Capítulo 96: Não menosprezes o jovem enquanto ele é pobre
Ano de 1988
Ano após ano, o tempo passava impiedoso e indiferente, “cozinhando” a existência das pessoas. Parecia que, enquanto ninguém prestava atenção, de repente, os altos e robustos choupos ficavam cobertos de “lagartas” roxas e vermelhas, como se tivessem surgido do nada numa só noite. Eram os chamados “cãezinhos das árvores”.
“Flores de choupo e vagens de olmo, sem talento para a poesia, apenas sabem voar como neve no céu.” Quando os “cãezinhos das árvores” caíam, as flores de choupo voavam, o algodão do salgueiro dançava no ar e as moedas do olmo amareleciam, a primavera chegava de verdade ao Rio da Lua Crescente.
Na primavera de 1988, um forte vento leste trouxe ao vilarejo do Rio da Lua Crescente um verde exuberante. A onda da reforma e abertura do país, acompanhando o fluxo impetuoso do Rio Baoyin, penetrava todos os recantos do povoado, lavando a alma de cada um…
Ano novo, novas perspectivas, e muitas novidades na primavera. A primeira novidade foi: pela primeira vez, o vilarejo do Rio da Lua Crescente utilizou estufas de plástico para cultivar mudas de arroz.
Por estar tão próximo ao Rio Baoyin, o vilarejo sempre teve a vantagem da água, e sua história no cultivo de arroz era mais longa que a dos demais. Havia muitas famílias de origem coreana, exímias nesse cultivo. Em teoria, por estar tão próximo ao centro urbano de Honglou, as técnicas de cultivo deveriam ser mais avançadas, mas a realidade não era essa. Sem acúmulo econômico do coletivo, não havia incentivo para buscar projetos, e os moradores, sem base financeira, cultivavam os campos apenas como podiam…
O “cultivo de mudas de arroz em estufas de plástico” era, de fato, uma inovação tecnológica. O responsável direto era Park Jiandong, um camponês de dezoito anos, descendente de coreanos. Por que confiar uma tarefa tão importante a um “garoto”? Teriam os líderes da vila enlouquecido? Certamente que não.
Naturalmente, ao ser divulgado, o assunto causou alvoroço. Nem todos compreenderam. Alguns invejaram e aproveitaram para educar seus próprios filhos:
“Olha só o Jiandong da família Park, e olha pra você… Dá vontade de jogar fora a mercadoria ruim…”
“Se ele é tão bom, que venha ser teu filho!”
“Menino, não provoca! Se ele quiser mesmo ser nosso filho adotivo, abrimos mão de você…”
Logo, entre os jovens do vilarejo, o olhar para Jiandong tornou-se cada vez mais frio, e as ironias se multiplicaram:
“Nem perdeu o bico amarelo e já quer fazer grandes coisas?”
“Boca sem pelos, mão sem firmeza. Os líderes querem dar um tiro no próprio pé!”
“Esse garoto só conseguiu isso porque tem um tio no exterior, né?”
“Ah, qual nada! Ninguém nem sabe se o tio dele está vivo ou morto.”
Park Jiandong, contudo, ignorava tudo, surdo aos comentários, focado apenas nas mudas de arroz.
…
O “Dicionário Vivo” Ge Gen já havia sido transferido oficialmente para lecionar na escola de aperfeiçoamento do município de Honglou. Para ouvir histórias e crônicas, os moradores do Rio da Lua Crescente agora tinham de se esforçar mais.
Ge Gen sempre dizia: “Fui transferido, mas minha casa permanece aqui. Toda semana ou mês, volto ao vilarejo.”
Ma Mingyan, franzindo os lábios, zombava: “Só falta se perder nos encantos da cidade, nos esquecer e virar um Chen Shimei, desprezando órfã e viúva…”
“Cala a boca! Que bobagem!”, repreendia Ge Gen a esposa.
Os vizinhos, reunidos, riam alto. Havia quem parabenizasse, quem lamentasse e quem sentisse pena.
O “Dicionário Vivo” cumpriu a palavra: não mudou de casa, nem de coração, e voltava sempre. Assim, toda vez que Ge Gen regressava, todos, espontaneamente, se reuniam em sua casa durante as horas vagas.
Naquele dia, Yuan Zhenfu apareceu com Qiqige para participar. A casa estava cheia, mas o kang do norte era só de Ge Gen — tradição que todos respeitavam.
Algumas crianças, sem espaço dentro, ficavam no pátio, espiando pela janela.
O “Dicionário Vivo” animou-se e concordou em contar uma história. Logo os aplausos ecoaram e as crianças começaram a festejar.
Ge Gen olhou ao redor, e com um simples giro de cabeça, já sabia o tema da noite.
Com um estalo na madeira, a história começou.
Ge Gen limpou a garganta e disse: “Hoje, vieram muitas crianças. As crianças são o futuro da pátria, nossa esperança.”
Neste momento, os olhares de Ge Gen e Yuan Zhenfu se cruzaram, e Yuan assentiu.
“Mas tudo depende do destino. Não é à toa que dizem: ‘Mil milhas para encontrar quem se deva, frente a frente sem destino não se vê.’ O que há de vir, virá. Não se apresse; pode estar a caminho neste instante…”
Poucas palavras, mas se os demais não entenderam, Yuan Zhenfu e Qiqige sentiram o coração arder, corando levemente.
Alisando a barba de bode, Ge Gen riu e continuou: “Voltando ao assunto, hoje vou contar uma história sobre crianças. Antes, faço uma pergunta — regras claras: só as crianças podem responder, adultos fiquem quietos —: quem era o comandante supremo das forças de Wu que derrotou Cao Cao na Batalha de Chibi, na ‘Romance dos Três Reinos’?”
“Zhou Yu, o Duque Gongjin!”, responderam quase em uníssono as crianças do lado de fora.
“Correto! Muito bem! Claro, toda a história do incêndio de Chibi envolve Huang Gai e seu plano, Pang Tong com a estratégia das correntes, Zhuge Liang e o vento leste, e muitos outros, mas isso já contei antes. Agora, uma nova pergunta: qual era a idade de Zhou Yu quando se tornou comandante da marinha?”
“Eu sei — treze anos!”, gritou Alai com rapidez.
Li Sanfu, que não conseguiu responder, baixou a cabeça desanimado e exclamou: “Muito bem! Concordo plenamente!”
“Besteira!”, gargalharam algumas crianças, zombando dos dois.
Todos riram.
Com novo estalo de madeira, o “Dicionário Vivo” Ge Gen, eloquente, declamou:
“No passado, Wen Yanbo na dinastia Song, ainda criança já mostrava sabedoria com a bola flutuante. Sima Wengong planejou salvar um filho preso numa ânfora. Kong Rong, aos quatro anos, cedia pêras, mostrando humildade. O Décimo Terceiro Príncipe, aos cinco, saudava o imperador. Liu Yan, dos Tang, aos sete já era aprovado para a Academia Hanlin. Huang Xiang, dos Han, com nove anos aquecia o leito para os pais. Gan Luo, dos Qin, com doze, já tinha talento de primeiro-ministro. Zhou Yu, dos Wu, aos sete aprendia letras, aos nove praticava artes marciais, aos treze comandava a marinha, liderando milhares de soldados e exercendo autoridade sobre seis regiões e oitenta e uma províncias. Usou o ardil da carne, a estratégia das correntes, pediu o vento leste e queimou os navios, fazendo Cao Cao fugir em desespero, quase perdendo a vida no sul do rio. Ainda que ajudado pelos gênios Dragão Adormecido e Fênix Jovem, Zhou Yu foi, sem dúvida, o maior entre as crianças prodígio.”
“Bravo!”, gritos e aplausos ecoaram novamente.
O “Dicionário Vivo” fez uma breve pausa, sorrindo enquanto a barba tremia, e continuou: “O que quero dizer é: não zombem dos jovens, não desprezem a infância humilde. A responsabilidade de hoje não é de outros, mas de nossos jovens. Se os jovens são sábios, o país é sábio; se os jovens são ricos, o país é rico; se os jovens são fortes, o país é forte… ‘Trinta glórias em pó e terra, oito mil léguas de nuvens e luar. Não deixem que o tempo passe e os cabelos embranqueçam em vão, restando apenas tristeza.’ Eis versos de Yue Fei em ‘Cheia do Rio Yangtzé’. Que todos prezem o tempo e busquem o progresso com afinco!”