Capítulo 82: Bao Muren Castiga Severamente o "Homem de Língua Comprida"
Embora Han Destemido sentisse muita pena, não insistiu mais. Sabia que, mesmo que brigasse, não venceria, e ainda poderia acabar manchando sua própria reputação; era melhor deixar pra lá. Mas por dentro estava incomodado, pensando: todos dizem que meu filho Tigre Negro é um homem forte, mas onde ele está usando essa força?
Quanto mais pensava, mais irritado ficava. Sempre tão carinhoso com o filho, Han Destemido agora, ao olhar para seu “menino do coração”, via defeitos em tudo, repreendendo-o sem motivo. Isso acabou irritando profundamente Tong Yuwan, que respondeu com uma enxurrada de críticas. Ficava claro, assim, que se no vilarejo da Lua Crescente havia alguém que protegia os filhos como ela, não existia quem ocupasse o primeiro lugar além dela!
Qiqige tinha se casado, e aquele professor magricela e de cabelo grande da escola, o senhor Yuan, agora era quem “mandava” nela. Como Tigre Negro poderia não estar furioso com isso? Aproveitou a deixa das broncas para dar um passo maior do que a perna e, tomado pela raiva, foi para o centro da cidade de Honglou. Tong Yuwan e Han Destemido começaram a fazer drama, exigindo que ele fosse buscar o filho de volta.
Han Destemido ficou pasmo e disse: Eu? Com essa minha perna manca, onde vou procurar esse menino?
Tong Yuwan endureceu e disse: Não quero saber. Se você não trouxer nosso filho de volta, não me verá mais pela frente! E se acontecer alguma coisa com o Tigre Negro, eu não quero mais viver — e você também não vai viver! Meus três irmãos não são de brincadeira!
Só de ouvir falar nos cunhados — "Cogumelo Grande" Tong Weishan, "Louco de Pedra" Tong Weisi e "Resmungão" Tong Weiqi — Han Destemido já sentia dor de cabeça e medo. Para ele, os “Três Demônios da família Tong” eram três autênticos bandidos, totalmente desprovidos de consideração ou lógica.
Han Destemido também tinha seus temores? Os fatos mostravam que até o mais destemido teme os descontrolados, os descontrolados temem os que não têm nada a perder, e estes últimos só têm medo dos doidos — quem diria, só mesmo aquele “Bobo” chamado Xizi conseguiria domar esses três!
Han Destemido começou a torcer para que o Bobo Xizi viesse à vila, querendo fazer amizade e, quem sabe, usar o rapaz para dar um jeito nos cunhados. Andava pelas ruas apoiado em sua bengala, com guloseimas no bolso, ora para encontrar Xizi e puxar conversa, ora para evitar Tong Yuwan e suas queixas e broncas...
Diziam que, ao chegar na cidade de Honglou, Tigre Negro primeiro entrou no depósito de cargas da estação de trem, mas não aguentou o serviço pesado de carregar e descarregar mercadorias. Em poucos dias, arranjou confusão e exigiu o pagamento, depois sumiu sem deixar rastro...
...
O inverno chegou, a neve caiu, e o mundo lá fora estava em paz. Mas o coração de algumas pessoas permanecia inquieto.
No grupo das “línguas afiadas”, havia tanto mulheres quanto homens, pois fofocar não era uma exclusividade feminina. Quando um homem resolve ser falastrão, pode ser ainda mais excessivo que uma mulher.
No inverno, sem trabalho no campo, Bao Bayin, sempre inquieto, insistia em sair para catar esterco. Bao Muren, preocupado, disse: Pai, está muito frio, é melhor não ir.
— Se não acumularmos esterco, como a lavoura vai crescer bem? E vamos ganhar prêmio na competição? Além do mais, se eu não for, você vai?
— Eu... — Bao Muren ficou sem saber o que responder.
Bao Bayin colocou o cachimbo na cintura, pegou o cesto e continuou: Este ano nossa família ganhou o primeiro prêmio no concurso de produção, você e Tuya se esforçaram muito, eu e sua mãe sabemos disso. Claro, o adubo orgânico também fez grande diferença, não podemos menosprezar.
— Sim, pai... Então eu vou no seu lugar... — Bao Muren, ainda que contrariado, não teve coragem de deixar o pai enfrentar o frio e tomou o cesto das mãos dele.
— Vá pra dentro e coloque o gorro, senão seus ouvidos não aguentam. Não ligue para o que os outros dizem, catar esterco não é vergonha, colher mais grãos é que é motivo de orgulho! Quem ri é o preguiçoso... — aconselhou Bao Bayin ao filho.
...
Guiado pelas palavras do pai, Bao Muren saiu pela rua com o cesto, recolhendo esterco para adubar a própria terra. Talvez o gorro de pele de cachorro estivesse cobrindo demais o rosto, ou talvez o “fofoqueiro” nem o tenha notado e continuasse, animado, conversando com quem passava.
De repente, Bao Muren percebeu que falavam dele e de Ulan Tuya. Aproximou-se silenciosamente, escutando o homem dizer: Veja só, uma esposa dessa serve pra quê? Dorme até tarde e obriga a sogra a se levantar cedo para fazer o café. Onde já se viu?
— Isso é verdade? Já ouvi falar, mas não quis acreditar.
— Eu vou mentir? Se não tivesse visto com meus próprios olhos, ia inventar? Pareço alguém que fala sem saber?
— Por fora, Ulan Tuya parece ser uma boa pessoa. Você tem certeza? Melhor não inventar isso...
— Cachorro que morde não mostra os dentes. Se fosse eu no lugar do Bao Muren, já teria largado essa mulher! Que homem é esse, não tem nem pulso, só serve pra segurar esse bastão...
O “fofoqueiro” era ninguém menos que o “Cogumelo Grande” Tong Weishan, famoso matador de porcos, e seu “ouvinte” era Wu Renqing, o preguiçoso notório do vilarejo da Lua Crescente.
— Tio, não vai contar isso pra mais ninguém...
— Eu? Vou perder tempo falando disso aos outros? Só quero te alertar, na próxima vez que for escolher alguém, abra bem os olhos. Minha irmã já se foi, mas você, meu sobrinho, ainda me dá trabalho. Não vá escolher só por dinheiro, como o Bao Muren...
Tong Weishan ainda se gabava quando sentiu um vento nas costas — nem teve tempo de se virar: Bao Muren acertou-lhe um golpe nas costas com o cabo do forcado de esterco. O golpe foi tão forte que ele quase caiu de cara no chão.
— Ai, minha nossa! Que desgraçado bateu tão forte assim? — Quando viu que era Bao Muren, saiu correndo de medo. Sentiu-se culpado e não ousou mais se fazer de “cogumelo”.
Bao Muren ergueu o forcado para ir atrás dele, mas Wu Renqing o segurou firme.
— Calma, Muren! Não liga pra ele. Ele pode ser meu tio, mas eu não respeito aquele povo. A família Tong é toda daquele jeito, não vale a pena discutir. Um matador de porcos metido a sabichão, nunca sai coisa boa da boca dele!
Os “Três Demônios da família Tong” nunca gostaram de Wu Renqing como sobrinho. Depois que a irmã faleceu, passaram a evitá-lo como se fosse peste. Tong Weishan só conversou com ele hoje porque estava doido para fofocar e não achava mais ninguém para escutar. Wu Renqing sabia bem com quem lidava, por isso, assim que viu Bao Muren, mudou de lado na hora.
Bao Muren nem deu trela para Wu Renqing, apontou para as costas de Tong Weishan e gritou: Quero ver você falar mal de novo, Tong! Se mulher fala besteira eu não posso bater, mas homem eu não tenho medo! Vou acabar com você! Um homem feito, falando mal de mulher, não tem vergonha, não?
O vento do noroeste era forte, talvez aquelas palavras nem fossem muito longe.
Quando Wu Renqing viu Tong Weishan sumir de vista, soltou Bao Muren e tentou acalmá-lo, dizendo para não se importar com gente desse tipo.
— E você também não é flor que se cheire! — retrucou Bao Muren, lançando-lhe um olhar severo antes de sair com o cesto pendurado no braço.