Capítulo 98. O Desaparecimento Estranho

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 2473 palavras 2026-04-01 07:28:48

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Toda a existência está interligada; parafraseando alguém, é o chamado efeito de pontos e linhas. Se eu representar com pontos tudo o que aconteceu nos últimos dias ao meu redor e depois localizar os pontos de ligação, traçando linhas entre eles, fica muito mais fácil compreender o conjunto.
Quando voltei ao quarto que Yumi havia preparado para mim, tirei uma folha e, pouco a pouco, fui lembrando de tudo, registrando o que considerei mais importante.
Primeiro, a hospedaria onde eu fiquei. Segundo Yumi, aquela era a casa ancestral de sua ama e de Wada Mie; três anos antes, a ama havia deixado o serviço da família Takahashi, voltado para a casa ancestral e aberto uma pequena taberna. Yumi ia lá com frequência, mas ninguém esperava que ali ocorresse uma tragédia tão cruel.
O corpo de Wada Mie foi retirado da árvore na manhã seguinte. A polícia não encontrou ferimentos nela; embora soubesse que havia algo estranho, fechou o caso com o argumento ambíguo e irresponsável de suicídio.
Mas Yumi estava estranhamente calma, como se já soubesse que aquilo aconteceria. Em vez de gritar como qualquer garota, ela apenas caminhou em silêncio até o cadáver, fechou com a mão os olhos enormes de Wada Mie e, sem fazer barulho, começou a chorar.
Depois também perguntei sobre a história da Noiva Raposa. Quis saber o que, exatamente, havia acontecido naquele dia. Yumi respondeu de modo conciso: foi empurrada à força para dentro de uma liteira horrível, sentiu uma tontura inexplicável e depois não se lembrou de nada.
Somente viu que sua ama saiu correndo, mas foi agarrada por uma sombra negra e enforcada na árvore. Nessa hora, o jeito como ela falava era hesitante, como se escondesse algo.
Fui discreto e não continuei a insistir. Conheço bem Yumi: com a mentalidade prática que tem, se ela resolve ocultar algo, não há nenhum método que a faça falar.
Depois, há a garota que eu resgatei naquela noite.
Até hoje não sei sequer o nome dela; só sinto vagamente que muitos enigmas a envolvem. Para onde ela foi? Será que desapareceu junto com aquela sombra?
Bati a cabeça, agora cada vez mais pesada, e caí de bruços na cama.
Sem pistas. Totalmente sem pistas.
Sem perceber, já se passaram dezessete dias desde que cheguei a RB, e nada encontrei. Onde fica, afinal, aquele lugar maldito chamado Usa? E que segredos guardam aquelas duas caixas pretas que encontrei, gravadas com “Showa 13”?
Em 1938, no Showa 13, terá ocorrido algo de grande importância em RB, em Usa?
Como alguém pôde fabricar objetos assim?
E de que material, afinal, essa coisa foi feita?

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Já usei raio‑X antes para tentar ver o que havia dentro delas, e o resultado assustou muita gente: lá dentro era uma escuridão espessa, como se nada existisse, e isso me deixou tão irritado que quase as arremesso no chão para descobrir de vez.
Mas uma coisa é certa: as duas têm funções diferentes, e ambas só podem ser ativadas sob condições específicas.
O primeiro exemplo é a primeira caixa preta que encontrei: ela usou o medo de uma vendedora de flores, momentos antes da morte, para matar mais de cento e trinta pessoas.
E todos os mortos tinham algo em comum: no instante final, todos tinham tocado uma maçã no mesmo edifício.
Talvez o gatilho do primeiro artefato seja justamente tocar o objeto-chave — a maçã — em um ponto específico.
A segunda caixa era ainda mais bizarra.
Ela parecia devolver a juventude, mantendo a pessoa sempre na mesma idade, sem envelhecer nem morrer, embora também roube a vida.
Encontrei-a num porão da Cidade da Montanha Negra. Pelo que investiguei, e por vários registros, basta dormir sete dias inteiros no local onde ela está para a pessoa morrer, mas sua vitalidade não some imediatamente.
Quem morre assim, no dia seguinte, transforma-se em zumbi por força de alguma energia misteriosa e mata todos que o tenham ferido.
Mas sua função não termina aí: quem não dorme sete dias não morre de imediato, porém passa a ter pesadelos intermináveis, até que um demônio dos sonhos saia de seu sono e lhe corte a cabeça.
Eu e uma garota de Montanha Negra também fomos atingidos por essa maldição.
Desde então, vivo tomado pelo medo de que, em algum momento, alguém me encontre sem cabeça, morto de modo terrível, em algum lugar. E recentemente essa sensação só cresce.
Respirei fundo; quando eu me preparava para reorganizar os pensamentos, a porta bateu.
— Sem precisar dizer palavra nenhuma, o que quer comer esta noite? — disse uma voz doce e suave, vindo de dentro do quarto. Era Yumi.
— Coisa simples, jantar de casa está bom. — respondi sem jeito e abri a porta, mas fiquei imóvel por um instante.
Lá estava Yumi, de joelhos diante de mim, vestida com um quimono rosa requintado, a cabeça baixa.

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— O que você está fazendo? — perguntei, envergonhado.
Yumi ergueu a cabeça e sorriu levemente: — Em RB, é assim que uma esposa recebe o marido.
— Mas que época é essa, agora? O homem já foi à lua, as naves já chegaram a Marte. Quem ainda segue esse tipo de coisa?
Yumi balançou a cabeça. — Não importa quanto a era mude, nobreza e povo nunca serão iguais. O povo pode ser livre e jogar fora as tradições de RB, mas a nobreza não. A nobreza tem de seguir a etiqueta com rigor.
— Hã, vocês, nobreza, não cansam de carregar esse peso. — provoquei.
— Em outras palavras, nobreza é apenas uma família rica. A herança ancestral, somada ao patrimônio acumulado por séculos, permite que eles vivam em luxo de geração em geração.
— No fundo, poderiam viver felizes, mas sempre há quem não veja isso e goste de colocar sobre si mesmos correntes de etiqueta e honra de linhagem. Pior: além de as usarem, amarram seus filhos a essas correntes e mandam que elas sejam passadas de geração em geração. Isso não é autossabotagem?
Yumi continuou sorrindo, sem sinal de aborrecimento, e respondeu num tom sereno:
— Análise bastante aguda. Você deveria conhecer meu avô; os dois combinariam demais e conversariam sem parar.
— Eu acho que essa chance não existe, Yumi. — falei, fitando seu rosto — A chance de alguém sair do estado vegetativo é menor do que a de uma antiga cortesã antiga encontrar um amor verdadeiro.
— É... talvez realmente não exista chance... — disse ela com os olhos fixos no vazio, soltando um longo suspiro.
Tive medo de que ela chorasse de repente, então saí primeiro.
— Tô morrendo de fome, Yumi. Leva-me ao refeitório...
Sempre fiquei sem entender o que essa garotinha pretendia fazer; como não sabia, também não quis pensar demais nisso. Meus próprios problemas já eram suficientes, não sobrava energia para me ocupar de suas divagações.
Mesmo assim, isso foi ilusão minha. Mais tarde ficou claro o quanto eu estava errado: o maior beneficiado deste negócio não era eu nem ela, mas sim algo que há tempos se escondia no seio da família Takahashi...
Aquilo permanecia enterrado silenciosamente sob o solo, com apenas os olhos impuros meio à mostra. Esperava até todos os personagens dessa peça estarem reunidos e, então, no instante certo, engolir a todos.