Capítulo Noventa e Dois: A Chuva dos Espíritos (Parte Um)
Não sei ao certo quando a chuva começou a cair.
No início era apenas uma garoa suave, mas logo se transformou em um aguaceiro. Gotas de chuva violentas caíam impacientes sobre a terra sedenta, como se testassem não só a resistência do asfalto, mas também a elasticidade da pele dos azarados que, sem guarda-chuva, insistiam em correr sob o temporal.
Infelizmente, eu era o mais azarado dentre esses desafortunados.
Meu nome é Noitesemvoz e sou um estudante do ensino médio que frequentemente se depara com acontecimentos estranhos.
Duas semanas atrás, por causa do incidente da “Cabeceira para a Porta”, fui obrigado a ir ao Japão.
O motivo era simples: fui amaldiçoado e, junto comigo, arrastei uma garota inocente.
Após reunir informações e analisá-las, conclui que talvez ainda me restassem ao menos dois meses de vida. Por isso, decidi ir ao Japão, trazendo comigo duas caixas-pretas que provavelmente eram a origem da maldição, na esperança de encontrar alguma pista para desfazê-la.
No entanto, passadas duas semanas inteiras, desde o momento em que pisei no Japão, corri de um lado a outro perguntando onde ficava a tal “Usá”. Perguntei desde Tóquio até Nara, mas ninguém sabia de nada.
Quando questionei sobre algum lugar que, antes da Segunda Guerra Mundial, marcasse seus produtos com “Made in USA”, todos os japoneses pareciam igualmente confusos. Isso aumentou ainda mais minha ansiedade, deixando-me à beira da loucura.
Foi então que me deparei com essa chuva ainda mais estranha, piorando meu humor.
Acabei me abrigando em uma taverna decadente, local que mais tarde seria alvo de meus insultos e maldições incontáveis vezes.
Pois tudo que me causou dor de cabeça começou justamente ali.
Porém, se o destino me desse a chance de escolher novamente, não hesitaria em entrar naquele lugar. Afinal, foi a partir dali que comecei a desvendar, passo a passo, os segredos das caixas-pretas.
Para ser sincero, sou um tanto niilista. Não temo a morte. Na verdade, talvez por ter passado por muitas despedidas dolorosas, comecei até a ansiá-la.
Contudo, sei perfeitamente que Wenyi Zhang é inocente. Por isso, me esforço para encontrar um jeito de quebrar a maldição, ao menos para salvá-la.
A vida pode ser leve além do que se pode suportar, ou pesada demais para carregar. A minha se tornou insuportavelmente pesada. Talvez só a morte me traga algum alívio...
— Deseja alguma coisa? — Uma senhora de mais de cinquenta anos surgiu do salão interno, aproximou-se do balcão e me entregou uma toalha seca.
Senti um calafrio.
A voz dela era grave e rouca, como um poço antigo coberto de musgo: fria, úmida, entrando nos ouvidos sem pedir licença e causando arrepios.
— Um suco, por favor.
Hesitei, mas acabei aceitando a toalha e enxuguei os cabelos encharcados com força.
— Que chuva estranha — murmurou ela, fitando a janela, por onde a tempestade continuava sem trégua.
— Estranha por quê?
— Já viu chover tanto assim e, ao mesmo tempo, o sol brilhar com tanta força?
Só então reparei: o sol não estava escondido por nuvens. Raios dourados e mornos atravessavam a cortina de chuva, iluminando o chão. Era de fato um fenômeno raro.
Mas, apesar de sua beleza, havia algo de inquietante, como usar calças sociais pretas com tênis brancos: destoava, era até sinistro...
— Que coisa estranha... Normalmente, o motivo para a chamada “chuva com sol” é que há chuva forte nas redondezas e, por causa do vento, parte da água é levada para uma área ensolarada. Mas nunca vi algo tão exagerado! Agora está caindo um verdadeiro dilúvio! Isso fere todas as leis da física! — murmurei em chinês, coçando a cabeça.
A senhora pareceu entender o que eu disse. Ela abriu um sorriso ressecado e perguntou:
— Garoto, você é chinês, não é? Já ouviu falar da lenda do casamento das raposas?
— Refere-se à crença popular de que a chuva com sol significa que as raposas estão celebrando um casamento?
— Isso mesmo.
Ela voltou a olhar para fora, então continuou, pausadamente:
— Dizem que as raposas são animais com grande espiritualidade: são astutas e cheias de truques. Quando vão se casar, transformam-se em humanos e convocam a chuva sob o sol, como um aviso para que os humanos curiosos fiquem longe, evitando qualquer conflito.
— Mas, infelizmente, o ser humano é curioso e tolo por natureza. Muitos ignoram o aviso e até se escondem para espiar. No fim, enfurecem as raposas, que acabam matando todos os que espiam.
— Por isso, até hoje, muitos pais alertam os filhos para nunca sair de casa quando virem uma chuva com sol.
Tomei um gole de suco, fechei os olhos e me espreguicei, dizendo:
— Vovó, existe outra versão dessa lenda, não? Os que se transformam em humanos seriam demônios-raposa, não simples raposas que vemos em zoológicos.
— Reza a lenda que todos os demônios-raposa eram deuses das montanhas, mas, por conviverem muito tempo com espíritos animais, acabaram se tornando criaturas demoníacas. Para os japoneses, esses demônios têm a aparência de raposas, por isso as confundem.
— E, na verdade, esse tal casamento das raposas não é um matrimônio entre elas. Para ganhar mais poder, os demônios costumavam obrigar humanos a oferecer jovens donzelas em sacrifício. Se os habitantes recusassem ou resistissem, eles provocavam secas e até raptavam as moças que desejavam.
Sorri, orgulhoso, olhando para a senhora perplexa, e disse calmamente:
— A chuva com sol não indica que as raposas estão casando, mas sim que os demônios-raposa estão trazendo de volta as garotas que raptaram, certo?
Demorou para ela assimilar minhas palavras. Então, com olhos amarelados e fundos, me encarou fixamente e, por fim, sorriu de boca murcha, gargalhando.
— Garoto, você ainda não encontrou onde se hospedar, não é? Aqui também funciona uma pensão. Que tal passar a noite? Quem sabe aconteça algo interessante...
Sorri de volta:
— E se eu der sorte de ver o casamento das raposas?
A senhora sorriu enigmaticamente:
— Quem sabe... talvez veja mesmo...
— Está bem. Se o preço for justo, fico.
A chuva com sol continuou até o entardecer.
Depois do jantar, tomei um banho quente e me deitei cedo.
Não sei por quê, mas aquela chuva da tarde não me saía da cabeça...
E aquela senhora suspeita. Seus olhos opacos e sem vida passavam despercebidos, mas incomodavam, como se pudessem desvendar todos os meus segredos...
E o sorriso dela, aquela expressão falsa formada por rugas acumuladas, sempre parecia esconder uma segunda intenção, como se insinuasse algo.
Ah, tantos pensamentos inúteis se acumulavam em minha mente, somando-se à inquietação que já me atormentava, impedindo-me de dormir.
Já devia ser quase meia-noite.
Virei de lado, decidido a expulsar todos os pensamentos e dormir de verdade. Mas, paradoxalmente, minha audição ficou ainda mais aguçada.
Que noite silenciosa. A chuva cessara, e a água acumulada no telhado antigo escorria lentamente pelas beiradas, pingando no chão.
Ploc... ploc... ploc...
Uma gota, duas, três...
Ah, que sensação agradável.
Lembro que alguém disse, certa vez, que todos têm manias, e as mais ocultas revelam a verdadeira personalidade. Muitas vezes, nem o próprio indivíduo percebe seus pequenos vícios, como quem vê o espaço entre as letras A e O e sente vontade de preenchê-lo.
Quem não tem mania alguma certamente não é completo!
Desde pequeno, tenho uma: adoro a chuva à noite, especialmente quando vou dormir. Gosto de me deitar e ouvir a água batendo no telhado e nas janelas. Isso relaxa meus nervos, meu corpo inteiro se solta, e sou invadido por uma emoção que só pode ser chamada de comoção.
É uma mania boba, não?
Droga, agora é que o sono sumiu de vez. Irritado, abri os olhos e pensei em levantar para beber água, quando um som sutil chegou aos meus ouvidos.
O que foi isso?