Capítulo 91: A fórmula milagrosa foi perdida

Há um Rio Meia-Lua na Estepe Pastor Lin Xi 2328 palavras 2026-03-04 20:14:40

— Eu deixei com todo cuidado. Mas era só um pedacinho de papel, podia ter sido levado pelo vento, quem sabe — disse Salina, franzindo a testa.

Gia fez uma careta e retrucou:
— Salina, não vai me dizer que está com pena de me dar e quer guardar para tua filha Qiqige, né?

Salina não gostou do que ouviu e respondeu:
— Cunhada, que conversa é essa? Moramos tantos anos juntas aqui, ainda não conhece meu jeito? Mesmo que minha Qiqige precisasse, era só pedir para Zhenfu copiar outra. Eu não precisava agir desse jeito, como você está sugerindo.

— A gente só conhece o rosto, não conhece o coração — disparou Gia, provavelmente já sem paciência, soltando a frase sem pensar, o que acabou irritando Salina.

— Cunhada, quanto mais você fala, mais difícil fica de te ouvir. Com a relação entre nossas famílias, eu ia fazer uma coisa dessas, tão mesquinha? É só uma receita, não é nenhum tesouro valioso, por que eu teria apego? Minha Qiqige não precisa disso! Ela nem quer ter filhos, tem medo de atrapalhar o trabalho do Zhenfu! Se quisesse mesmo, já teria tido um monte, meninos e meninas, a casa estaria cheia de criança correndo por tudo!

A conversa foi esquentando, deixando as duas cada vez mais irritadas. Gia girou nos calcanhares, sacudiu a manga e foi embora. Salina, magoada, não a acompanhou até a porta, mas ficou resmungando por dentro:
— Mas que gente, viu? Vem pedir favor ainda com esse jeito arrogante. Não achei, mas se tivesse achado, também não dava! Todo meu carinho de antes foi jogado fora!

Qiqige, no quartinho, ouviu toda a discussão entre a mãe e Gia. Ficou sem graça de sair. Só quando viu Gia passar pelo portão, foi tentar consolar a mãe.

Anxin suspirou e comentou:
— Como é que as pessoas mudaram tanto assim?

Daquele dia em diante, Qiqige passou a ver a família Bao com outros olhos. Especialmente quando lembrava que Yuan Zhenfu já havia carregado Wulantuya nas costas, enfrentando vento e neve, sentia uma pontada de ciúmes — afinal, Yuan Zhenfu nunca me carregou, por que foi carregar outra mulher...

***

Cheia de esperança, Gia voltou de mãos vazias, irritada, e Bao Muren ficou desanimado.

Depois, com o coração mais calmo, Gia refletiu e até pensou que talvez Salina realmente não tivesse encontrado a receita. Admitiu para si mesma que, naquele dia, tinha passado dos limites.

***

Aruuna estava prestes a completar cem dias de vida. Segundo o costume mongol, esse marco é muito importante e deve ser celebrado com esmero. Assim, a família Bao convidou os parentes e amigos mais próximos para comemorar o “Centésimo Dia” da criança.

Para amenizar o mal-estar com Salina, Gia fez questão de ir pessoalmente convidá-la e, de modo indireto, expressou seu pedido de desculpas. Salina sorriu, não se aprofundou no assunto e foi junto com Gia. Qiqige, porém, não quis ir.

Naquele dia, Bao Daixiao, a tia mais velha, chegou bem cedo. Trouxe sua própria filha, Meihua, que também havia acabado de completar cem dias, colocou-a no kang e pediu para Wulantuya cuidar das duas. Depois, juntou-se ao grupo e, juntas, prepararam noventa e nove pãezinhos pequenos e um grande. Quando chegasse a hora, os cem pãezinhos deveriam ser todos consumidos na celebração.

***

Na cidade de Honglou, existe um costume entre o povo: depois que a criança passa dos “cem dias”, pode começar a sair de casa. E, especialmente após o centésimo dia de Aruuna, o tempo esquentou, o verão chegou, e era hora de visitar parentes e amigos.

Wulantuya sugeriu então levar Aruuna para conhecer a casa dos avós maternos. Gia concordou imediatamente e disse:
— Está mais do que na hora da Aruuna conhecer a casa da vovó. Envolva-a direitinho para o caminho. E, ela ainda é tão pequena, então quando passarem por rios e pontes, Muren, vocês dois devem chamar o nome dela em voz alta...

Bao Muren riu:
— Mãe, você está mesmo muito supersticiosa.

Gia lançou-lhe um olhar de reprovação, achando o filho inconveniente. Na verdade, ela concordou tão prontamente não só por ser natural querer visitar a casa dos avós, mas principalmente para que a nora pudesse passear um pouco e se alegrar.

— Muren, vamos ouvir tua mãe, ela está certa — disse Wulantuya.

— Minha nora é realmente muito melhor que esse Muren teimoso, que só sabe me contrariar, como se fosse rotina. Parece até que está doente, se não me responde à altura, nem dorme de noite — brincou Gia.

— Não, mãe, jamais faria isso. Você está depreciando seu filho! E ainda na frente da minha filha...

Ao terminar, Bao Muren fez graça para Aruuna, que respondeu com um sorriso bobo.

***

A filha e o genro, levando a neta mais velha, voltaram para casa dos avós. Para Bao Shitou e Tang Yuchun, era um acontecimento importante. E, como era a primeira vez da neta pisando na casa da avó, merecia destaque.

Mataram um carneiro! Prepararam um banquete! Comemoraram!

Na casa dos Bao, no vilarejo de Guilisigacha, nas estepes de Quebrachas do Pavão, a alegria era contagiante!

Tang Yuchun colocou antecipadamente no pescoço de Aruuna um fio simbólico, chamado “cordão do destino”, para proteger e desejar longa vida à criança. Ao cordão, prendeu moedas, uma forma de carinho dos avós.

Na primeira visita da sobrinha, o tio não podia faltar de jeito nenhum. Apesar de Bao Qingshan carregar muitos nós na alma, voltou apressado do pasto só para estar presente.

Criança de cem dias é sempre encantadora. Os olhos grandes de Aruuna, o rostinho rechonchudo, se distraía com qualquer brincadeira, sorria fácil, sacudia as mãozinhas, chutava os pezinhos.

Era a primeira vez que Bao Qingshan via a sobrinha. Não foi nem ao nascimento, nem ao primeiro mês. Na verdade, desde a longa viagem a galope em 1984, quando viu Bao Daixiao por instantes e voltou na mesma noite, nunca mais tinha ido à vila do Rio da Lua, que tantas vezes visitava em sonhos.

Vendo o irmão animado, Wulantuya brincou com a pequena Aruuna:
— Aruuna, pergunta para o tio quando é que ele vai trazer a tia Yuxiulan para cá, assim ela pode te dar um irmãozinho ou irmãzinha para brincar.

Bao Qingshan, ao ouvir isso, arregalou os olhos para Wulantuya e perguntou:
— Tu estás brincando com a criança ou zombando de mim?

Wulantuya se assustou e apressou-se a explicar:
— Irmão, não foi por mal, não quis dizer nada demais, de verdade.

— Humpf!

Bao Qingshan devolveu Aruuna para Wulantuya e saiu de casa.

Bao Muren ficou parado, sem saber o que fazer...

Bao Shitou gritou:
— Bao Qingshan, volta aqui! Que sujeito cabeça-dura, não entende nem o que é para rir ou chorar!

Tang Yuchun: — Shitou, para com isso, vai acabar assustando a menina!

Na hora do almoço, Bao Qingshan ainda não tinha voltado. Como podia ficar tão ofendido? Talvez tenha saído de propósito, procurando uma desculpa para se afastar.

***

A primavera deu lugar ao verão, o tempo esquentava aos poucos, e as pessoas iam deixando de lado as roupas grossas de algodão.

Ao norte da cidade de Honglou, havia uma colina onde construíram um parque. Nos declives, álamos lançavam suas folhas novas, e os ramos flexíveis dos salgueiros dançavam ao vento. No lago, pequenos barcos iam e vinham, os remos batendo na água compunham uma melodia agradável.

Meng Guozhong remava, enquanto Liu Ping, sentada à sua frente, saboreava devagarinho um picolé, sorrindo com o rosto iluminado pela brisa primaveril.

— Liu Ping, o trabalho ainda está tão corrido assim? — perguntou Meng Guozhong.

Liu Ping ajeitou o cabelo e respondeu:
— Continua como antes. Para quem entrou faz só dois anos, como eu, tem que pegar todo tipo de serviço.

Meng Guozhong: — Ainda somos jovens, quanto mais fizermos, mais vamos crescer.