Capítulo 19: O Apelido do Mundo dos Guerreiros Faz Jus à Sua Fama
Enquanto An Setenta e Sete conduzia Ba Yin até o curral das ovelhas, foi dizendo:
— Não me elogie, não. Basta falar em criar ovelhas que minha cabeça dói, já tive prejuízos antes.
Ba Yin olhou de relance, virou-se e perguntou, desconfiado:
— Irmão, isto são ovelhas? Estão tão magras que parecem macacos. Se você treinasse, dava até para sair por aí fazendo espetáculo de macacos.
Setenta e Sete riu, deixando de lado qualquer preocupação com sua reputação, e perguntou:
— Mas me diga, que coisa estranha: por que as ovelhas emagrecem quando ficam comigo?
— Como você alimenta elas?
— Todos os dias levo até a margem do rio Lua Crescente para pastar.
— Estou perguntando como alimenta, não onde pastoreia.
— Alimentar? Que alimentar?
— Dá ração?
— Ração? Que ração?
— Você não sabe de nada, nem um santo pode ajudar.
Ba Yin pegou seu cachimbo seco, tentou enchê-lo de novo, mas desistiu e disse:
— Veja, nesta época do ano, quando as pastagens estão entre o verde e o seco, as ovelhas só mastigam brotos de grama, não conseguem se saciar. Principalmente as fêmeas com filhotes, precisam de ração extra, mais nutrientes.
Enquanto Ba Yin falava, Salina aproximou-se discretamente do curral. Ba Yin a viu, acenou com a cabeça e continuou:
— Criar ovelhas é fácil no inverno, mas difícil na primavera. Os velhos, fracos, doentes ou inválidos precisam de ração extra antes do início da primavera, para reforçar o vigor, senão não aguentam a estação. Todas as suas ovelhas precisam de ração, se não, dê duas vezes ao dia, manhã e noite. Caso contrário, para ser franco, vão acabar morrendo.
Setenta e Sete finalmente entendeu.
Salina correu para o armazém, pegou um pouco de milho com uma concha feita de cabaça, Ba Yin olhou e disse:
— Esse milho murcho serve. Hoje dê pouco, amanhã, quando tiver tempo, moa no moinho, não precisa ser muito, basta quebrar em dois. Melhor ainda se cozinhar, assim até as ovelhas velhas digerem melhor, absorvem mais rápido. Não se preocupe, siga como eu disse, logo elas vão se recuperar. Não economize no milho!
Setenta e Sete riu:
— Não vou economizar. Já fiz as contas, uma ovelha perdida custa muito milho.
— Hmpf, você só calcula o grosso, mas esquece os detalhes — reclamou Salina.
Setenta e Sete não respondeu, já estava acostumado com esse tipo de troca entre marido e mulher. Para sua surpresa, Ba Yin ficou com o semblante sério, apressou-se a pegar o cachimbo, pois em casa Gia sempre dizia isso para ele.
Ba Yin fumou um pouco e disse:
— Ah, Salina, quando cozinhar o milho moído, lembre-se de adicionar um pouco de sal de pastagem.
Salina respondeu:
— Sei sim. Não temos experiência nenhuma em criar ovelhas, estamos aprendendo na prática, mas Setenta e Sete não gosta de perguntar. Eu já disse que seria bom suplementar com milho, ele respondeu: “Nem nós temos o suficiente para comer, como dar para os animais?” Dá para se irritar, não dá? Ba Yin, hoje graças a você, não sabemos como agradecer.
— Não há o que agradecer. Sei que Setenta e Sete é como eu, gosta de manter as aparências, quer resolver tudo sozinho, só fala, mas guarda tudo para si. Setenta e Sete, se não souber algo, pergunte para mim, vou te ajudar. Pronto, vou indo.
Setenta e Sete insistiu:
— Ba Yin, toma um copo d’água antes de ir, acabei de ferver.
Ba Yin recusou:
— Não, obrigado. Quando suas ovelhas estiverem gordas e fortes, em rebanho, volto para comer carne quando você abater uma.
Setenta e Sete garantiu:
— Vai ser fácil.
Sem esforço, não há recompensa; quem não investe, não vê resultado — e não é mentira. Seguindo os conselhos de Ba Yin, Setenta e Sete começou a alimentar as ovelhas e elas realmente ficaram mais robustas. Quando a grama já era suficiente para saciar, todo o rebanho estava saudável e vistoso...
...
Com mais ânimo, os dias pareciam passar rápido. Num piscar de olhos, era verão, as plantações verdejavam, crescendo vigorosamente. A grama estava alta, as ovelhas podiam comer à vontade, mas, curiosamente, as do Setenta e Sete estavam menos gordas do que antes. Por quê? É que ele dedicou toda sua atenção à terra, descuidando das ovelhas, cometendo novamente o erro de “só calcular o grosso, não os detalhes”, como Salina dizia.
Não era só Setenta e Sete: todo o povo do grupo da Lua Crescente estava empenhado na terra. Não era como antigamente, quando o trabalho era concentrado em grandes mutirões do time de produção; agora, cada família se dedicava ao próprio pedaço de terra com energia de sobra.
O sol estava a pino, depois do meio-dia, mas ainda havia gente que se recusava a parar, enfrentando o calor escaldante para capinar e arrancar ervas daninhas. Todos esperavam um ano bom, com clima favorável e trabalho árduo, para uma colheita farta — não só para ter comida suficiente, mas também para, após entregar a quota obrigatória, sobrar cereais para trocar por algum dinheiro.
Com a reforma da política da terra, bons tempos estavam cada vez mais próximos dos camponeses.
Os três irmãos da família Tong vinham de longe com enxadas no ombro, conversando e rindo enquanto iam almoçar em casa.
Todos já passavam dos trinta, considerados figuras notáveis na Lua Crescente, porque sabiam abater porcos e ovelhas — habilidade aprendida com o pai. Houve uma época em que era proibido criar animais domésticos, e a habilidade dos irmãos era vista como “arte inútil”. Agora, com a política aberta, finalmente tinham onde aplicar seus talentos e andavam com passos largos e confiantes.
Claro, “açougueiros” era só um dos aspectos da fama dos três irmãos; o principal era cada um ter um apelido, talvez não tão célebre quanto o “Dicionário Vivo”, mas certamente conhecidos por todos na Lua Crescente. O problema é que tinham temperamento difícil, eram egoístas e interesseiros, por isso poucos os chamavam pelos apelidos, pois se irritavam facilmente e não hesitavam em insultar quem os contrariasse. Assim, criou-se o consenso: evitar chamar os apelidos na frente deles, para não levar bronca.
Quais são esses apelidos famosos?
O mais velho, Tong Wei Shan, era chamado de “Cogumelo Grande” — porque fazia tudo devagar, arrastando, mas não era preguiçoso, havia diferença fundamental.
O segundo, Tong Wei Si, era chamado de “Doido Dois” — porque tinha um jeito esquisito, pensamentos que não pareciam de uma pessoa normal, mas diferente do alegre e louco Xi Zi.
O terceiro, Tong Wei Qi, era conhecido como “Tagarela Três” — pois estava sempre reclamando e falando demais, considerado por muitos “menos eficiente que uma boa dona de casa”.
Cogumelo Grande, Doido Dois, Tagarela Três — apelidos depreciativos, nenhum deles gostava de ouvir. Por isso, raramente eram chamados assim na frente, mas pelas costas era frequente.
Os três irmãos andavam devagar, sem pressa alguma.
Wang Shou Hui, que estava na beirada do campo, usando o chapéu como leque, viu os irmãos e animou-se, chamando:
— Terminaram de capinar a terra, amigos?
Tong Wei Shan respondeu:
— Não, à tarde voltamos.
— Com esse ritmo, vão terminar só no outono!
— Desde que o serrote funcione, sempre sai pó, o carrinho não cai, empurre em frente. Melhor que alguns que pescam três dias e descansam dois — não, você pesca três dias e descansa cinco, não é? Não é verdade, “Mãos Rápidas Wang”?
“Mãos Rápidas Wang” era o apelido de Wang Shou Hui, dado por uma celebridade. “Hui” é polissilábico, também pode significar “rápido”, como em “contador”. O “Dicionário Vivo” Ge Gen explicou: Wang Shou Hui, invertendo, vira “Hui Shou Wang”, e como ele gostava de apostar e era habilidoso, merecia o apelido “Mãos Rápidas Wang”.
Diferente dos irmãos Tong, Wang Shou Hui fingia não gostar do apelido, mas na verdade o apreciava, pensando: quanto mais rápido, melhor, pois assim poderia trapacear nos jogos de cartas.
Wang Shou Hui riu e disse a Tong Wei Shan:
— Você já disse tudo, sobrou o quê para eu falar?
Tong Wei Shan parou e disse:
— Acho que você trabalha mais do que quando estava no time de produção. Todos sabem que “Mãos Rápidas Wang” gosta de trapacear, mas também sabemos que você é mestre em fingir preguiça...
— Por mais preguiçoso que eu seja, nunca vou superar Wu Ren Qing. Esse sim é preguiçoso de verdade, três gerações sem sair do berço da avó, é genético.
Ao ouvir isso, o rosto dos três irmãos Tong passou de ensolarado a nublado...