Capítulo 90: Consolando com Empatia

Há um Rio Meia-Lua na Estepe Pastor Lin Xi 2255 palavras 2026-03-04 20:14:39

Bao Qingshan assentiu.

— Na sua casa vocês não cultivam nem um pedacinho de terra?

— Não cultivamos. No nosso vilarejo até há algumas famílias que plantam, mas é só pasto para o gado.

— E você nunca trabalhou na lavoura? — perguntou novamente Yu Xiulan.

O rosto de Bao Qingshan corou instantaneamente. — Não, realmente não sei fazer esse tipo de trabalho, não é preguiça da minha parte. Desde pequeno… me desculpe…

Seu rosto ficou ainda mais vermelho. Ele queria dizer que nunca havia feito trabalho rural desde criança, mas se lembrou de que, na verdade, já tinha ajudado a família de Bao Dai algumas vezes. Não foram muitas, nem por muito tempo, mas já era alguma coisa, não podia mentir.

— Não tem por que pedir desculpas. Ninguém aqui em casa te culpa, você não precisa se preocupar. Só de você vir ajudar, já ficamos muito felizes.

Bao Qingshan sorriu timidamente. — Acho que só atrapalhei vocês.

Naquela primavera, Bao Qingshan foi praticamente empurrado para ajudar no plantio, mas, em vez de ser uma grande ajuda, acabou deixando a família Yu em apuros — afinal, nem tinham comida decente para oferecer ao futuro genro...

...

Entre as maiores faltas, a maior de todas é não deixar descendentes. O pensamento conservador de Bao Muren era profundamente arraigado. Por isso, a notícia de que Ulan Tuya não poderia mais ter filhos foi como uma tragédia para ele. Parecia um pintinho doente, sem ânimo nem mesmo para fingir indiferença.

Bao Bayin, claro, também estava triste, mas não tolerava a postura do filho. Achava que ele devia superar, não se deixar abater daquele jeito. Tentou aconselhá-lo duas vezes, mas os resultados foram pouco animadores. Então foi procurar An Setenta e Sete, pedindo que, se tivesse oportunidade, conversasse também com o filho.

A ocasião surgiu quando An Setenta e Sete “por acaso” encontrou Bao Muren enquanto este pastoreava ovelhas. Sentaram-se à margem do Rio Lua Crescente, em um local abrigado do vento e banhado de sol, e começaram a conversar.

A conversa realmente surtiu efeito. No rosto de Bao Muren, as nuvens começaram a se dissipar, e seu coração se abriu um pouco.

Na verdade, todos, não importa quem, nem importa a posição social ou a riqueza, carregam no peito o desejo de se comparar aos outros. Todos sabem que “quem se compara sempre sai perdendo”, mas é difícil resistir à comparação. Se alguém se sente superior, principalmente em relação aos que estão próximos, há uma alegria silenciosa, um orgulho que se manifesta sem querer. Se, ao contrário, sente-se inferior, especialmente frente a conhecidos, há uma inquietação, uma insatisfação constante. Por isso existem ditados como “quem se contenta é feliz” e aquela velha rima: “alguém monta a cavalo, eu vou de burro; no burro, não acho nada demais. Volto a cabeça, cabisbaixo, e vejo atrás um homem a pé carregando peso”. Não somos os melhores, mas também não estamos tão mal; ainda assim, poucos se conformam e, por isso, são raros os que vivem tranquilos e satisfeitos.

An Setenta e Sete conhecia bem essas verdades e, sem vergonha, expôs as próprias dificuldades, tentando consolar Bao Muren.

— Veja o caso da nossa Qiqige e do Yuan Zhenfu. Já estão casados há um bom tempo e, veja só, não tiveram nem filho, nem filha! Eu e sua tia estamos preocupadíssimos, mas não dizemos nada para eles. E você, ainda se sente insatisfeito? A Aruna, sua filha, é um encanto, todos adoram aquela menininha, tão viva e esperta...

An Setenta e Sete olhou para a correnteza do rio, o rosto carregado de tristeza, como se realmente sentisse o que dizia.

Bao Muren se sentiu um pouco melhor, mas logo retrucou: — Tio, eles não têm filhos, mas podem ter. É questão de tempo. O nosso caso é diferente, é muito mais grave.

An Setenta e Sete lançou-lhe um olhar, pensando: "Esse rapaz é tão teimoso quanto o pai, não cede nem um pouco". Mas, como estava ali a pedido de outro, precisava insistir, não podia desistir.

Vasculhou as palavras na cabeça e disse: — Muren, não pense que, por já ser pai, é velho. Você é jovem ainda. Não percebe que, na vida, quem nos acompanha por mais tempo não são os filhos, nem os pais, mas o cônjuge.

— É mesmo?

— Veja: os pais têm vinte e tantos anos a mais que você, te acompanham até certo ponto, mas um dia partem antes de nós. E os filhos? Quando chegam perto de você? E, depois, passarinho que aprende a voar não fica no ninho para sempre. Só o casal divide a mesa, a cama, o dia a dia. É com quem mais tempo se passa. Por isso, precisa cuidar desse relacionamento.

Palavras de ouro! Bao Muren ficou tão surpreso que quase arregalou os olhos. Nunca imaginou que o tio An, homem que mal sabia ler o próprio nome, pudesse dizer coisa tão profunda.

An Setenta e Sete sorriu amargamente. — Por isso, meu conselho é que você trate bem a Ulan Tuya. Senão, ela vai sofrer muito mais. Dou o exemplo da minha família: sabe por que Alaif, nosso filho caçula, é tão mais novo que Qiqige? Você sabe o motivo disso?

Bao Muren assentiu. — Sei sim. Tio, você sempre cuidou muito bem da minha tia.

— E podia ser diferente? Naquela época, a situação era tão difícil que, se quebrássemos um dente, tínhamos que engolir sozinhos. Mas acho que tocamos o coração do Céu Eterno, que nos concedeu outro filho. Assim, finalmente nossa família ganhou um novo broto. Acredite: quem faz o bem, recebe o bem; milagres acontecem...

...

Depois de conversar com An Setenta e Sete, Bao Muren refletiu longa e cuidadosamente, até entender de verdade. Ninguém teve culpa do que aconteceu, e não fazia sentido culpar Ulan Tuya, muito menos tratar a esposa com frieza. E então, sua mente se voltou para outro “grave” problema: como foi que a tia Shalina conseguiu, depois de tudo, ter o filho Alaif?

Foi perguntar à mãe.

Jiya bateu a mão na testa, emocionada: — Céus, como pude esquecer disso? Muren, nossa família ainda tem salvação! O Céu Eterno está nos protegendo!

— Mãe, o que foi?

— Meu filho, você fez bem em lembrar! Você era pequeno, não entendia, mas eu lembro: Shalina tomou um remédio receitado por um velho médico chinês, foram umas três ou quatro doses, e ela ficou curada. Deve ter ainda a receita guardada, vou pedir para ela agora mesmo...

...

Mas já se tinham passado uns dez anos, e a receita de Shalina estava desaparecida. Talvez tivesse ficado esquecida em algum canto, talvez se tivesse perdido, ou até sido comida pelos ratos...

Shalina revirou baús e gavetas, procurando em todo canto, mas nada encontrou. Pensando bem, disse: — Irmã, minha cabeça já não serve para nada. Onde foi parar aquela receita? Não consigo lembrar de jeito nenhum, acho que perdi mesmo.

Jiya, aflita, assistia à busca, e ao ouvir aquilo, sentiu como se um balde de água fria caísse sobre ela.

— Shalina, não pode ser! Aquilo era um verdadeiro tesouro, você não guardou com cuidado?

Jiya já não conseguia esconder no tom de voz o desânimo e a irritação diante da explicação da irmã.