Capítulo 68 - O álcool aprofunda a dor no coração atormentado

Há um Rio Meia-Lua na Estepe Pastor Lin Xi 2251 palavras 2026-03-04 20:13:56

— Então, quanto sobrou? Dá para quitar as dívidas? — Gia não esperava arrecadar muito com os presentes, bastava conseguir pagar o que haviam emprestado; o resto pouco lhe importava. Esse era seu limite.

Baobain não respondeu de imediato, a testa franzida, tragando o cachimbo com força. Gia, ao ver seu semblante, entendeu e disse, irritada:

— Para de fumar! Bem feito se isso te matasse! Faz logo as contas, afinal, quanto falta?

Baobain finalmente largou o cachimbo, bateu-o para tirar a cinza e murmurou:

— Chega desse assunto.

Gia, com os olhos marejados, respondeu:

— O rombo é grande, não é? Todo dia essa história de aparência, de manter as aparências... Quanto vale esse orgulho? É trocar um melão por um caroço de milho!

Baobain, vaidoso, insistira em fazer uma grande celebração. De fato, organizara o banquete mais marcante de Vila do Rio da Lua, mas nem todos os presentes cobriam as despesas da festa, que dirá o tradicional “três toques e uma volta” — a poupança da família Baobain ficou reduzida a pó...

...

O amado já estava casado, a irmã realizara o sonho de casar-se. O coração de Bao Qingshan tornara-se gélido — o sentimento por Bao Daixiao chegara ao fim.

No último ano, principalmente nesse período, Bao Qingshan vivia mergulhado em dor e conflito. Como irmão, desejava que a irmã se casasse bem, com alguém que realmente a amasse. Baomu Ren era, de fato, a melhor escolha. No entanto, por causa de uma decisão “precipitada” dos pais, tomada depois de uns tragos, ele e Bao Daixiao só podiam “seguir a tradição” e tomar rumos diferentes...

Bao Qingshan se “trancou” no posto de pastoreio, convivendo apenas com os mudos animais, quase sem trocar uma palavra de manhã à noite. Passava longos momentos deitado do lado de fora da tenda, olhando o céu azul e as nuvens de dia, a lua e as estrelas à noite...

Assim que passou a euforia do casamento de Ulan Tuya, Tang Yuchun voltou a se preocupar com o filho Bao Qingshan. Embora ele já tivesse dito claramente que aceitava que a família o ajudasse a procurar uma pretendente, afinal, que tipo de mulher ele queria? Tinha de haver um critério, ao menos que fosse melhor que Bao Daixiao, não?

Por causa disso, Tang Yuchun e Bao Shitou foram até a tenda do pasto para conversar com o filho.

Naquela noite, Tang Yuchun preparou dois bons pratos. Sob a luz fraca de um lampião, os três se sentaram juntos para comer e conversar. Claro, quem falava eram quase sempre Bao Shitou e Tang Yuchun; Bao Qingshan mal tocava os hashis, muito menos respondia, só erguia o copo para beber, uma vez após a outra.

Cada um com seus próprios pensamentos, afogados em mágoas, pai e filho acabaram bebendo além da conta. De repente, Bao Qingshan desatou a chorar alto.

Tang Yuchun abraçou o filho pelos ombros, chorando junto. Bao Shitou, à parte, apenas bebia grandes goles, calado.

— Chore, ponha tudo para fora. Qualquer mágoa, conte para seus pais — o peito de um mongol suporta até um cavalo selado!

Tang Yuchun disse:

— Filho, sabemos do seu sofrimento, mas... há coisas que não se pode mudar. Você precisa aceitar.

— Mãe, eu não consigo esquecer Bao Daixiao...

Bao Qingshan chorou ainda mais.

Bao Shitou esvaziou o copo de uma vez, depois ficou girando-o nas mãos e disse:

— Qingshan, você é leal e honesto, não é desses que mudam de ideia por qualquer razão. Admiro isso em você. Mas tem uma coisa que precisa entender: sabendo que é impossível, insistir só te faz sofrer, a você e a nós! O “Grande Cachimbo Bao” é teimoso, obcecado com a própria imagem, quem pode com ele?

Tang Yuchun arregalou os olhos e gritou:

— Bao Shitou, você por acaso tem coração de pedra mesmo? Qingshan está desse jeito e você ainda fala essas coisas para provocá-lo?

Bao Shitou bateu o copo na mesa, fez cara feia e disse:

— Tang Yuchun, e o que quer que eu faça? Ficar mimando como quando era criança? Comprar doces, brinquedos, pão doce? Ele já não tem mais seis ou sete anos! Não podemos mais enganá-lo com palavras! Algumas coisas doem de ouvir, mas depois da dor, o coração sara!

Tang Yuchun se calou.

— Bao Qingshan! Se você é mesmo homem, levante-se! Quando é hora de deixar ir, tem de deixar! Um homem mongol não pode se deixar menosprezar! Hoje, eu, seu pai, posso beber com você, só para que tire essa mágoa do peito. Mas não é para ficar se afogando em álcool cada vez que estiver triste, porque aí a bebida vira veneno! Entendeu? Levante a cabeça!

Bao Qingshan ergueu o rosto, marcado de lágrimas.

— Bao Qingshan! Se eu te vir chorando desse jeito de novo, nem eu vou te respeitar! Se não quer morrer, então viva direito!

Terminando, Bao Shitou jogou o copo na mesa e saiu da tenda.

...

O vento noturno nas estepes era realmente muito fresco. Bao Shitou fechou os olhos por um momento, depois abriu devagar. Ao longe, os montes formavam silhuetas escuras e ondulantes; a lua era apenas um arco, e o céu repleto de estrelas cintilantes...

Lá de dentro, Bao Qingshan gritou:

— Pai, arranje logo alguém para me apresentar! Não tenho exigências, só quero que seja uma boa pessoa! Porque, no mundo, não existe — não existe uma segunda Bao Daixiao...

— Filho, prometo que vou te arranjar uma mulher melhor que aquela Bao Daixiao de Vila do Rio da Lua, dez vezes melhor...

— Não fale o nome dela...

Bao Qingshan voltou a chorar alto.

Bao Shitou mordeu os lábios. Ainda agora dizia ao filho para não chorar, mas ele mesmo não conseguiu segurar as lágrimas. Gritava por dentro: Bao Shitou, Bao Shitou, você falhou com seu próprio filho!

...

De volta do pasto para casa, Bao Shitou e Tang Yuchun começaram logo a pedir ajuda a conhecidos, não poupando esforços nem presentes. Dias depois, uma casamenteira dedicada encontrou uma moça bastante adequada.

No dia do encontro, Bao Qingshan forçava um sorriso no rosto. A pretendente era do vilarejo Hexing, município de Taihe, condado de Chunzhu, uma região agrícola, onde o cultivo era o sustento principal. A família vivia modestamente, conseguindo apenas garantir o básico.

A moça chamava-se Yu Xiulan, de etnia han, 25 anos, mesma idade de Bao Qingshan, mas dois meses mais velha. Era uma jovem de feições honestas e agradáveis, corpo forte, claramente a principal força de trabalho da casa.

Numa vila rural, uma moça dessa idade ainda solteira era considerada uma “velha solteirona” em sério atraso. Não era por falta de qualidades, mas pelos encargos familiares — irmãos mais novos, se ela se casasse cedo, faltaria braço forte em casa para dar conta das lidas. Por isso, foi adiando, adiando, até que a idade chegou onde estava.

Yu Xiulan não viu defeitos em Bao Qingshan; a primeira impressão foi de que ele era sincero, trabalhador, alguém para se construir uma vida. Gostou ainda mais da família: só o rebanho de ovelhas do posto de pastoreio deles já quase igualava o total criado por toda a vila de Hexing — eram quase “ricos como um vilarejo inteiro”. Para os pais de Yu Xiulan, ver a filha mais velha casar-se com uma família dessas era sorte grande, motivo de risos até durante o sono...