Capítulo 100: Tocar no Calo Errado
Giá discretamente falou com a filha Bao Daixiao, pedindo para que ela prestasse mais atenção em Tian Xinghua, para ver se ela tinha um pequeno caderninho para anotar contas. Bao Daixiao insistiu várias vezes até que Giá contou a verdade e a advertiu para não contar a ninguém. Bao Daixiao ficou bastante surpresa, pois sabia que aquele caderno representava a honra e até a vida do pai. Ela concordou repetidamente, mas durante a investigação secreta que se seguiu, não encontrou nenhuma pista valiosa.
Com o passar do tempo, o assunto foi se tornando menos importante, mas Bao Bayin não conseguia esquecer...
Algumas coisas se sedimentam lentamente, outras fermentam silenciosamente.
Yuan Zhenfu raramente usava o domingo de folga para ajudar Qiqige no campo. Embora fosse meio desajeitado, se esforçava muito, e o suor escorria pelo pescoço.
Qiqige disse: “Se cansar, descanse um pouco. Esse trabalho não se faz em um dia só. Se não, à noite você vai reclamar de dores nas costas e no corpo.”
Yuan Zhenfu endireitou as costas, enxugou o suor e de repente começou a rir.
“Por que está rindo?”
“Estou rindo... estou rindo do Alef.”
Qiqige parou e perguntou: “O que ele fez de novo? Fez alguma besteira?”
Yuan Zhenfu bateu nas costas com a mão e respondeu: “Nada. De repente lembrei da época em que comecei a dar aula na Escola Primária do Rio Lua Crescente, ensinando o Alef. Uma vez, quando ensinava o poema clássico ‘Arar o Milho’ – aquele que diz ‘Arar o milho ao meio-dia, suor pinga na terra sob a planta’...”
Qiqige riu e disse: “Hoje você também suou como diz o poema, né?”
“Sim. Senão, como eu lembraria disso? Naquela época, eu disse que era um ‘poema da Dinastia Tang’. Adivinha o que o Alef me perguntou?”
Qiqige balançou a cabeça, seu longo rabo de cavalo tocando o pescoço, também suando. Depois, ela jogou o cabelo para trás e balançou a cabeça naturalmente, uma série de gestos que deixaram Yuan Zhenfu admirado.
Qiqige: “Fala logo, por que está me olhando assim, bobo?”
“Qiqige...” Yuan Zhenfu suavizou a voz.
“Hum?”
“Você é realmente bonita.”
Qiqige ficou tímida, corou e o olhou de soslaio: “Depois de todos esses anos, ainda não cansou de olhar? Chega, conta logo o que o Alef perguntou, eu não faço ideia.”
Yuan Zhenfu: “Na aula, eu disse que era um ‘poema da Dinastia Tang’, mas ele ouviu ‘comer açúcar’ e perguntou se era doce. Você vê como o Alef é engraçado?”
“É porque, né, seu cunhado veio de uma família pobre, quase nunca comia doce, ficava com vontade.” Qiqige guardou o sorriso, seu humor ficou complicado.
Yuan Zhenfu ficou preocupado e se apressou a explicar: “Qiqige, não fique brava, não quis zombar, só achei engraçado o jeito que o Alef interrompeu.”
Qiqige sacudiu o cabelo e disse: “Não estou brava, não sou tão pequena para isso. Naquela época, nossa vida era bem mais difícil do que agora. Nem pensar em comer doce, às vezes mal havia sal para temperar. Na primavera, para fazer molho, e no outono, para conservar legumes, tinha que comprar fiado. O armazém só dava fiado com muita conversa e favor. Ah, naquela época não tinha dinheiro sobrando para comprar doces para o Alef.”
Yuan Zhenfu olhou para o horizonte e disse: “Passamos por dificuldades para termos dias doces no futuro.”
“Já chega, falando assim me dá até aflição. Sabe, naquela época, quem na nossa Lua Crescente não tinha pelo menos um doce para as crianças?” Qiqige falou sorrindo para Yuan Zhenfu.
“Quem? O chefe do grupo? O subchefe? Ou os professores da escola?”
“Nenhum deles. Aposto que, se eu não te contar, você passaria o dia inteiro tentando adivinhar.”
Yuan Zhenfu: “Conta logo, de quem era?”
Qiqige: “Da família de Han Dadan. Surpreso?”
“Han Dadan? Você quer dizer Han Heihu?”
“E também Han Heilong, ele ainda estava vivo naquela época.”
Yuan Zhenfu ficou intrigado: “A família do velho Han? Eu já fui lá, não parecia rica.”
“Os adultos da família Han sempre mimaram as crianças, especialmente Tong Yuwan, que era protetora. Eles davam tudo o que as crianças queriam. Naquela época, só as duas crianças da família dele tinham doces no bolso e ainda mastigavam os balas.”
Yuan Zhenfu: “Mastigavam? Isso... qualquer um mastiga, né?”
“As outras crianças não queriam. Elas preferiam chupar o doce devagar, quase querendo que durasse um dia inteiro para aproveitar.”
Yuan Zhenfu: “Entendo. Amar as crianças é natural, todo pai quer o melhor. Mas mimar tanto assim não é bom.”
Qiqige: “Quando Han Heilong teve problemas, eu já achava que era por causa de terem mimado demais as crianças.”
“Qiqige, quando tivermos filhos, não vamos mimá-los assim, vamos educá-los direito...”
“Ah, para com isso! Sempre falando das coisas erradas. Você está cansando de mim?”
Yuan Zhenfu percebeu que a conversa estava ficando tensa e disse depressa: “Deixa pra lá, deixa pra lá, papo furado atrapalha o trabalho. Vamos logo, o sol já está se pondo...”
Qiqige não quis cansar Yuan Zhenfu, que não estava acostumado com trabalho rural, então, quando o sol estava quase se pondo atrás da montanha, eles decidiram encerrar o dia. Caminhando lado a lado, avistaram de longe a escola primária do Rio Lua Crescente, e Qiqige sorriu de repente.
“Por que está sorrindo assim? Lembrou de alguma coisa boa?” Yuan Zhenfu virou a cabeça e perguntou.
Qiqige parou e olhou para o pátio da escola ao pôr do sol: “Você se lembra? Uma vez eu e minha mãe voltávamos da beira do rio, você estava na escola, acenou de longe para mim. Ainda bem que minha mãe não viu, senão ela teria brigado comigo.”
Yuan Zhenfu ficou confuso, tentou lembrar, mas não teve nenhuma recordação e perguntou: “Quando foi isso?”
“Foi depois daquele encontro que tivemos, que o Alef atrapalhou — acho que no ano seguinte, minha mãe insistiu que eu fosse para outro vilarejo arranjar namorado, e quando voltamos...”
“Como assim? Depois do nosso encontro você foi arranjar namorado com outro?”
“Sim, eu não podia evitar, minha mãe me obrigou...”
Antes que Qiqige terminasse, Yuan Zhenfu deu um passo largo à frente e caminhou rápido em direção à curva do rio, desaparecendo antes que Qiqige pudesse ver suas costas.
Yuan Zhenfu ficou com ciúmes, tão amargo que parecia dor nos dentes. Ficou vários dias sem falar com Qiqige.
Qiqige também ficou teimosa e pensou: “Ele ainda me critica? Ele foi buscar a nora de Bao Murén, Ulan Tuya, que tinha acabado de ter um filho. E eu, o que disse? Nada. Por que ele sempre tem que ser assim?”
Na verdade, naquela vez em que Qiqige e sua mãe passaram perto da escola, Yuan Zhenfu nem a viu; ele estava chamando os alunos e Qiqige entendeu mal. Essa simples confusão acabou gerando um mal-entendido.
Yuan Zhenfu e Qiqige ficaram em um impasse por vários dias, deixando Shalina e An Qishiqi desesperados, pois não conseguiam arrancar nada da nora.
Sem aguentar mais, Shalina e An Qishiqi pediram ajuda a Sun Dehou e Liu Guang para mediar a situação. Depois que a “aliança Sun-Liu” interveio, o conflito entre Yuan e An foi finalmente resolvido...