Capítulo 12: Pobreza não deve limitar a ambição
“Diz o ditado: ‘Cavalo magro não vai à guerra; pessoa pobre não deve visitar parentes’. Se o cavalo não tem força, não deve ir para o campo de batalha; quando a pessoa está passando necessidade, é melhor evitar sair por aí visitando os outros. Ninguém recebe bem, e, além disso, a pessoa nem consegue se impor ao falar. A pobreza não é assustadora; só melhorando por conta própria a situação de vida, tornando-se forte e próspero, é que se pode conquistar o respeito alheio!”
O “Dicionário Vivo” falou direto ao coração de todos, e a plateia assentia com frequência, demonstrando concordância. Afinal, muitos sentiam na pele — ser pobre não é fácil.
Gergen percebeu que havia atingido o tom certo com o público e ficou satisfeito. Continuou: “Voltando ao assunto, vamos falar de Liu Bei, o Grande Xuande. Felizmente, apesar de pobre, nunca perdeu a ambição. Desde pequeno, estabeleceu grandes objetivos: restaurar a dinastia Han, buscava sempre a amizade dos heróis do mundo, e frequentemente discutia os assuntos do Estado com eles…”
Gergen, o “Dicionário Vivo”, tinha uma característica peculiar ao contar histórias: não importava se o conteúdo era verdadeiro ou não, se tinha lido ou inventado ali na hora. Ouvindo, todos achavam interessante, e, ao mesmo tempo, sentiam que havia sentido nisso. Quanto mais se pensava, mais sabor tinha, quanto mais se refletia, mais energia dava...
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Após cada Ano Novo, mesmo que os dirigentes da aldeia e os chefes das equipes de produção não lembrassem, o povo de Lua Crescente já começava a pensar nos trabalhos do campo. Para quem vive da terra, ela é a base da vida, ainda mais agora que tudo estava dividido em lotes familiares. Exceto raras exceções, quem não seria diligente e proativo?
Já no inverno de 1980, a cidade de Mansão Rubra havia começado a implementar o “Aviso sobre o Fortalecimento e Aprimoramento do Sistema de Responsabilidade na Produção Agrícola”, realizando experiências em vários grupos, com o sistema de responsabilidade centrado no lote familiar. Em 1981, 70% das áreas rurais da cidade já tinham adotado o sistema. Em 1982, seguindo as diretrizes do “Documento Número Um”, consolidaram e aperfeiçoaram o sistema onde já havia sido implantado, e, nos arredores da cidade, nos grupos produtores de hortaliças, também passaram a adotar a divisão familiar. No fim desse ano, até os grupos que cultivavam arroz tinham assinado contratos de responsabilidade pelo uso da terra com validade de quinze anos.
Essas medidas de reforma injetaram nova vida no campo de Mansão Rubra, trazendo vitalidade à agricultura e esperança aos camponeses...
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Naturalmente, a vida feliz não se alcança de um dia para o outro. Para que o amargo vire doce, é preciso um processo de luta.
Naquele Ano Novo, cada família passou com simplicidade, ou seja, sem grande sabor — era pobreza, afinal! Os fogos de artifício eram raros, só se contava umas poucas moedas para comprar uma fileira pequena para os meninos. E ainda se recomendava: “Solte um por vez, economize, senão, quando acabar, vai ficar com inveja dos outros meninos.”
Na verdade, nem precisava os adultos avisarem: nesse assunto, as crianças eram experientes. Fosse uma fileira de cinquenta ou de cem, para elas era um tesouro; só soltavam quando a vontade era insuportável. Quando, por acaso, a administração ou a cooperativa soltava uma fileira grande, uma multidão de meninos corria para catar os que não tinham explodido. Se dessem sorte de achar dois ou três ainda com pavio, a alegria durava o dia inteiro...
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A casa dos Setenta e Sete de An tinha idosos e crianças, e uma grande enchente, anos antes, levara quase tudo o que tinham. Desde então, a vida andava apertada. No Ano Novo, tudo podia ser poupado, menos o ravióli da véspera: adultos e crianças esperavam por ele. E o significado desse prato era especial — sem ravióli, não era Ano Novo! Rico ou pobre, o ravióli não podia faltar...
Para esse jantar, Shalina realmente se desdobrou. Com muito esforço, preparou o recheio, mas a farinha branca era pouca. No saco, só restava um fundo, mal dava para duas tigelas. Em pleno Ano Novo, não podia servir ravióli misturado com farinha de milho para a família. O que fazer? Pedir emprestado. Em toda a aldeia, contando nos dedos, não devia haver mais de dez casas com farinha sobrando. A quem pedir? Pensando, Shalina lembrou-se de Liu Guang. Apesar do nome masculino, Liu Guang era mulher, casada com Sun Dehou.
Sun Dehou era professor concursado, tinha o tão invejado “cartão vermelho de grãos”, recebia farinha fina todo mês, então sempre havia sobra em casa. Claro, não era porque tinham muita, era porque economizavam, juntando um pouco aqui, outro ali...
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No Ano Novo, a alegria era quase toda das crianças. Elas não se preocupavam com o sustento, bastava comer à vontade e brincar sem limites. Quem administra a casa é que sabe o quanto custa o arroz e a lenha. Os adultos viviam pensando em tudo que faltava...
Na noite da véspera, Alayev e Lisanfu, junto com um grupo de meninos arteiros, só voltaram para casa depois de brincar bastante pela aldeia, carregando lanternas feitas de potes de vidro, prontos para comer o tão esperado ravióli, “uma vez por ano”, que até escorria gordura pela boca.
O ravióli da véspera era aguardado com ansiedade. O motivo, no fundo, era simples: quase nunca se comia. Talvez no Festival do Barco-Dragão ou no Festival do Meio Outono se preparasse uma rodada, mas não tinha diferença do Ano Novo.
O ravióli era uma memória de luxo para aquela geração. Sonhar em comer um, e acordar ainda sentindo o sabor nos lábios...
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Alayev, mesmo caindo de sono, insistia em esperar até meia-noite pelo prato de raviólis.
Assim que o preparo começou, Alayev já circulava em volta da mãe, ansioso para provar logo, mas não ousava pedir.
An Xin percebeu o desejo do neto e o consolou: “Fique tranquilo, quando bater meia-noite, soltamos uma fileira de fogos e, então, podemos comer os raviólis, recebendo a ‘Deusa da Fortuna’.”
“Os fogos eu vou soltar!”
Qiqige respondeu: “Ninguém vai disputar com você, seu mão de vaca!”
Nem deu tempo de Alayev retrucar: An Xin interveio: “Qiqige, hoje é véspera, só se pode dizer palavras de sorte! Uma moça crescida dessas, provocando o irmão à toa.”
“Vovó, e você disse ‘à toa’, olha só!” Qiqige riu.
“Eu... já sou velha, não conta. Vocês ainda são jovens, têm muitos anos pela frente... Assim que der meia-noite, fico mais velha mais um ano.”
Alayev logo perguntou: “Vovó, tantas casas vão receber a Deusa da Fortuna, para onde ela vai afinal?”
An Xin sorriu: “Para a casa onde as crianças se comportam, onde as pessoas são trabalhadoras, é ali que a Deusa da Fortuna entra.”
“Vovó, eu sou obediente, e todos aqui na casa dos An são trabalhadores, então a Deusa da Fortuna com certeza vai vir para cá!”
An Setenta e Sete sorriu satisfeito, gostava de ouvir essas palavras — traziam sorte!