns realmente não se conformaram; o mais incomodado era Han Heihu—embora não fosse da mesma cooperativa, não gostava de ver o irmãozinho que ele "protegiera" ultrapassá-lo. Han Heihu armou algumas confusões, mas sem causar maiores problemas, e acabou desistindo, como se diz, "matador de porco que não sopra—desistiu sem barulho".

O jovem e promissor líder da terceira cooperativa, Pu Jiandong, estava cheio de confiança e energia, determinado a liderar todos no plantio do arroz e a buscar juntos uma vida feliz...

Numa conversa entre mulheres da aldeia, alguém elogiou a família de Bao Bayin, dizendo que eram realmente ricos, criavam ovelhas como ninguém e o patrimônio só crescia. Alguém ainda comentou: "O casamento do filho foi uma festa e tanto! Xinghua, sua família se emparentou com gente assim, deve tirar proveito, não?"

Tian Xinghua, como de costume, torceu o nariz e murmurou: "Que nada! 'Bao do Cachimbo Grande' é como burro magro puxando carga pesada, só liga para as aparências e sofre em silêncio! Vocês sabem quanto ele endividou a família todos esses anos?"

"O quê? Endividou? Mas a família 'Bao do Cachimbo Grande' tem tantas ovelhas, todas de lã fina, é uma das mais ricas do Rio Meia-Lua!"

"Que nada! Eu vi com meus próprios olhos, todas as dívidas anotadas num caderninho velho, não somei tudo, mas posso garantir... É um monte, coisa de deixar o nariz de alguém bem comprido!" respondeu Tian Xinghua, cheia de mistério.

As mulheres ficaram surpresas, algumas acreditando, outras duvidando.

Essas palavras de Tian Xinghua chegaram, de boca em boca, até os ouvidos de Jiaya. Ela se assustou, correu para casa e começou a revirar tudo.

Bao Bayin entrou em casa e perguntou: "O que está procurando?"

"O caderninho de contas da família, onde está?" perguntou Jiaya, virando-se.

"Está dentro da bolsa de couro no armário," respondeu Bao Bayin.

"Este aqui?" Jiaya tirou uma bolsa de couro.

"Isso mesmo."

Jiaya virou a bolsa sobre o armário, mas não saiu nada. "Já revirei tudo, não está aqui!"

"Impossível! Deve estar no bolso com zíper dentro da bolsa," insistiu Bao Bayin.

Jiaya, cheia de esperança, abriu o zíper, mas continuava vazio.

Bao Bayin ficou nervoso: "Como assim? Quem levou?"

"Foi algum fantasma!" Jiaya jogou a bolsa de lado, sentou-se na beira do kang, furiosa.

Bao Bayin voltou ao armário, mexeu de novo.

"Para de procurar, não está! Eu já procurei mil vezes!"

O rosto de Bao Bayin ficou sombrio e ele logo acendeu o cachimbo. Como o caderno podia ter sumido? Não se preocupava tanto em esquecer as contas, pois todos os números estavam gravados em sua cabeça. O que mais temia era que alguém visse e descobrisse quanto deviam.

Jiaya, irritada, disse: "Pensa bem, Bao Bayin, será que não guardou em outro lugar?"

"Impossível! Sempre deixo ali!" respondeu ele, franzindo a testa, esforçando-se para lembrar se mudara de lugar.

Jiaya levantou a cabeça e perguntou: "Para de fumar! Você acha que Tian Xinghua poderia ter roubado?"

Bao Bayin se assustou e devolveu: "Como pode dizer isso?"

"Só quero saber se é possível! Responda logo!"

Antigamente, as famílias Jin e Bao se davam bem porque Tian Xinghua tinha interesse. Depois que as famílias se emparentaram, com Jinbao e Baodai Xiao casados, a relação mudou sutilmente. Em especial, quando Baodai Xiao teve uma filha, o prestígio dela na família Jin caiu e as relações entre as duas famílias começaram a azedar. No entanto, Tian Xinghua não teria como roubar o tal caderno, nem teria oportunidade.

Bao Bayin balançou a cabeça, como se falasse consigo mesmo: "Impossível. Ela jamais teria coragem! Mas por que você desconfia dela?"

"Chute meu!" respondeu Jiaya, sem paciência, sem revelar que ouvira fofocas.

O sumiço do caderno, segredo máximo da família Bao, inquietou Bao Bayin por muito tempo, sem que ele conseguisse entender o que tinha acontecido. Conformou-se, pensando: "Perdeu, perdeu. Quem não pega dinheiro emprestado para viver? Todos acabam endividados, é a vida..."

Ainda bem, pensava Bao Bayin, que não anotou no caderno que, no casamento de Baomuren, mataram só três ovelhas. Se o povo descobrisse que ele se gabou dizendo que foram cinco, seria motivo de riso por toda a região!