Capítulo 85: Dupla Felicidade na Família Bao
Yuan Zhenfu deixou de se importar com a casa, o que naturalmente desagradou Qiqige. Por um lado, ela defendia Yuan Zhenfu e explicava sua atitude perante os pais; por outro, tentava fazer ainda mais tarefas para aliviar o fardo dele. Contudo, quando estavam sozinhos, não conseguia evitar deixar escapar algumas queixas. Yuan Zhenfu, porém, não lhe dava importância, continuava dedicado ao seu próprio modo, focando toda a atenção na turma e nos alunos, determinado a ser um “bom professor”.
As fofocas se multiplicavam como a relva cortada: cada vez que eram aparadas, brotavam novamente, e ainda mais vigorosas. Yuan Zhenfu tornou-se genro de Anjia, casando-se por vontade própria, sem imposição, sem compra, sem qualquer tipo de transação – era um casamento absolutamente comum. Mesmo assim, na aldeia, o assunto gerou muitos comentários. Principalmente entre as mulheres mais faladeiras, que diziam de tudo. Algumas afirmavam: “Yuan Zhenfu veio ensinar em nosso Rio da Lua Crescente só por causa da moça da família An. Esse rapaz já estava de olho nela fazia tempo, porque ela é bonita.” Outras comentavam: “A família An é esperta mesmo; assim que Yuan Zhenfu foi efetivado, logo o fisgaram, agora têm alguém com salário garantido. Esse negócio foi bem planejado.” E ainda havia quem dissesse: “Vocês acham que An Setenta e Sete é ingênuo? Ele fingiu não concordar com o casamento no início, só para fisgar o rapaz de vez.”
Às vezes, os adultos da família falavam sem filtros, e algumas dessas palavras chegavam aos ouvidos das crianças. Assim, na Escola Primária do Rio da Lua Crescente, alunos de outras turmas passaram a zombar de Alai Fu por causa disso.
Alai Fu enchia-se de raiva, fervendo de indignação; raramente respondia com palavras, preferindo calar a boca dos outros com os punhos. Se podia resolver com as mãos, não usava a língua!
Naquele período, Alai Fu mobilizou todos os colegas do sexo masculino da classe, unindo-os como nunca – o objetivo era um só: enfrentar qualquer provocação externa! Se algum aluno de outra turma falasse mal do professor Yuan, todos tinham de reagir sem hesitar. Caso contrário, Alai Fu inventaria alguma história para contar ao professor Yuan, e aí ninguém escaparia das consequências.
Alai Fu passou a se envolver em brigas com frequência. Yuan Zhenfu ficou furioso, chamou-o várias vezes ao escritório para repreendê-lo, mas o garoto nunca revelou o verdadeiro motivo. Felizmente, nenhum aluno saiu ferido, então o caso não foi levado adiante. Yuan Zhenfu, ao chegar em casa, contou discretamente a Qiqige sobre o comportamento de Alai Fu na escola, pedindo que ela conversasse com o menino.
Qiqige respondeu: Vou conversar com ele. Mas, de maneira alguma, conte aos meus pais.
Yuan Zhenfu perguntou: Por quê?
Qiqige explicou: Você é direto demais. Se contar para eles, vão ficar envergonhados e, provavelmente, descontarão no Alai Fu. Depois, ele ficará bravo por você ter contado, e meus pais, mesmo depois de baterem nele, acabarão sentindo pena. Até minha avó deixará de gostar de você...
Yuan Zhenfu entendeu de imediato e disse: Ainda bem que você me alertou, senão eu só me desgastaria sem resultado. Qiqige, você é mesmo especial.
Naquele início de primavera, a família Bao do vilarejo de Rio da Lua Crescente recebeu ótimas notícias em sequência – chegaram duas meninas! Uma era neta, outra era filha.
Acontece que, pouco depois do nascimento de Jin Meihua, filha de Jinbao e Bao Daixiao, nasceu também a filha de Bao Muren e Wulan Tuya. Deram-lhe o nome de Aruna, que em chinês significa “pureza”. A ideia foi de Wulan Tuya, e nem mesmo Bao Bayin ousou se opor.
Bao Muren ficou radiante: Que nome bonito, e o significado é ótimo! Muito melhor do que o nome da minha irmã – Daixiao, Daixiao... soa tão ultrapassado.
Jiya riu: Não se gabe tanto, se seu avô ouvisse isso, ia te dar um tapa.
Bao Muren fez uma careta e, apressado, disse: Mas, olha só, o nome da minha sobrinha Meihua ficou lindo, não foi? Além de belo, ainda é dourado – é valioso...
Wulan Tuya, brincando com a pequena Aruna, disse: Querida, escuta só como seu pai é bom de conversa; agora já sabe como não ofender ninguém...
“Já sou pai, como não entender essas coisas? Tuya, você está subestimando demais a minha esperteza.” Bao Muren sorriu tanto que os olhos se tornaram apenas dois risquinhos. Em seguida, falou: “Aruna, papai vai tocar um pouco de violino para você ouvir.”
Jiya rapidamente interveio: Melhor parar, senão vai assustar minha neta, tocando desse jeito desajeitado.
Bao Muren riu, meio sem graça.
Wulan Tuya, olhando para a filha, começou a cantarolar: “Serra, serra, grande serra, hoje tem teatro na porta da vovó. Leva a filha, chama o genro, a neta também vai. Hoje armamos o palco, amanhã penduramos os enfeites, colocamos os pãezinhos de carneiro na mesa, e, mesmo dizendo que não vai comer, acaba comendo duzentos...”
Bao Muren sorria, olhando para a pequena Aruna com todo o carinho.
Jiya ajeitou os cabelos e disse: Só quem administra a casa sabe o valor do arroz e do feijão, só quem cria filhos entende o amor dos pais… nada mais verdadeiro...
O nascimento dessas crianças trouxe alegria para toda a família Bao.
Mais um membro, quatro gerações sob o mesmo teto!
A vida que An Xinshi tanto desejava, a família Bao foi a primeira a realizar.
As ovelhas da família Bao já somavam mais de uma dezena, formando um verdadeiro rebanho. Mas o carneiro reprodutor “Lã Fina das Estepes” não trouxe a prosperidade esperada a Bao Bayin. Além disso, não ficou satisfeito com a forma como Jinbao cuidava das ovelhas, e, irritado, trouxe todos os animais de volta para casa. Depois, vendeu dois e ficou apenas com um, que ele próprio pastoreava todos os dias, quase como se quisesse se exibir. Talvez quisesse mostrar a todos que, mesmo sem a colaboração da família Jin, ainda conseguiria criar bem as ovelhas. Ou talvez estivesse desafiando os outros criadores do vilarejo: “Quem não usar o carneiro reprodutor ‘Lã Fina das Estepes’ da minha família, vai acabar se arrependendo!”
O pensamento de “Bao Cachimbo Grande” era diferente dos demais, difícil de decifrar. De qualquer forma, no vilarejo do Rio da Lua Crescente, todos já sabiam que ele queria enriquecer escondendo o carneiro reprodutor – era um segredo aberto, ninguém mais se surpreendia. Talvez, acostumados com a situação, alguns aldeões, ao avistarem de longe a família Bao levando as ovelhas para pastar, desviavam o caminho para evitar constrangimento e poupar Bao Bayin.
Assim, não importava se era provocação ou desafio da parte de Bao Bayin – nada disso causou qualquer alvoroço entre os outros.
An Setenta e Sete, por sua vez, ainda invejava Bao Bayin e nunca deixava de observá-lo enquanto pastoreava. Às vezes, quando se encontravam à beira do rio, Bao Bayin fumava seu cachimbo, satisfeito e sorridente.
Ao ver as ovelhas da família Bao, todas gordas e saudáveis, An Setenta e Sete não conseguia esconder a admiração, trocando algumas palavras despretensiosas. Costumava ser autoconfiante, mas, diante de Bao Bayin e de seu rebanho, sentia-se inferior e deixava transparecer seu apreço pelas ovelhas alheias. A comparação era inevitável – e surpreendente.
Bao Bayin dizia: Irmão, por que você não adquire também umas ovelhas melhoradas? A “Lã Fina das Estepes” é ótima, reproduz rápido, tem lã fina, muita lã, e lã valiosa!
An Setenta e Sete respondia: Vontade eu tenho, mas falta dinheiro sobrando... E, para ser sincero, não ria de mim – tenho tanto trabalho em casa que não consigo dedicar muito tempo às ovelhas.
Bao Bayin tragava o cachimbo e dizia: Quando a vida aperta, você acaba encontrando tempo. Se dormir duas horas a menos por noite, consegue pastorear mais e ainda cortar alguns feixes de capim. Se o homem não se esforçar, como é que as ovelhas vão engordar?