Capítulo Quarenta e Cinco: O Sepultamento do Bebê (Parte II)
A temperatura desta noite estava realmente anormalmente fria. A luz amarela e tênue dos postes misturava-se com a névoa leve na estrada principal, sempre causando uma estranha sensação de inquietação. Nós dois caminhávamos em silêncio, sem querer, apressando o passo.
“Cuidado!” Não sei quanto tempo caminhamos, quando de repente Zhang Lu gritou assustada.
Olhei sem entender e, para meu espanto, vi a poucos metros de distância, uma criança de uns dois ou três anos de idade. Ele surgiu correndo do lado esquerdo, saindo do meio da névoa, e tropeçou na estrada.
O menino começou a chorar, mas ao olhar para mim, enquanto eu quase o atropelava, sorriu de forma inocente.
Segurei nervosamente os dois freios ao mesmo tempo e a bicicleta parou bruscamente. Mas, devido ao impulso, perdi o controle do guidão e fui lançado para frente, caindo pesadamente no chão.
“Você está bem?” Zhang Lu largou a bicicleta e correu até mim, preocupada, para me ajudar a levantar.
“Não foi nada. Veja o menino, por favor. Eu não o atingi, não é?” Testei minhas articulações, aparentemente nada grave, apenas meu braço direito estava arranhado.
“É mesmo, o menino...” Zhang Lu virou-se, mas de repente ficou completamente paralisada.
“O que houve? Ele está bem ou não?” Insatisfeito com o silêncio dela, também me virei para olhar. Santo Deus! A estrada atrás de nós estava completamente vazia, nem sinal da criança.
“O que está acontecendo? O que houve?” Zhang Lu tremia de medo, jogou-se em meus braços e perguntou, apavorada.
Balancei a cabeça em silêncio e levantei a bicicleta.
“Vamos.” Depois de algum tempo, afastei-a de mim. Não voltei a pedalar, apenas fui empurrando a bicicleta ao lado.
Zhang Lu andava devagar e hesitante ao meu lado, respirando rápido, mas não ousava dizer mais nada. Meus pensamentos estavam confusos, e o som de nossos passos ressoava solitário naquela estrada imensa e silenciosa.
Não fazia sentido, nenhum sentido. O menino teria ido embora por conta própria? Mas ele era apenas uma criança pequena, incapaz até de se levantar depois de cair!
Desde o momento em que o vi, depois fui lançado ao chão, até Zhang Lu olhar para trás, tudo isso não levou mais de trinta segundos. Como ele poderia ter desaparecido tão rápido?
Não! Mesmo um adulto em excelente forma física não conseguiria sair do nosso campo de visão em tão pouco tempo!
Tentei afastar as dúvidas balançando a cabeça. Mas eu não sabia que, naquela estrada aparentemente interminável, algo ainda mais assustador nos esperava um pouco adiante, silenciosamente...
A noite ficava ainda mais fria. Seria mesmo setembro? Puxei o casaco, duvidoso, e acelerei o passo.
“Será que encontramos um fantasma?” Zhang Lu tremia, ainda tomada pelo medo.
“Só se for um fantasma!” respondi, impaciente.
De repente, vi um clarão vindo de uma casa não muito distante.
Ergui os olhos: na casa à direita, o portão estava escancarado, e à entrada havia muitas coroas de flores e bonecos de papel. No salão, sombras de pessoas circulavam, quase todos vestidos de branco, alguns chorando baixinho.
Parece que alguém morreu. Tão tarde ainda realizando o velório, será para vigiar o morto à noite? Por algum motivo, senti que aquele funeral, apesar de aparentemente normal, era diferente dos que já vira, como se faltasse alguma coisa.
Zhang Lu também percebeu e murmurou baixinho: “Estranho, por que não tem música fúnebre?”
Meu coração estremeceu. Era isso! Por que não havia música fúnebre naquele velório? Para não incomodar os vizinhos? Impossível. Segundo o costume chinês, respeitar o falecido é fundamental, e ninguém reclamaria, por maior que fosse o motivo. Então, que razão teria aquela família para não tocar música fúnebre?
Olhei novamente para dentro da casa. No fundo do salão estava o altar, com a foto do falecido. Era claramente uma criança de pouco mais de dois anos. Criança? A mesma idade do menino que vimos antes, não era?
Um calafrio percorreu meu corpo. Aproximei-me para ver melhor. Céus! Quanto mais olhava, mais parecido parecia: aquele sorriso inocente, o rosto adorável, as covinhas marcando o canto da boca.
Era exatamente o menino que quase atropelei há pouco!
Meu cérebro entrou em colapso, como se tivesse sido atingido por um raio. O medo espalhou-se pelo meu coração. Os olhos da foto sorriam para mim, e aquele sorriso em forma de lua crescente exalava uma atmosfera estranhamente inquietante.
“O que houve com você?” Zhang Lu me empurrava, preocupada, perguntando em voz baixa.
“Vamos entrar e olhar.” Olhei para ela.
“Pra quê? Não faça coisas sem sentido!” Ela me segurou.
Falei calmamente: “Eu nunca faço nada sem motivo. Olhe bem para a foto no altar. Não acha que a criança é familiar?”
Zhang Lu olhou com espanto e, de repente, ficou paralisada.
“É... É o menino da estrada?”, gaguejou, apavorada.
“Não tenho certeza, por isso quero olhar de perto. Espere aqui um pouco.” Caminhei em direção à casa.
Zhang Lu logo me seguiu. “Não me deixe sozinha aqui, estou com medo!”
A luz branca e fraca oscilava ao vento, tornando as pessoas de branco no velório quase irreais. Entramos, cumprimentamos o anfitrião com uma reverência, pegamos um incenso, acendemos e fizemos nossas preces diante do altar.
Observei detidamente a foto. Não havia dúvida! Agora eu tinha certeza absoluta: o menino que encontramos era aquele mesmo. Mas ele estava morto! Então quem era aquele que vimos? Seria mesmo… um fantasma?
Zhang Lu, assustada, puxava minha manga, indicando que devíamos sair logo. Mas eu ainda não conseguia acreditar no que via e, baixinho, perguntei ao anfitrião: “Era uma criança adorável, que pena. Ele era filho único?”
Se fosse gêmeo, tudo faria mais sentido. Mas o anfitrião apenas assentiu levemente, sem dizer palavra.
Diante da indiferença, saímos, repletos de dúvidas.
“Vocês não sabem, mas eu e Noite Silenciosa vimos outro fantasma voltando pra casa anteontem! Céus, já é a segunda vez. Ele realmente é um ímã de azar!” Logo no primeiro dia de aula, Zhang Lu, com sua língua solta, já cochichava com seus três inseparáveis amigos.
Shen Ke riu alto: “Você diz que quase atropelaram uma criança morta na estrada sul, e ainda entraram no velório? Mas não me lembro de nenhum funeral recente por lá!”
“O que disse?” Agarrei-o pelo braço. “Quer dizer que não houve funerais por lá ultimamente?”
“Impossível!” Zhang Lu também gritou. “Nós dois vimos com nossos próprios olhos, até entramos lá. Xiao Ke, não brinque com isso!”
“Eu não sou assim! Pergunte à Wang Feng e à Xu Lu, elas moram por ali.” Observando nossa expressão tensa, Shen Ke ficou surpreso. “Será que o que Xiao Lu disse é verdade?”
Soltei-o e saí correndo: “Zhang Lu, não estou bem. Peça licença ao professor por mim.”
Havia um sentimento estranho dentro de mim. Se Shen Ke estivesse certo, o funeral da outra noite nunca aconteceu. Mas eu e Zhang Lu estivemos lá, participamos. Teria sido tudo imaginação? Mas Zhang Lu também lembrava claramente de tudo!
Com a cabeça cheia de dúvidas, rapidamente cheguei ao lugar onde deveria ter acontecido o funeral. Para minha surpresa, era uma simples mercearia! O dono era um velhinho magro, que, com muito empenho, me convenceu a comprar um refrigerante que eu não gostava, um caderno inútil e um monte de besteiras desnecessárias.
Aproveitando uma pausa em seu discurso incessante, perguntei casualmente, ofegante: “O senhor mora sozinho?”
O velho respondeu com tranquilidade: “Só eu mesmo. Minha esposa se foi há dois anos, não tive filhos nem netos. Não sei quanto tempo ainda aguento com esses ossos velhos.”
“E alguém alugou sua loja para um funeral recentemente?” perguntei, ansioso.
Se o dono não tinha família, o funeral não teria sido dele.
“Como seria possível? Se deixasse fazer um funeral aqui, perderia todos os clientes!” O velho riu alto, como se fosse a maior piada.
Frustrado, insisti: “Então, ninguém da vizinhança fez funeral esses dias?”
“Não, não. Já faz meses. Quem tinha de morrer já morreu, restamos nós, os que ainda não morreram.”
Não podia ser! Saí da mercearia profundamente desanimado. Teria realmente visto um fantasma?
“E então? Descobriu alguma coisa?” Alguém bateu no meu ombro.
Virei-me, era Zhang Lu, Shen Ke e o grupo dos quatro amigos da escola.
“Nenhuma pista. De fato, ninguém fez funeral naquele dia. Claro, desde que o velho não tenha mentido.” Falei, com dor de cabeça.
Zhang Lu ficou pálida: “Então, o que vimos era mesmo…?” Ela engoliu o ‘fantasma’ de medo.
“Deixa pra lá. Por que vieram atrás de mim?” Fitei-os.
“Somos o grupo dos cinco da escola! E com algo tão interessante, como não participar?” Shen Ke riu.
“Grupo dos cinco? Ah, claro...” Suspirei. “E qual foi a desculpa de vocês para faltar à aula?”
“Dor de barriga”, respondeu Zhang Lu, rindo.
“Dor de estômago”, disse Wang Feng.
“Prisão de ventre”, murmurou Shen Ke, constrangido.
“Desnutrição”, Xu Lu fez cara séria.
“Cada desculpa mais simples que a outra. E a minha, qual foi?” perguntei.
Eles trocaram olhares e caíram na risada. Zhang Lu, vermelha de tanto rir, disse: “Não importa, amanhã você saberá. Melhor discutirmos o que aconteceu anteontem.”
Observando as risadas deles, tive a estranha sensação de que seria alvo de uma pegadinha.
Mas, afinal, o que aconteceu naquele funeral?
Teria sido uma brincadeira de alguém, um aviso ou um presságio? Fiquei, mais uma vez, mergulhado em dúvidas.