Capítulo 52: Usando a Própria Armadilha para Aplicar um “Plano Astuto”
— É aquele tal de Iuan Zhenfu — disse Alaif, emburrado.
— Meu filho, que modos são esses? Ele é seu professor, não precisa citar o nome! — repreendeu Shalina.
— Professor coisa nenhuma!
— Mãe, vó, estão ouvindo? Vocês estragaram tanto o Alaif que ele agora até xinga o professor! — reclamou Qiqigue, já irritada, chamando a atenção da mãe e da avó.
— Não é pra tanto. Ele só fala assim em casa. Lá fora, nem pense em repetir isso, vai acabar virando motivo de chacota, entendeu, Alaif? — avisou Shalina.
Alaif permaneceu calado.
Qiqigue sorriu, dizendo: — Vou te dizer uma coisa, Alaif. Você não sabe escrever as palavras novas, por isso te fizeram copiar um quadro negro inteiro, e daí? Se fosse comigo, te faria passar a noite toda escrevendo, sem deixar dormir!
Alaif ficou surpreso, encarando Qiqigue: — Como você sabe disso?
— O que eu não descubro? — respondeu Qiqigue, com um ar misterioso, confundindo Ansins e Shalina, que não faziam ideia do que os irmãos falavam.
De repente, Alaif se levantou, exclamando: — Então você colocou um espião perto de mim!
Qiqigue imitou o tom dele: — Que disparate! Não me agrada esse teu julgamento!
Alaif, furioso, pulou de raiva...
***
De uns tempos pra cá, Han Heihu, que não desistia de seus planos de conquistar Qiqigue, inventou novas artimanhas, sempre mandando algumas crianças para chamar Alaif para brincar. Na verdade, ele queria sondar notícias da família An, além de saber se Qiqigue estava em casa. Se estivesse, jamais teria coragem de aparecer. Quando descobria que ela tinha saído, ia esperá-la em alguma rua por onde ela passasse, fingindo um encontro casual.
As atitudes de Han Heihu só faziam Qiqigue se irritar ainda mais, aumentando sua repulsa por ele. Depois, quando An Setenta e Sete e Shalina perceberam que as crianças que vinham brincar com Alaif eram “pequenos espiões”, também passaram a detestar Han Heihu, dizendo: “Lobo mau, mesmo velho, não perde o vício”.
O travesso Alaif fingia não perceber nada. Talvez por ouvir muito o rádio com histórias dos “Três Reinos”, aprendeu a pregar peças e armou uma para Han Heihu, fazendo com que ele esperasse quase até de madrugada na curva mais famosa do rio Lua Crescente, quase servindo de alimento para os mosquitos. Tudo se passou assim:
***
Naquele dia, depois da escola, Li Sanfu veio procurar Alaif, mas não para brincar, e sim para fazer a lição de casa juntos. Shalina ficou contente, até pensou em convidar Li Sanfu para jantar, perguntando de tudo um pouco. Alaif, desconfiado, alegou que a presença da mãe atrapalhava os estudos e a despachou.
Alaif não era bobo. Sabia muito bem que Li Sanfu, que sempre reclamava de lição, não iria, de repente, querer estudá-la junto. Se viesse como antes, só para brincar, talvez até o enganasse. Mas dessa vez… Alaif riu por dentro.
Li Sanfu fazia a lição distraído, puxando papo aleatório, mas Alaif estava estranhamente concentrado, ignorando as tentativas de conversa, deixando o outro ansioso. Por fim, Li Sanfu não aguentou. Se não descobrisse logo, não cumpriria a missão do dia. Então, sem ter assunto, perguntou:
— Alaif, tua cueca é feita de tecido estampado?
Alaif lançou um olhar feroz, quase saltando os olhos. Li Sanfu percebeu que havia ido longe demais ao usar o apelido de Alaif para tirá-lo do sério, e apressou-se a sorrir: — Alaif, Alaif, não liga, os outros ficam inventando coisa e acabo entrando nessa. Teve um até que disse que te viu no banheiro com... Ei, não faz essa cara de bravo! Tá parecendo o Zhang Fei quando fugia espavorido, assusta mesmo...
Alaif caiu na gargalhada, deixando Li Sanfu surpreso.
— Bobagem tua, não me agrada esse tipo de coisa! Sanfu, não sabe? Então aprende, deixa de “fugir com as mãos na cabeça”! O certo é “cara de leopardo, olhos arredondados”, não essa besteira!
— Tá bom, tá bom, você é o sabichão! Tu é pior que um dicionário ambulante, pronto? Esquece isso… Olha só, sabe essa questão aqui?
Alaif nem olhou, sempre sorrindo: — Não sei.
Li Sanfu não se ofendeu, continuou: — Mas a tua irmã Qiqigue deve saber, vou perguntar pra ela. Onde ela está? Não vi quando entrei.
Qiqigue estava em seu quarto, ocupada com o bordado, e por isso não fez barulho algum. Li Sanfu não sabia e não a viu ao entrar.
Alaif fingiu olhar sério pela janela: — Por essa hora, deve estar voltando. Minha irmã foi ao centro do prédio vermelho, disse que voltava pelo caminho do rio, aproveitava pra ver se nosso campo está cheio de mato. Se estiver, vai arrancar.
Li Sanfu sorriu de leve: — Mas ela volta hoje mesmo?
Alaif: — Claro. Mesmo que seja de madrugada, tem que voltar. Ia dormir onde na cidade, se não? Pena que sou pequeno, não posso ir buscar. Se alguém for encontrar minha irmã, ela vai ficar tão feliz! Que tal ir comigo? Se ela comprar doce, te dou um...
— Puxa vida, agora lembrei! Minha mãe vai me levar na casa da minha tia hoje à noite, tinha esquecido completamente. Tenho que correr! — exclamou Li Sanfu, batendo na testa e já arrumando as coisas para sair. Shalina, da cozinha, insistiu para que ficasse para o jantar, mas o menino nem parou, disparando portão afora.
Shalina murmurou: — Que menino apressado, parece que a casa está pegando fogo!
***
Alaif olhou pela janela e viu Li Sanfu sair correndo do quintal, não segurando o riso e chegando a se jogar rolando na cama.
Qiqigue, ouvindo o barulho, saiu do quarto:
— Mãe, deixa que eu faço o jantar. Quem saiu correndo agora há pouco foi o Li Sanfu?
***
Ao saber com precisão do paradeiro de Qiqigue, Li Sanfu ficou radiante. Não foi para casa, mas sim direto procurar Han Heihu para dar a notícia. Han Heihu esperava ansioso numa pedra em frente ao centro da aldeia, com sua bicicleta tão velha que mal funcionava.
Li Sanfu se aproximou e cochichou algo no ouvido dele, deixando Han Heihu radiante.
Depois de falar, Li Sanfu estendeu a mão. Han Heihu hesitou um instante, mas logo deu um tapa nela. Li Sanfu insistiu, de mão aberta. Han Heihu riu, tirou dois caramelos do bolso e colocou na mão dele. Li Sanfu saiu correndo, mas logo voltou.
— O que foi agora? — Han Heihu já ia montar na bicicleta.
— Você prometeu que me deixaria dar uma volta na bicicleta — disse Li Sanfu, cobiçando o veículo.
Han Heihu sorriu: — Essa bicicleta… O freio não está bom. Quando consertar, te deixo andar. Senão, vai acabar caindo.
— Combinado! Se quebrar a promessa é covarde! — disse Li Sanfu, correndo em seguida.
Han Heihu, enfurecido, praguejou: — Moleque malcriado, não tem jeito!
Li Sanfu gritou: — Bobagem tua, não me agrada esse tipo de coisa!
Han Heihu respondeu: — Vai te catar, seu danadinho!