Capítulo 77: A Fofoqueira Que Não Se Deve Provocar
— Você está se fazendo de desentendida! — respondeu Ana Setenta e Sete.
— Basta você abrir a boca, que tudo muda de sentido! Eu só estava me fazendo de boba, não é porque quero arranjar um partido melhor para nossa filha? — Salina estava tão irritada que quase ria.
Ana Setenta e Sete pensou: "Será que existe alguém melhor, com três cabeças e seis braços? Acho que esse Jovem Ivo Bento é realmente muito bom, trabalhador e sem grandes amarras. Nossa Quetiqui, ficando com ele, não vai sair perdendo."
Salina respondeu: "Se vai sair perdendo ou não, só Deus sabe. Ai, esse é o destino. Já não tenho mais forças para lutar, nem coragem, então deixo por conta de vocês."
Quetiqui cobriu a boca para rir, mas lágrimas escorriam pelo rosto.
Dona Ana Sinhá foi juntando pedaço por pedaço da conversa do filho e da nora, até que entendeu tudo. Sorriu satisfeita: desde que a neta arranjasse um bom partido e formasse família, ela conseguiria ver, em vida, a família Ana reunida em quatro gerações sob o mesmo teto.
...
O carneiro reprodutor da "Ovelha de Lã Fina das Estepes", da família Balbino, depois de muitas idas e vindas, acabou voltando para a casa do genro, Quim Belo, que agora, em nome da mãe, Dona Tiana Flor, ficou responsável por cuidar do animal. As famílias Balbino e Belo firmaram um acordo detalhado de divisão dos lucros, de modo que ambos saíssem beneficiados. Embora o carneiro fosse compartilhado, o negócio de "melhoria genética por cruzamentos" não estava rendendo tanto quanto Balbino havia imaginado.
Para manter o carneiro bem alimentado, ainda era preciso suplementar a ração com milho. Quim Belo podia fornecer o trabalho, mas o milho, que representava um prejuízo, a família Belo não arcaria — Dona Tiana Flor já deixara isso claro: caberia a Balbino trazer. Quim Belo obedecia à mãe sem questionar.
O último saco de milho trazido pela família Balbino já tinha acabado. Quim Belo não ousava ir até a casa do sogro pedir mais, então mandou a esposa, Dalva Pequena, resolver isso.
Curiosamente, Dalva Pequena também nunca contrariava o marido. Levantou-se cedo, lavou-se, preparou o café e deixou aquecido no fogão. Aproveitou o intervalo e foi até a casa dos pais.
Quando entrou na cozinha, viu a mãe, Guiomar, atarefada preparando o almoço, e achou estranho. Saiu e deu uma olhada no quartinho do irmão e da cunhada — porta fechada, cortinas baixadas — e logo se sentiu incomodada.
Guiomar, ao ver a filha chegar tão cedo e com expressão contrariada, apressou-se em perguntar:
— Dalva, o que foi?
Dalva Pequena respondeu:
— Nada... é só que...
— Se tem algo, fale logo, por que esse rodeio todo com a mãe?
Dalva Pequena sorriu sem graça e disse:
— Mãe, só vim avisar você e o pai que o milho para as ovelhas acabou...
— Ora, pensei que fosse coisa séria! Não precisa falar com seu pai, o que é nosso, é nosso. Ajude-me a encher um saco de milho, assim que Murilo acordar, ele leva lá pra vocês — respondeu Guiomar, indo em direção ao depósito.
Dalva Pequena foi atrás e não resistiu em perguntar:
— Mãe, e a Tuíra? Foi para o campo ou voltou para os pais?
— Está dormindo ainda, não acordou — respondeu Guiomar, distraída.
Dalva Pequena, sempre tão dócil quanto um cordeiro, não conseguiu conter o incômodo:
— Como é? Ela ainda está dormindo, deixando a senhora, sogra, levantar-se para fazer o almoço? Que tipo de nora faz isso?
Guiomar percebeu que não deveria ter comentado com a filha, nem que fosse com uma mentira. Tentou remediar:
— Dalva, não é bem assim...
Dalva Pequena nunca foi de se irritar facilmente, era até considerada uma pessoa sem pavio curto. Mas, para com os pais, era devota; diante daquela situação, sentiu que precisava agir.
Sentindo que a mãe estava sendo injustiçada, Dalva Pequena não esperou explicações. Saiu e bateu forte à porta do irmão, gritando:
— Murilo, você não vai levantar para fazer o almoço? Vai deixar os mais velhos servirem os mais novos?
Guiomar tentou impedir, mas não conseguiu.
Dalva Pequena, depois de gritar, saiu sem olhar para trás.
Murilo e Ula Tuíra acordaram assustados, olhando-se sem saber o que fazer...
Guiomar, já no quintal, gritava:
— Dalva, Dalva, não vá embora assim...
Dalva Pequena não deu ouvidos, retornando para casa furiosa.
Na verdade, ela não tinha mesmo como ficar; depois de estourar assim, não saberia como encarar o irmão e a cunhada.
...
Quim Belo jamais tinha visto Dalva Pequena irritada. Sempre imaginou que ela nem soubesse brigar. Vendo-a assim, pensou que algo muito sério havia acontecido, e rapidamente perguntou:
— O que houve? Foi repreendida? Não deram o milho?
Dona Tiana Flor percebeu que a nora voltou emburrada. Quando Dalva entrou em seu quarto, ela se aproximou para escutar. Quando Quim Belo falou em "não deram o milho", quase interveio.
Dalva Pequena, batendo a mão na beira da cama, disse:
— Quim Belo, me diga, que absurdo é esse? De manhã Ula Tuíra dormindo à toa, minha mãe levantando para fazer comida, servindo dentro e fora de casa! Que tipo de nora é essa? A família Balbino não ganhou uma "sogra" como nora?
Quim Belo riu:
— Isso? Agora você é da família Belo, não precisa se envolver nos assuntos da outra casa. Além disso, como cunhada mais velha, não é bom se meter tanto, não acha?
Dalva Pequena enxugou as lágrimas:
— Que outra casa? Como pode separar assim? Aquela não é minha mãe? Se não fosse meu pai e minha mãe, onde você iria arrumar esposa?
Quim Belo logo pediu desculpas:
— Está bem, Dalva, você está certa. Venha comer, aproveite o frescor da manhã para trabalhar mais no campo. Quem sabe este ano ganhamos o prêmio de produção.
...
O diálogo entre Dalva Pequena e Quim Belo foi ouvido palavra por palavra por Dona Tiana Flor. Em seu íntimo, ela pensava: "Chegou a hora de Balbino e Guiomar serem postos em seu lugar! Fizeram aquele casamento todo pomposo, querendo mostrar superioridade, fazendo nossa família parecer nada. Agora, estão pagando o preço, a nora vai dar trabalho!"
No fim da tarde, sem ter o que fazer, Dona Tiana Flor comentou "sem querer" a história com as vizinhas. E foi o suficiente para virar um rebuliço: algumas fofoqueiras logo espalharam o caso por todo o povoado do Rio Meia Lua — que Ula Tuíra passava a manhã deitada, enquanto Guiomar se levantava esbaforida para preparar o café, que a família Balbino havia trazido uma "senhorinha" como nora. E mais! Sogra e nora viviam brigando, uma pequena discussão a cada três dias, um grande barraco a cada cinco, dois dias sem briga eram três de cara amarrada...
Ninguém parou para pensar na real relação entre "Ula Tuíra dormir até tarde" e "desavenças entre sogra e nora", se era uma consequência ou só coincidência. No mundo das fofoqueiras, nada disso importava: com sua especial sensibilidade e jeito próprio de interpretar fatos, captaram o "núcleo" da história e, ao repassá-la, aumentaram ainda mais, inventando detalhes:
Algumas diziam que Guiomar fazia o almoço chorando, lágrimas caindo na panela; outras, que Ula Tuíra só se levantava se tivesse algo especial preparado para ela, e que, mesmo não sendo grande coisa como pessoa, queria aprender com o "dicionário vivo". Havia ainda quem afirmasse que a sogra, além de preparar o café cedo, ainda esquentava água para a nora lavar os pés à noite, afinal, a família Balbino era rica. Toda a família vivia mimada, principalmente aquele Balbino Júnior, que queria enganar Dalva Pequena, mas no fim...