Capítulo Noventa e Um Fim (Esta história chegou ao seu término)
— Chega! — gritou Shen Ke em voz alta. — Você já falou tanto e até agora não entendi nada. Fale logo o que importa para alguém simples como eu.
— Está bem! — respondi com impaciência. — Li Shuren se suicidou. Ele não suportou o impacto de perder o grande amor da sua vida e escolheu morrer da mesma forma que Zhang Xiuwen.
Shen Ke me lançou um olhar desconfiado e disparou palavrões:
— Você só pode estar brincando! Zhang Xiuwen foi assassinada cruelmente, com a garganta cortada por uma faca muito afiada. Li Shuren estava exatamente do mesmo jeito que a namorada. E você diz que foi suicídio!
Soltei uma risada fria e retruquei:
— Digo que seu raciocínio é limitado e você se faz de ofendido. Li Shuren, aquele sujeito, conseguiu manter a aparência e a vitalidade de um jovem de vinte e quatro anos até os oitenta e seis. Não dá para julgá-lo como um homem comum. Talvez depois de cortar a própria garganta, ele ainda tenha conseguido esconder a própria cabeça, permanecendo vivo até todo o sangue esvair do corpo. De qualquer forma, foi suicídio. Minhas intuições nunca falham!
Ah, será que eu poderia revelar a verdade? Poderia agir como um louco e contar que tudo isso eu vira em meus próprios pesadelos? Ultimamente, meus sonhos ruins se repetem sem parar. Basta adormecer para que as cenas da morte de Zhang Xiuwen, Li Shuren e de tantas outras pessoas que nunca conheci passem diante dos meus olhos como um filme.
Shen Ke bufou:
— E a causa da morte de Zhang Xiuwen? Não venha com mais absurdos!
— Ela morreu por causa de um sonho — respondi após refletir um instante. — Na última noite que passei na Vila Montanha Negra, soube que há dois meses Zhang Xiuwen havia voltado para casa. Não quis dizer o motivo, só insistiu em dormir no porão. Passou quatro noites na cama do subsolo.
— Aproveito para contar que foi nessa época que Zhang Wenyi ficou sabendo do segredo do corredor, porque a irmã lhe contou. Imagino que desde então ela sofreu a influência da Caixa Negra e passou a ter pesadelos. Isso explica por que o quarto de Zhang Xiuwen era tão estranho, idêntico ao do namorado, sempre com a cama voltada para a porta. Ela tentava conter os próprios pesadelos!
— Mas o sonho é algo muito delicado. Vocês já pensaram que, se um sonho de repente ganha poder, e esse poder é reprimido continuamente, acumulando-se... o que pode acontecer?
À luz trêmula das velas no café, as sombras dançavam nas paredes, e o clima fez com que os dois à minha frente estremecessem ao mesmo tempo.
Falei num tom sombrio:
— Cedo ou tarde, o demônio do sonho dentro de você sairá e te matará, cortando sua cabeça.
Xu Lu e Shen Ke estremeceram de novo.
— Você está tentando nos assustar! Então mostre provas! — Shen Ke tentou disfarçar o medo, mas o corpo tremia.
— Eu sou a prova — apontei para mim mesmo. — Também dormi uma noite naquela cama do porão. Desde então, tenho tido pesadelos todos os dias!
Xu Lu gritou, assustada:
— Então você também vai morrer?
— Lu, você é mesmo bondosa demais! — Shen Ke comentou, balançando a cabeça. — Nunca ouviu dizer que praga ruim dura mil anos? Esse sujeito tem mais vitalidade do que uma barata! Não vai morrer tão fácil assim!
— Claro que não vou morrer — respondi, forçando um sorriso que logo ficou duro. — Dormi lá só uma noite. O que a Caixa Negra deixou em mim já se dissipou.
— Ah, quase esqueci. No local onde encontrei a Caixa Negra, achei também um talismã. — Mostrei a eles um papel oval com desenhos de animais estranhos.
— O que é isso? — Eles examinaram por muito tempo, sem entender.
— Pesquisei na biblioteca: é um amuleto utilizado pelos Yushi. Dizem que no Japão, os Yushi são pessoas que usam o poder das raposas demoníacas. É tudo o que sei. Já contei tudo que podia. Agora vou para casa tomar banho e dormir, aproveitando que ainda é cedo.
Levantei-me, peguei a conta e fui ao balcão. De repente, me veio uma dúvida e virei-me para eles:
— Vocês acham que eu sou alguém insuportável?
— Não é às vezes, é quase sempre! — Shen Ke respondeu sem rodeios, bebendo grandes goles do café que eu paguei. — Você é traiçoeiro, astuto, e ainda tem esse terrível hábito de usar sua inteligência para encontrar as falhas dos outros.
— Sou tão insuportável assim? — perguntei, desolado, passando a mão pelo rosto.
— E seus olhos de águia são ainda piores! Sempre com aquele olhar de quem vê através de tudo, acima da sociedade. Dá nos nervos!
— Mais alguma coisa?
— Mais... — pela primeira vez, a expressão brincalhona de Shen Ke deu lugar a uma seriedade carregada de preocupação. — Tenho certeza de que hoje você está diferente.
— Se eu tenho algum problema ou não... — sorri de leve para os dois e saí correndo. — Conto outro dia!
Sim, escondi algo deles. Não queria que soubessem que quem dormiu sete noites naquela cama com a Caixa Negra morreria na oitava noite, transformando-se num zumbi. E mesmo quem dormiu menos de sete noites, apenas uma, seria atormentado por pesadelos. Um dia, o demônio do sonho rastejaria para fora do sono, silenciosamente, e cortaria sua cabeça...
A noite caiu mais uma vez. Ultimamente, tenho medo de ver a cama ou qualquer coisa relacionada ao sono. Será que Zhang Wenyi está se dando bem com o Xiaoz Sanzi? Quando fui embora, não contei a ela que sua irmã havia morrido; apenas disse que Zhang Xiuwen fora para o exterior com o médico que amava, e que talvez demorasse muito para voltar.
De repente, lembrei-me da última noite antes de partir, quando Zhang Wenyi, aproveitando minha distração, me roubou um beijo e mordeu meu lábio inferior, soltando-o a contragosto depois de um longo tempo.
— Vou esperar por você. As mulheres da família Zhang só amam um homem para a vida toda — essa foi a última frase que me disse.
Passei a mão nos lábios, sentindo ainda o toque suave, úmido e dolorido. Ter uma mulher que espera por você para sempre, para alguém como eu, talvez seja uma sorte...
— Senhor, telefonema para o senhor. Uma moça deseja falar com você! — anunciou a empregada, trazendo o telefone.
Ao atender, ouvi a voz assustada e exausta de Zhang Wenyi:
— Ye Buyu, não sei o que está acontecendo, mas tenho tido pesadelos horríveis, assustadores e tão reais... Não sei com quem conversar, então liguei para você.
Um frio inexplicável tomou conta do meu coração. Tremendo, perguntei com urgência:
— Você dormiu naquela cama do porão?
— Sim, na noite em que você estava comigo... — respondeu, envergonhada, baixando ainda mais a voz.
Meu corpo inteiro gelou de pavor e entorpecimento. Inspirei fundo e gritei:
— Não me pergunte por quê, mas a partir de hoje, sempre durma com a cama voltada para a porta. Confie em mim. Espere um mês, no máximo dois, e tudo ficará bem!
Sim, Zhang Xiuwen dormiu quatro noites naquela cama e só morreu dois meses depois. Isso significa que tenho pelo menos dois meses. Ou talvez até mais!
Uma semana depois, com o visto de turismo aprovado, embarquei para o Japão com uma mala pequena e um manual de japonês para iniciantes. Por dentro, estava tomado de medo e angústia: será que conseguiria desvendar o segredo da Caixa Negra e salvar a mim e a Zhang Wenyi da maldição? Para falar a verdade, eu não tinha nenhuma certeza.
Olhando as nuvens sendo cortadas pela asa do avião, uma sensação de confusão tomou conta de mim...
— Fim —
Fim da história. Aguarde pelo próximo conto: “A Caixa Fantasma”.