Capítulo 1: A Pobreza é uma Ferida (Parte I)

Há um Rio Meia-Lua na Estepe Pastor Lin Xi 2330 palavras 2026-03-04 20:12:51

[1983]

Há uma história que nos ensina que a pobreza é uma ferida: pode ferir os outros e também a si mesmo. A história se desenrola assim—

Em janeiro de 1983, pelo calendário solar, era exatamente o auge do inverno no norte, o temido “três noves” do frio. E, naquele inverno, o frio era especialmente cruel; ventos cortantes e rajadas de neve dançavam pelo ar. Quando os flocos de neve batiam no rosto, era como se lâminas cortassem ou chicotes estalassem.

O povoado do Rio da Lua Crescente era uma pequena aldeia nos arredores de uma cidade, batizada em homenagem ao rio que corria próximo. Por estar junto ao rio, o frio era ainda mais intenso—o vento do leito não encontrava barreiras, vinha forte e impiedoso.

Num clima amaldiçoado como aquele, só mesmo crianças inquietas que não conseguiam ficar presas dentro de casa desejavam sair para brincar de guerra de neve; quase ninguém mais do povoado de Lua Crescente se arriscava a pôr o pé na rua.

“Se sair nesse frio de rachar, é capaz de perder as orelhas, e o nariz vai congelar até entortar,” diziam os velhos sentados no kang, vigiando o braseiro, tentando convencer os adolescentes que queriam sair correndo feito doidos.

De fato, sem roupas grossas, sem gordura no corpo ou comida substanciosa, a capacidade de resistir ao frio era pouca.

Aos dezessete anos, An Qiqige puxava o irmão mais novo, Alayf, de oito, de um cômodo ao outro. O tédio a consumia, e ela até pensou em visitar a amiga Bao Dai, mas o frio a forçou a voltar correndo.

Na flor da idade, Qiqige era realmente, como seu nome sugeria, “flor” de beleza. Herdara o melhor dos pais: traços delicados, olhos vivos, tranças longas e negras, brilhando à luz. Aquela jovem mongol não usava maquiagem, mas era bela de um jeito natural e fresco.

“Qiqige, sossega um pouco, você está acabando com todo o calor da casa!” resmungou An Setenta e Sete, seu pai, sem muita paciência.

O nome de An Setenta e Sete era peculiar: não porque tivesse setenta e sete anos, mas porque, no ano em que nasceu, seu avô completava essa idade. Era um costume mongol dar nomes assim. Ele tinha, naquele ano, trinta e nove, já quase pisando nos quarenta. Alto, mas magro, o rosto comprido, com as maçãs do rosto saltadas.

Qiqige não se deixava intimidar: “Acha que faço isso porque quero? Se não acompanhar o seu querido filho, ele faz um escândalo! Vocês vivem passando a mão na cabeça dele, só sabem brigar comigo!”

Sarina largou a costura, puxou Alayf e disse: “Seu danadinho, só pensa em brincar. Com esse frio, só louco sai de casa. Se quiser ir, que o velho louco te leve no colo, porque ninguém mais vai trazer você de volta!”

Alayf ficou tão assustado que não ousou protestar.

Já com oito anos, Alayf sabia distinguir quando a mãe mentia, mas mesmo assim sentiu medo—e era verdadeiro, não fingimento. De histórias de bruxas, lobas ou ursos batendo à porta, ele não tinha medo; mas do “velho louco”, ah, desse sim. Porque, de fato, às vezes aparecia no vilarejo uma figura dessas: roupas esfarrapadas, olhar tresloucado, e quando surtava, perseguia crianças como se quisesse matá-las. O “doente” tinha um nome irônico: “Alegre”.

Certa vez, no verão, Alayf ia brincar à beira do rio com o amigo Li Sanfu e cruzaram justamente com esse “Alegre”, o velho louco que vagava pelo povoado. Li Sanfu, querendo bancar o valente, atirou uma pedra nele. Alegre, de início, não se incomodou—riu, mostrando dentes brancos e alinhados. Isso fez Alayf simpatizar com ele, achando até que seria divertido provocá-lo. Então, criou coragem e lançou uma pedra, que acertou em cheio a barriga de Alegre.

Alegre se enfureceu de imediato, o rosto se contorceu e, berrando coisas incompreensíveis, saiu correndo atrás deles.

Desesperados, os dois dispararam em fuga.

Li Sanfu empurrou Alayf, gritando: “Separa! Corre para lados diferentes! Não me segue!”

Assustado, Alayf só conseguiu gritar: “Que disparate! Não concordo, não!”

Li Sanfu queria que Alegre perseguisse Alayf para ele escapar. Mas Alayf, tomado pelo pânico, não ousou se separar e correu atrás do amigo, perdendo até os sapatos. Chegou a odiar os pais por não terem lhe dado mais pernas.

Alegre, tomado por uma força louca, não desistia, praguejando em voz alta.

Quando os dois já não tinham mais fôlego, quase cuspindo sangue, Han Heilong surgiu de bicicleta, decidido a ajudar. Sacou um nunchaku da cintura e enfrentou Alegre. Entre gestos ameaçadores e gritos, conseguiu assustá-lo. Alegre, então, sorriu de novo, bobo, e foi-se embora.

Alayf e Li Sanfu olhavam Han Heilong como herói de artes marciais. Alayf pensou, lembrando das histórias dos “dicionários vivos”: numa situação dessas, no passado, o certo seria ajoelhar e agradecer: “Muito obrigado, grande herói! Jamais esquecerei sua bondade!”

Mas ficou só no pensamento.

Han Heilong, no entanto, falou primeiro, olhando para Alayf: “Vocês dois só aprontam! Se não fosse por causa da sua irmã Qiqige, eu nem teria me metido!”

Alayf ficou sem reação. Li Sanfu, ao lado, sorria malicioso. Por dentro, Alayf praguejou: “Que se dane essa dívida de vida!”

“Não provoquem mais o velho louco. Se Alegre resolver bater em vocês, não vai ter quem os salve! Vão pra casa e parem com as bobagens!” Han Heilong ajeitou o nunchaku na cintura e partiu de bicicleta, que só não rangia no sino, porque o resto inteiro fazia barulho.

Pronto! Tudo perdido! Bastaram umas palavras de Han Heilong para destruir a imagem de herói que Alayf acabara de construir.

“Tomara que Alegre te pegue um dia, Han Heilong! Vive se achando, que pobreza danada!” Alayf xingava em pensamento.

Li Sanfu observou o amigo, meio embasbacado, e disse: “Você é mesmo corajoso, hein? Até bateu no Alegre!”

“Ei, quem começou foi você!”

“Mas eu só finji. Você é que é bobo, mais que o próprio Alegre!”

Alayf cerrou os punhos, de tanta raiva.

Li Sanfu riu: “Deixa pra lá. Vamos procurar seu sapato! Que vergonha você me faz passar!”

“Vergonha, eu? E você, que saiu correndo também?”

“Mas eu não me mijei de medo que nem você!”

“Eu não me mijei coisa nenhuma!” Alayf explodiu.

Os dois começaram a discutir.

“Mesmo que a calça esteja seca, a cueca deve estar molhada!”

“Não está!”

“Não acredito! Então tira pra eu ver!” Li Sanfu insistiu, provocador.

Alayf quase chorou de vergonha. Não tinha se mijado, mas por que não podia tirar as calças e provar sua inocência? Porque—em casa, eram pobres, ele nem cueca tinha; por dentro da calça, não havia nada.