Capítulo 53: O Tigre Negro Quase Virou Alimento de Mosquitos

Há um Rio Meia-Lua na Estepe Pastor Lin Xi 2253 palavras 2026-03-04 20:13:19

Salina começou a acender o fogo, enquanto Qiqige pegava água para lavar os legumes.

— Filha, o que você estava bordando agora há pouco? Parecia uma fronha de travesseiro, não?

O rosto de Qiqige ficou levemente corado e ela respondeu:

— Não, não é isso... é um lenço. A senhorita Dai me pediu para ajudar...

Salina tentou conter o riso e disse:

— Faz quanto tempo que a pequena Dai não vem mais aqui em casa? Não tente me enganar. Sua mãe aqui pode não bordar tão bem quanto você, mas isso é porque meus olhos já não acompanham mais. Mas não se esqueça, eu entendo de bordado — como acha que consegui te ensinar? Eu sei que não existe lenço tão grande assim, quase do tamanho de uma cortina de porta!

Qiqige não quis dar continuidade ao assunto e mudou de tema:

— Mãe, por que o papai ainda não voltou?

Salina olhou para fora e respondeu:

— Seu pai foi para aquele terreno na curva do rio. Ontem, quando passou por lá, viu que estava meio abandonado e, à tarde, insistiu em ir arrancar o mato alto. Seu pai é desses que detesta serviço por fazer, quer terminar logo tudo. Se o céu não escurecer ao ponto de não dar mais para distinguir o mato da plantação, ele não volta para casa.

...

Han Hegu ficou de bicicleta na curva do rio, encostou a bicicleta numa árvore e começou a andar sem pressa por ali. De fato, aquele caminho não era passagem obrigatória para o centro da cidade de Honglou. Ele sabia que a família de Qiqige tinha um pedaço de terra por ali, e era verdade que o mato crescia forte naquele lugar. Era bem possível que Qiqige, ao voltar por esse caminho, resolvesse dar uma olhada para ver o estado do terreno.

Por isso, Han Hegu acreditava firmemente que as “informações” que Li Sanfu havia conseguido eram não só plausíveis, como também cem por cento verdadeiras.

Esperar era uma tortura, especialmente quando não se tinha nada para fazer e o tempo parecia se arrastar. Han Hegu, por diversas vezes, pensou em ir até a beira do rio catar pedras, mas tinha medo de perder a chance de um “encontro casual” com Qiqige, então desistia da ideia.

O gosto de catar pedras surgiu há alguns anos. Na época, Han Heilong, seu irmão, conseguiu por acaso, com uns conhecidos no centro de Honglou, um manual ilustrado de artes marciais — um guia de boxe — e ficou radiante. Em casa, os pais não deixavam ele treinar; o espaço era pequeno e o quintal também não ajudava, então acabava tumultuando tudo. Han Heilong passou a ir até a praia do rio Curvo, onde encontrou um campo natural para praticar. Quando estava removendo umas pedras grandes do caminho, encontrou uma amarela que brilhava ao sol e achou divertido, guardando-a para si.

Han Heilong fazia piruetas, praticava golpes e chutes conforme o manual, e Han Hegu assistia com atenção, às vezes até se animava a tentar junto com o irmão. Depois de suar bastante, se não havia ninguém por perto, pulavam no rio para se lavar ou ficavam vagando pela praia do rio. Nessas andanças, acabavam achando pedras com formas estranhas e bonitas.

Esse gosto, que parecia tão estranho e desajustado na época, acabou influenciando o irmão mais novo, Han Hegu. O pai, Han Dadan, ficava bravo e dizia:

— Para que vocês ficam trazendo essas pedras redondas e tortas para casa? Por acaso dá para comer?

Han Heilong, sempre sorridente, retrucava:

— Pai, se um dia eu encontrar um lingote de ouro para o senhor, aí o senhor não vai me xingar mais.

Tong Guizhen, a mãe, caía na risada:

— Isso sim seria ótimo! Nossa família ficaria rica de uma vez, teríamos tudo o que quiséssemos. Heilong, Hegu, a mamãe acredita em vocês!

— Han Heilong, você acha que tem essa sorte? — replicava Han Dadan, e em seguida dizia à esposa: — Tong Guizhen, você só sabe mimar esses meninos. Qualquer dia você estraga eles de vez!

Tong Guizhen rebatia:

— Olha quem fala! Você não é muito diferente de mim!

...

O coaxar dos sapos ecoava, a água corria murmurando. Han Hegu olhou para a praia do rio e murmurou consigo mesmo:

— Se meu irmão ainda estivesse vivo, como seria bom... Ah, não pode ser...

Seu rosto esquentou, pois pensou: Se o irmão estivesse vivo e soubesse que ele estava ali esperando Qiqige só para vê-la, com certeza acabaria com todas as habilidades marciais que ele tinha!

...

A noite foi caindo devagar. À beira do rio Curvo, a família dos sapos iniciava seu festival de canto: uns terminavam, outros começavam, todos cheios de energia, nenhum querendo ceder. Ao mesmo tempo, os mosquitos, sempre inconvenientes, ao verem uma pele macia como a de Han Hegu, vieram em bando se banquetear. Eles não ousavam se aproximar dos sapos, mas rondavam Han Hegu sem medo. Mordidas na esquerda, na direita, em cima, embaixo; praticante de artes marciais que era, Han Hegu desferia tapas para todos os lados, mas não conseguia conter o ataque dos mosquitos.

— Que se dane, não aguento mais ser picado desse jeito! — Han Hegu já não aguentava e pensou em ir embora. Mas lembrou das palavras de Li Sanfu: “Se alguém for buscá-la à noite, Qiqige vai ficar radiante.” Então, firmou sua decisão — homem que é homem, aguenta até congelar em pé ou morrer de fome, mas não recua, nem que os mosquitos lhe chupem todo o sangue! Não voltaria para casa sem ver Qiqige!

De repente, Han Hegu ouviu passos. Uma silhueta surgiu ao longe no caminho e foi se aproximando. Seu coração disparou, e, sem perceber, ele levou a mão direita ao peito, como se temesse que o coração caísse a qualquer momento.

Cinquenta metros, trinta metros, dez metros... Han Hegu não conseguia conter a emoção e foi ao encontro. Tossiu de leve para chamar a atenção, temendo que, se aparecesse de repente, pudesse assustar Qiqige. Quem diria que esse rapaz, meio estabanado, tivesse tamanha delicadeza? Talvez fosse isso que chamam de “força do amor”.

A pessoa também avistou Han Hegu, mas não conseguiu identificar quem era e continuou andando.

Han Hegu abriu a boca e chamou:

— Qi...

Só conseguiu dizer a primeira sílaba, engolindo o restante das palavras. Quando viu de perto, percebeu que não era Qiqige. Mas também não era um estranho: era An Setenta e Sete, o pai de Qiqige.

A língua de Han Hegu deu um nó, e ele rapidamente corrigiu:

— Se... Setenta e Sete... tio, que faz tão tarde por aqui?

An Setenta e Sete não deu muita atenção a Han Hegu e respondeu friamente:

— Fui arrancar o mato na roça.

— Tirar o mato... que bom...

An Setenta e Sete até pensou em perguntar o que Han Hegu fazia ali tão tarde, mas resolveu que era melhor trocar poucas palavras com ele e seguiu seu caminho sem parar.

Han Hegu, por sua vez, nem ousou perguntar se Qiqige tinha voltado ou se estava atrás do pai; só restou continuar esperando, meio perdido.

...

An Setenta e Sete chegou em casa. A luz já estava acesa e a mesa do jantar posta, com todos os pratos servidos. Só então, ao começarem a comer, ele disse:

— Tinha mesmo um pouco de mato alto na roça, mas não era tanto assim. Amanhã, se eu levantar cedo, termino de limpar tudo.

Qiqige disse:

— Pai, amanhã eu vou com o senhor. Dois juntos sempre terminam mais rápido.

An Setenta e Sete sentou-se ao lado da esposa, An Xin, cruzando as pernas:

— Não precisa, já está quase pronto, só falta um pouco para acabar. Se eu conseguisse enxergar melhor, já teria terminado hoje. Ah, quando eu estava voltando, vi o tal Han Dadan, o filho deles, Han Hegu, andando à toa lá na curva do rio. Aquela terra não é da família Han, não é?