Capítulo Dezesseis — A Caverna Misteriosa
Os acontecimentos que se seguiram foram realmente um caos. Os policiais retornaram e interrogaram a mim e a Xue Ying por um longo tempo, mas encerraram o caso com a desculpa trivial de “acidente”. Senti-me profundamente decepcionado e nem tive vontade de informar aos incompetentes “tios policiais” o local onde o pato morreu; preferi combinar com Xue Ying para investigarmos por conta própria.
Ainda que eu não soubesse se aquele sonho era uma maldição do Espírito do Prato, não queria morrer de forma obscura e inexplicável, nem permitir que Xue Ying tivesse um fim injusto. Nossa única esperança era descobrir a origem daquele sonho.
O renomado psicólogo britânico Shellmotter afirmou certa vez que o sonho é uma atividade cerebral de uma pessoa durante o sono leve, guiada pelo subconsciente; cada um, conforme suas experiências e modo de pensar, sonha de maneira única. A probabilidade de várias pessoas terem o mesmo sonho é tão ínfima que pode ser ignorada.
No entanto, Urso, Xue Ying, Zhang Wen e talvez até o pato, todos tiveram o mesmo sonho, repetidamente, todas as noites, e o enredo era idêntico. Como explicar isso?
Não tinha palavras para responder a tal questão.
Havia ainda outra dúvida.
Por que eu, e somente eu, não tive aquele sonho estranho? Teria feito, sem perceber, algo que os outros quatro não fizeram, algo que nem eu mesmo tenho consciência? Mas isso parecia improvável.
Maldição! Será que o jogo do Espírito do Prato é real? Se não devolver devidamente o espírito convidado, ele mata e devora sua alma?
— Xiao Ye, o que te preocupa? — Xue Ying me olhou sonhadora, demorando a perguntar.
— Estou pensando naquele sonho. Por que você nunca me contou? — Levantei a cabeça e encarei aqueles olhos límpidos e profundos como cristal, suspirando.
— Eu nunca soube que outras pessoas tinham o mesmo sonho, então não dei atenção. E sabia que você já estava suficientemente atormentado, não queria te preocupar ainda mais! — Xue Ying sorriu timidamente para mim.
Ela estendeu a mão, segurou meu rosto e zombou: — Xiao Ye, está preocupado comigo? Bobo, eu nunca acreditaria nessa maldição do Espírito do Prato, não tem base científica alguma.
— É verdade. — Forcei um sorriso, respondendo suavemente: — Essas coisas misteriosas não têm fundamento científico, melhor não acreditar. Apesar do sorriso, não me sentia nada aliviado. Sacudi a cabeça e perguntei: — Você comprou tudo que pedi?
— Acho que sim, vou conferir. — Xue Ying tirou a mochila das costas e começou a conferir item por item: — Corda, lanterna, pilhas, isqueiro, velas de brincadeira para aniversário, luvas, sacos plásticos, botas impermeáveis de cano alto, e o mapa do abrigo antiaéreo que roubei na sala de arquivos da escola. Que estranho, por que você me pediu para comprar essas coisas tão variadas?
Bati de leve na mesa e expliquei: — Sobre o abrigo antiaéreo, preciso te contar algumas coisas. Primeiro, foi construído durante a Segunda Guerra Mundial, é profundo e longo, como um labirinto. A entrada fica numa área baixa, então há muita água acumulada. Se não quiser contato íntimo com os habitantes locais, como ratos e baratas, o melhor é usar as botas de cano alto.
— O mapa é para evitar que nos percamos. A corda, lanterna, pilhas e isqueiro são essenciais para iluminação e emergências; os sacos plásticos são para guardar o que coletarmos; há muitas bactérias e coisas nojentas lá dentro, então é obrigatório usar luvas ao tocar qualquer coisa.
— E as velas de brincadeira de aniversário? Para que servem? — Xue Ying perguntou, confusa.
— É simples: essas velas contêm muito magnésio, são difíceis de apagar, não importa como você sopre ou jogue, só apagam se estiverem em ambiente sem oxigênio. Temo que em partes do abrigo, por estarem seladas há muito tempo, haja excesso de dióxido de carbono e gases tóxicos. Levar as velas é mais seguro. Ao abrir algum local fechado, jogamos a vela lá dentro e, observando se ela apaga, avaliamos a quantidade de oxigênio antes de prosseguir.
— Estou impressionada! — Xue Ying baixou a cabeça e suspirou: — Xiao Ye, às vezes tenho vontade de saber em que tipo de ambiente você cresceu. Por que sempre pensa em todos os detalhes, como uma raposa astuta e experiente?
— Desculpe, minha personalidade de raposa é inata, não depende do ambiente. — Olhei feio para ela e perguntei: — Que horas são?
— Nove e quarenta e cinco, exatamente o horário em que apagam as luzes dos dormitórios. — Xue Ying olhou no relógio.
— Ou seja, a área próxima à entrada do abrigo já deve estar deserta. — Considerei vários fatores e, achando que meu plano era sólido, bati de leve na cabeça de Xue Ying, recomendando: — Ao descer, vá primeiro ao banheiro feminino e confira se há alguém lá. Certifique-se bem, senão estou perdido!
Na época da Segunda Guerra Mundial, cidades e vilas construíram uma quantidade enorme de abrigos antiaéreos.
Evidentemente, a escola histórica onde estudamos não foi exceção, também tinha um desses abrigos, já desativado há décadas.
O terreno em frente à entrada do abrigo foi convertido em banheiro público, e a entrada, espremida atrás do banheiro feminino. Para entrar, era preciso passar pelo banheiro e entrar pela direita.
Isso era o mais complicado.
Para um homem saudável, confiante e orgulhoso como eu, entrar num banheiro feminino era um desconforto enorme. O pior seria ser flagrado; minha reputação seria destruída, a imagem que tanto preservo afundaria como águas de primavera sendo levadas ao mar. Talvez nem desse tempo de me atirar contra um bloco de tofu, já estaria afogado pela saliva de mais de cinco mil pessoas da escola...
Xue Ying entrou furtivamente no banheiro feminino e logo fez um sinal de “tudo ok”.
Respirei fundo, tomei coragem, ergui os pés trêmulos e, com dificuldade, entrei no território proibido dos homens.
O cenário do banheiro feminino ficarei aqui sem descrever, pois seria vergonhoso demais! (Na verdade, evito por medo de ser chamada de pervertido por Xue Ying, então finjo tranquilidade e nem me atrevo a olhar ao redor.)
Demorei longos trinta segundos, lutando internamente para atravessar os vinte metros até chegar ao terreno atrás do banheiro.
— Xiao Ye, você acha que aquele Urso, sempre tentando manter uma imagem séria, e seu seguidor Zhang Wen, tão tarado, têm mania de espiar? — Xue Ying, que vinha rindo por dentro, não resistiu e explodiu em gargalhadas ao ver meu suor.
Entre risos, perguntou: — Senão, como pensaram em entrar no abrigo atrás do banheiro feminino?
— Não fale mal dos mortos! — Bati de leve na cabeça dela, aborrecido.
Xue Ying tocou a cabeça e brincou: — Que chato, não bata na minha cabeça! Se me deixar burra, vai ter que me casar, trabalhar para mim a vida toda.
— Haha, se virar burra, serei o primeiro a ligar para o hospício. — Distraído, brinquei enquanto examinava a velha entrada.
O abrigo ficava dez metros abaixo do solo, profundidade já considerável para a época.
A entrada era um bloco de concreto com cerca de um metro e meio de altura, mas a escola já havia cercado com grades de ferro, provavelmente para evitar que crianças pequenas entrassem e se perdessem ou sofressem acidentes.
— Estranho. — Franzi o cenho e, ao passar a mão na grade, disse a Xue Ying: — Será que o abrigo que Urso mencionou não é este?
— Não pode ser, só existe esse abrigo por aqui. — Xue Ying negou veementemente.
— Mas veja. — Mostrei os resíduos de ferrugem: — A grade está cheia de ferrugem e teias de aranha, além de estar trancada por um grande cadeado. — Examinei o cadeado e acrescentei: — Não há sinais de arrombamento, o orifício está coberto de ferrugem, dá para ver que ninguém entra aqui há anos.
Xue Ying também ficou confusa, relembrando: — Zhang Wen disse que encontrou o corpo do pato no antigo abrigo. Lembro que só há essa entrada e saída.
— Não, há algo errado.
Pensei bastante e espalhei o mapa do abrigo no chão para estudar.
Depois de muito tempo, levantei a cabeça e perguntei sem contexto: — Lembra o que Zhang Wen e Urso nos disseram dias atrás? Disseram que encontraram o tesouro da família Chen no canteiro do campo. Tesouro talvez não seja real, mas o túmulo enorme lá é.
— O que isso tem a ver com o abrigo? — Xue Ying hesitou.
Sorri misteriosamente: — Vamos ver esse túmulo, talvez haja algo a descobrir.
No mapa, o abrigo segue claramente para o sudeste, e o campo e o túmulo ficam exatamente nessa direção. Com isso, surgiu um novo palpite em minha mente:
Talvez o túmulo esteja acima de um trecho do abrigo; quando cavaram o alicerce, não só descobriram a tumba, como também fizeram desabar o teto do abrigo sob o túmulo, conectando ambos... E Urso e Zhang Wen entraram no abrigo pelo túmulo, encontrando por acaso o corpo do pato.
Se essa hipótese estiver correta, ao menos parte dos mistérios se resolve!
Para mim, atormentado por tantas dúvidas e sem rumo, como alguém sob chuva forte num telhado em ruínas, era como um fio de esperança.
A noite era escura, o canteiro envolto numa penumbra sombria e silenciosa.
Eu e Xue Ying pulamos para dentro, mergulhados nesse silêncio de morte.
Por alguma razão, meu coração batia acelerado; liguei a lanterna para examinar o local. O futuro prédio de dormitórios já tinha alicerce pronto, prestes a receber concreto.
— O túmulo deve estar no extremo direito do canteiro. — Apontei e me apressei para lá.
Xue Ying seguia colada a mim, assustada, segurando minha mão. De repente, ouvi um grito e ela parou, apontando para frente.
Levantei os olhos: havia um fosso retangular profundo, cheio de água, exatamente como Zhang Wen descrevera, com mais de cinco metros de comprimento e três de largura. À noite, era de arrepiar.
O fosso, largo e longo, parecia uma boca sangrenta emergindo lentamente do inferno, sorrindo de forma ameaçadora e silenciosa, como se esperasse há milênios para nos devorar.
Fiquei parado, gelado, sentindo Xue Ying apertar cada vez mais minha mão. O ambiente ao redor tornou-se sinistro, com pedaços de caixão espalhados pelo chão, exalando uma atmosfera gélida no verão...
— Você sente? Está frio, é assustador! — Xue Ying falou com voz trêmula.
Resmunguei, belisquei minha coxa para afastar o medo. Dei alguns passos, peguei um pedaço de caixão, examinei, raspei um pouco e cheirei.
— Sem dúvida, o fragmento que Zhang Wen trouxe veio daqui. — Concluí.
Xue Ying parecia perdida, então virou-se, olhando profundamente nos meus olhos, e disse hesitante: — Xiao Ye, será que... o Espírito do Prato que invocamos era o dono deste túmulo?
— Por que pensa isso? — Perguntei, surpreso.
Xue Ying mordeu os lábios e respondeu devagar: — Você disse que há mais de cem anos, o campo era um rio. E que “à beira da água” indica “à margem do rio”. Veja, o túmulo está exatamente onde descreveu, e...
Ela pensou longamente, mas balançou a cabeça: — Não sei como explicar, só sei que esse lugar me dá arrepios, como se fosse devorada pelo fosso a qualquer momento.
Não me comprometi com a hipótese dela.
— Isso não prova nada. Todos sentem medo em locais ligados à morte, eu também. Sua reação é normal.
— Não! Não é medo! — Xue Ying quase histérica, agarrou meu braço, tremendo: — Eu sei como é sentir medo, mas o que sinto agora é um chamado! Sim, um chamado.
— Desde há pouco, sinto que algo chama meu nome. Não é um som, é um pensamento. Não passa pelo ouvido, entra direto na mente! Estou com medo! Estou com frio! Não posso, preciso salvá-lo!
Xue Ying ficou rígida, empurrou-me e começou a caminhar pesada e lentamente.
— O que houve? — Tentei segurá-la, mas seus olhos estavam apagados, sem brilho, como cobertos por um véu.
Ela caminhava desordenada, mas obstinada, mesmo parada, ainda movendo os pés.
— À beira da água, está frio. Salve-me! Alguém! Venham me salvar, não quero morrer! — De repente, Xue Ying chorou, sentando no chão e repetindo essas palavras entre lágrimas.
Uma sensação gélida subiu pelas costas até a nuca, arrepiei, sentindo-me paralisado.
O que estava acontecendo? Seria possessão? Não! Não faz sentido cientificamente. Talvez fosse sonambulismo súbito?
Mordi os lábios e a abracei por trás.
Xue Ying começou a lutar, tentando se livrar, olhando-me com ódio assustador: — Animal, não encoste em mim! Juro, nem morta te perdoarei!
Segurei firme, derrubando-a.
Xue Ying chorava, gritava, me golpeava.
Por fim, pareceu exausta, relaxou e adormeceu.
— Céus, que brincadeira pesada! — Ofegante, levantei-me, olhando Xue Ying deitada, sorri e balancei a cabeça.
Ah, acabou, ela não conseguiria voltar ao dormitório sozinha. O que fazer esta noite?
Após breve descanso, resignado, coloquei-a nas costas e caminhei penosamente até o prédio de aulas. Não havia alternativa: passaríamos a noite na sala de aula.
Maldição! Não esperava um imprevisto desses, destruindo meu plano inteiro.
Sentia-me um pouco desanimado; talvez nunca devesse ter trazido Xue Ying. Deixar a busca pelo corpo do pato para os policiais incompetentes talvez fosse o melhor...