Capítulo 2: A pobreza é uma ferida (parte 2)
Alaif tentava rebater com todas as forças, seu objetivo era defender a dignidade de seu “pequeno homem”.
“Tá bom, tá bom, se não fez xixi, não fez. Pra que chorar? Homem que é homem! Vamos, procurar seu sapato. Senão você vai ter que voltar descalço pra casa e aí vai levar uma boa bronca!”, disse Li Sanfu, rindo enquanto passava o braço pelos ombros de Alaif e seguia adiante com ele.
“Bela fala, concordo plenamente!”, respondeu Alaif, surpreso pela consideração de Li Sanfu, e seu rosto logo se iluminou. Soltou uma frase que aprendera ouvindo histórias contadas.
Algumas crianças da vila, ao saberem que Alaif e Li Sanfu haviam sido “perseguidos” por Xizi, o valentão que ninguém ousava enfrentar, correram para assistir ao tumulto. Alguém até encontrou o par de sapatos que Alaif perdera na correria e, gentilmente, levou-os de volta.
No momento em que Alaif estendeu a mão para pegar os sapatos, Li Sanfu, ágil como sempre, avançou por trás e puxou as calças de Alaif, que não tinham cinto, só um elástico frouxo…
“Li Sanfu, você não presta, seu canalha!”
A partir desse dia, a história de Alaif, que já tinha sete ou oito anos e ainda não usava cueca, espalhou-se rapidamente.
Naquela ocasião, Alaif e Li Sanfu tiveram uma briga feia. Nenhum dos dois saiu perdendo, tampouco ganhou vantagem, foi um empate. Poucos dias depois, fizeram as pazes com um aperto de mãos.
Entre companheiros de infância, discutir, brigar e até sair no tapa era coisa corriqueira e ninguém guardava rancor. Mas, para Alaif, ficaram duas marcas: a vergonha de ter fugido de Xizi e o complexo por não ter cueca. Contam que, ao chegar em casa naquele dia, fez uma cena digna de nota.
Alaif tinha dois motivos para aprontar: um, o sapato era grande e não ficava no pé; dois, queria usar cueca.
An Qi Shi Qi ouviu tudo e, em vez de se zangar, riu, dizendo: “Sapato grande é bom, não aperta o pé.”
Shalina completou: “É isso mesmo. Filho, você está crescendo, se usar sapato pequeno o pé não vai se desenvolver. Quando for adulto, mesmo que seja alto, vai ter pé pequeno igual a uma vovozinha e aí não arruma esposa.”
O nome “Shalina” significa “florescer da juventude”. Essa mulher, no auge de sua beleza, era um ano mais nova que o marido, An Qi Shi Qi. Tinha traços nobres e um ar gentil, era claramente uma mulher de coração doce. Por isso, tentava convencer o filho com paciência.
Alaif, porém, não queria saber de conselhos e gritou: “Se não arrumar, não arrumei! Mas não vou continuar usando os sapatos velhos da minha irmã!”
Qiqige, a irmã, provocou de propósito: “Como se alguém quisesse te dar meus sapatos. Tua chulé é tão forte que até estragou meu sapato.”
“Qiqige, pare de atrapalhar, vai brincar em outro canto!”, repreendeu Shalina, voltando-se depois para acalmar o filho.
Alaif, sentindo-se extremamente injustiçado, chorava e gritava. Não houve outra saída: Shalina vasculhou os baús, pegou roupas velhas e costurou uma cueca para ele. Dali em diante, An Alaif finalmente podia se orgulhar de ter cueca. Quanto ao sapato grande — isso não se resolveria tão cedo. A família não tinha sobrando para comprar sapato novo. E, se comprasse, seria sempre um número maior, nunca justo, porque em poucos dias o dedão de Alaif furaria a ponta e o sapato ficaria apertado outra vez…
Alaif fez um juramento em silêncio: quando crescer, vai ganhar muito dinheiro para comprar cuecas novas! E sapatos do tamanho certo!
O desejo mais simples plantou, no coração inocente do menino, a semente da luta. Pena que, passados três minutos de entusiasmo, a travessura já fazia o sonho se dissolver. Não havia o que fazer, já que o nome “Alaif” em mongol significa “criança travessa”, e ele fazia jus ao nome.
...
Apesar do frio intenso, havia realmente um “doido” que não temia perder as orelhas para a geada, caminhando pelas ruas do vilarejo Lua Crescente. Mas “doido” ali não era sinônimo de tolo. Ele usava um enorme chapéu de pele de cachorro, um casaco acolchoado amarrado na cintura com uma faixa para não entrar vento, e na faixa, um cachimbo pendurado balançava, chamando bastante atenção. Era um homem robusto.
Trazia ainda um cesto de vime no braço e, na mão, um garfo de madeira feito por ele mesmo para recolher esterco. Era o típico trabalhador rural daquele tempo, conhecido como “o homem que sabe viver”.
Recolher esterco para adubo: na primavera, seria útil para plantar. Passar trabalho no inverno rigoroso significava colher mais grãos na próxima safra e garantir mais comida na mesa, amenizando a dureza da vida. Sair para trabalhar num frio de rachar, só sendo obrigado pela necessidade.
Este homem era Baobayin, quarenta anos, forte, pele escura e áspera, um mongol trabalhador. Não podia ser diferente: havia idosos e crianças em casa, os velhos doentes, os filhos crescidos, já em idade de casar. Casar a filha é mais simples, o enxoval pode ser maior ou menor. Mas, para casar o filho, a coisa complica — só o dote já era um sufoco. O peso da família toda curvou as costas de Baobayin antes do tempo.
Além disso, Baobayin dava muito valor ao que os outros diziam: “trabalhador de verdade”, “homem de respeito”, “exemplo de vida”. Para ele, ninguém devia ter motivo para falar mal.
Enquanto tivesse força nos pulmões, não importava o vento ou a neve, Baobayin estaria nas ruas do vilarejo Lua Crescente. Se um cavalo, boi, porco ou ovelha passasse, ele logo seguia atrás, como quem persegue uma mina de ouro ambulante.
De repente, uma grande caminhonete verde-oliva entrou no vilarejo. Nas laterais do compartimento de madeira, slogans coloridos — alguns já rasgados pelo vento — exibiam frases como “Combate rigoroso ao crime” e “Quem confessa tem perdão, quem resiste será punido”. Dois alto-falantes estavam amarrados em cima, tocando gravações oficiais. No meio do vento cortante, o som oscilava, sumia e voltava, como se o vento do noroeste levasse as palavras para longe.
Baobayin parou, forçando os olhos abertos em meio aos flocos de neve, atento ao veículo e ao que era anunciado. Achou curioso aquele aparato sonoro. Pensou: está tudo uma bagunça, precisa de ordem, senão não se pode nem plantar em paz.
Mas um nome anunciado chamou sua atenção, fazendo-o estremecer involuntariamente...