Capítulo 10: O "dicionário vivo" que conta histórias

Há um Rio Meia-Lua na Estepe Pastor Lin Xi 2261 palavras 2026-03-04 20:12:56

A conversa estava animada, mas Li Laicai não parou de andar e disse: “Aconselho você a terminar logo o que tem pra fazer e ir depressa. Ouvi dizer que hoje o diretor Saihan da nossa escola primária trouxe um monte de coisas para o ‘Dicionário Vivo’, e ele vai se esforçar para contar mais algumas histórias...”

“Vou dar uma olhada depois, Laicai. Vá na frente.”

Li Laicai saiu apressado, com medo de perder o início das histórias do “Dicionário Vivo”.

...

Quem seria esse “Dicionário Vivo”? Teria ele aberto uma casa de histórias no rio Lua Crescente?

Nem precisa perguntar, é claro que “Dicionário Vivo” é um apelido do mundo popular, não é que um dicionário tenha ganhado vida. Seu nome verdadeiro é Gegen, que vem do mongol e não tem nada a ver com “raiz de árvore” ou “raiz de kudzu”; em chinês, significa “claro” ou “brilhante”. Gegen não é velho, acaba de chegar aos trinta anos, mas seu apelido já ressoa com força em toda a região. Para se ter uma ideia, talvez alguém não saiba o nome do secretário da cooperativa Hada, mas certamente conhece o “Dicionário Vivo”. Ele é professor na escola primária do rio Lua Crescente, lecionando música, uma das “três matérias menores”.

Gegen possui três talentos notáveis. O primeiro é que não há caractere que ele não conheça, incluindo, claro, os caracteres mongóis. Não importa o quão difícil ou raro seja o caractere, basta uma olhada e ele diz a pronúncia e o significado na hora. Se não acreditar, consulte o dicionário: ele nunca erra. Por isso ganhou o título de “Dicionário Vivo”. Qualquer um que tenha dúvida sobre um ideograma vai até ele e recebe uma explicação detalhada. Perguntas como “o caractere de erva-doce tem quatro formas diferentes de escrever” são brincadeira para ele. Ele supera muito o personagem Kong Yiji das novelas de Lu Xun, chegando a ser um verdadeiro “Kong Jiaji”. Claro, Gegen também domina o mongol escrito. Sua casa está cheia de dicionários de todos os tipos e versões, e ele os conhece de cor e salteado; dizer que recita ao contrário seria exagero, mas do começo ao fim, certamente sabe.

O segundo talento de Gegen é a música, especialmente o domínio do morin khuur, o tradicional violino de cabeça de cavalo. Não só é conhecido por tocar, mas também é habilidoso em fabricar o instrumento.

O terceiro talento é contar histórias e narrar crônicas. Qualquer acontecimento narrado por ele ganha vida, torna-se emocionante, prende a atenção de todos.

Em sua casa não há sala de espetáculos, nem se cobra entrada; qualquer um pode vir e ouvir à vontade. Com o tempo, alguns começaram a se sentir constrangidos de ouvir de graça e passaram a trazer pequenos presentes: frutas, bebidas, sementes de girassol, entre outros. No início, Gegen recusava, mas depois, com o número de presentes aumentando e a insistência de sua esposa Ma Mingyan, que gostava de receber essas ofertas, acabou aceitando naturalmente.

O “Dicionário Vivo” não chegou a ser arrogante por causa de seu talento, mas é visivelmente orgulhoso. Conta histórias não esperando receber presentes, mas pelo prazer de se divertir, alegrar os outros e, de quebra, compartilhar seus pensamentos e ensinar a vizinhança. Já Ma Mingyan tem outra visão: tanta gente em casa, gastando água, luz, varrendo o chão várias vezes ao dia e até estragando a vassoura. Se alguém vinha sempre de mãos vazias, ela lançava olhares frios até que a pessoa se tocava e trazia algo numa próxima vez. Se mesmo assim não entendesse, quando a história chegava ao clímax, Ma Mingyan começava a varrer a casa com energia, levantando uma nuvem de poeira. Gegen, sempre respeitoso com a esposa diante dos outros, não dizia nada, mas por dentro se irritava e suas histórias perdiam um pouco do entusiasmo, prejudicando a experiência dos ouvintes.

Assim, tornou-se uma regra, criada por Ma Mingyan, que quem viesse ouvir histórias devesse trazer algum presente. Gegen se aborrecia com isso, discutia e tentava negociar, mas não adiantava. Curiosamente, em tudo o mais Ma Mingyan obedecia ao marido, menos nesse aspecto, e Gegen já não sabia o que fazer. A justificativa dela era simples: “Você come bem todos os dias, eu e a criança também precisamos de reforço na alimentação.” Então Gegen acabou deixando por conta dela.

Na verdade, o jovem Gegen, o “Dicionário Vivo”, tinha ares de velho erudito, com um jeito austero e até excêntrico, muito além de sua idade real. Quando narrava, sentava-se no pequeno kang do lado norte da sala; às vezes, animado, descia para o chão e gesticulava, mas ninguém podia sentar naquele kang norte. Todos se acomodavam naturalmente no grande kang do sul; se houvesse muita gente ou se alguém cansasse de sentar de pernas cruzadas, podia ficar em pé, mas o kang norte era intocável.

Nos anos oitenta, época em que “já comeu?” era uma saudação comum, ganhar um presentinho era uma ajuda para a casa. Nas aldeias, onde quase não havia atividades culturais ou de lazer, assistir a um filme ao ar livre rendia conversa por meses, mas no povoado do rio Lua Crescente o povo podia ouvir histórias ou ouvir o morin khuur com frequência, um verdadeiro luxo espiritual. Ninguém estranhava que se levasse um presente, nem culpava Ma Mingyan.

Era comum presenciar diálogos como este:

“Vai ouvir histórias na casa do ‘Dicionário Vivo’?”

“Vou sim. Você também, né?”

“Vai de mãos vazias?”

“Não, trouxe um saco de pipoca. E você?”

“Eu? Trouxe coisa muito melhor!”

“Não me diga que é amendoim?”

“Não, é soja torrada. Muito mais saborosa que sua pipoca.”

“Ah, vai! Quem come muita soja e bebe água fria, depois solta pum. Você quer encher a casa de gás venenoso, é?”

...

Lá fora, vento cortante e neve; ali, o lar do “Dicionário Vivo” era aquecido e aconchegante. Isso não acontecia só porque muita gente vinha, mas também porque muitos traziam lenha, pois não havia presente melhor a oferecer. Por isso, a casa de Gegen nunca teve problema de aquecimento, tornando-se o ambiente mais quente de todo o povoado do rio Lua Crescente.

Quando Li Laicai entrou, o “Dicionário Vivo” já estava pronto. Pousou a xícara de chá, bateu com a pequena tabuinha e se preparou para começar. Li Laicai sorriu para todos, feliz por ter chegado a tempo, e logo encontrou um canto onde se acomodou.

O rosto de Gegen era magro, o queixo curto, ostentava uma barbicha de bode, talvez para compensar o queixo. Alisou a barbicha, fitou os presentes e iniciou com um pequeno poema:

O cavalo magro tem pelo comprido e casco forte,
Filho que rouba do pai não é ladrão de sorte.
Rico ou pobre não é destino marcado,
Quem não se esforça, tudo é em vão, desperdiçado!

Com um estrondo da tabuinha sobre a mesa, “Dicionário Vivo” seguiu:

Todos sabem que as histórias que conto são diferentes das que vocês ouvem no rádio. Claro, não invento nada, tenho princípios como contador de crônicas...

“É mesmo, você não tem uns livros desses de ‘história secreta’ ou ‘história oculta’? Não tirou essas histórias de lá?” Saihan foi o primeiro a comentar.

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