Capítulo Oitenta e Três: Queimando Zumbis (Parte Um)

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 2371 palavras 2026-02-09 16:20:10

— Aquele sujeito é realmente confiável?

De volta à hospedaria, contei tudo para Terceirinho, narrando os acontecimentos e exaltando as virtudes de Qiwei, elogiando-o da cabeça aos pés. A pequena raposa estava radiante, quase flutuando de tanta alegria. Terceirinho não aguentou mais, puxou-me para um canto e começou a questionar em voz baixa.

— Não é confiável — respondi, sem hesitar, balançando a cabeça.

— Então por que quer se unir a ele? — Terceirinho reclamou, indignado.

Sorri:

— Você mesmo disse que Qiwei, entre todos os da família Qi, ainda é o que mais parece humano.

Terceirinho resmungou:

— Parecer humano e ser humano são coisas bem diferentes. Não quero que Wenyi corra perigo!

— Fique tranquilo, vou cuidar disso. De qualquer forma, agora nossos objetivos são praticamente os mesmos. Seria um desperdício não aproveitar o que apareceu à nossa porta. Minha consciência não permitiria. — Dei-lhe um tapinha firme no ombro. — Mas conte-nos sobre o que descobriu hoje.

Terceirinho estava prestes a falar, mas o interrompi com a mão:

— Quando estiver diante daquela raposa, lembre-se: para usar alguém, primeiro é preciso fazê-lo acreditar que você confia plenamente nele.

— Noturno, você... — Terceirinho sorriu, amargurado. — Não acha cansativo viver assim? Seu modo de manipular as pessoas está anos à frente do que seria de esperar da sua idade.

— Não é da sua conta — lancei-lhe um olhar severo. — Se tem tempo para se preocupar com isso, seria melhor usar a cabeça para organizar os indícios que encontrou!

Apesar do desagrado, Terceirinho pegou papel e caneta, inclinou-se sobre a mesa e começou a desenhar enquanto explicava:

— Primeiro, investiguei a encosta. Segundo a descrição do Noturno, hoje cedo ele estava com Wenyi, mas de repente ela sumiu. Naquele momento, eu estava o tempo todo no saguão da pousada, e o porão só tem uma porta. Se Wenyi saiu pela entrada principal, eu teria visto. Por isso, suspeito que haja um corredor secreto no porão, provavelmente levando até perto do local onde Noturno desmaiou ontem à noite.

Ele traçou uma linha reta entre a pousada e a encosta, onde estivemos na noite anterior, e prosseguiu:

— Mas a encosta fica a pelo menos um quilômetro de distância, em linha reta, e nesse trecho há muitas casas, cada uma com poços profundos. Não consigo imaginar quem teria recursos para escavar um túnel tão longo e profundo.

— Há um problema — levantei a mão. — Por que você acha que o corredor secreto liga a encosta à pousada?

— É simples: peso! Você acha que é leve? Uma moça delicada como Wenyi, mesmo que conseguisse carregá-lo, não poderia fazê-lo por um quilômetro. E falo de quilômetro em linha reta, não da distância real. Além disso, tenho uma prova ainda mais forte. Noturno, pense: na noite em que o corpo de Xueyun desapareceu, Wenyi trancou você no quarto. Quanto tempo levou para chegar ao saguão?

— Uns vinte minutos — bati os dedos suavemente na mesa, calculando.

— Exato. Quando chegou ao saguão, nem o corpo de Xueyun nem Wenyi estavam lá. Como ela conseguiu mover o corpo tão rápido? E ainda teve tempo de matar um gato preto e drenar seu sangue!

Sorri, indiferente:

— Não sei se foi ela quem matou o gato preto. Também não descarto que ela tenha se escondido e esperado para me atacar. Lembrando que Wenyi já me deixou inconsciente mais de uma vez, só me resta rir.

— Mas também não pode descartar a possibilidade do corredor secreto — Terceirinho me lançou um olhar.

Assenti, ponderando:

— De fato, é possível. Mas já que diz que um túnel assim seria impossível de ser escavado por humanos, talvez seja uma formação natural? Na encosta, vimos vários buracos naturais. Se houver um especialmente profundo e longo, chegando ao porão da pousada, não seria impossível.

Terceirinho bateu firme na mão esquerda:

— Isso! Como não pensei nisso antes?

— Você... não passou o dia inteiro investigando isso, né? — De repente, algo me ocorreu e o encarei, espantado.

Terceirinho sorriu, constrangido:

— Desculpe, achei tão estranho que acabei investigando mais do que devia, e, sem perceber, já era noite.

— Seu idiota! — Senti uma vontade incontrolável de despedaçá-lo.

Nesse momento, Qiwei, que até então permanecia em silêncio ao lado, falou:

— Se querem saber se há um corredor secreto, é simples: basta procurar no porão.

— Não adianta. Passei a tarde inteira lá dentro, não encontrei nada — Terceirinho respondeu prontamente.

— Na verdade, não custa tentar de novo. Não temos outras pistas — ignorei-o e, junto com Qiwei, fui direto ao porão.

Já descrevi esse porão diversas vezes, mas cada vez que o vejo, a sensação de inquietação aumenta. Pensar que dormi uma noite naquele lugar amaldiçoado me dá arrepios.

Como quarto de hóspedes, o porão é bastante amplo, com mais de trinta metros quadrados, perfeitamente quadrado. Só há uma cama de solteiro, proporcionando uma visão clara do ambiente. A cama é do tipo comum, de molas, com espaço livre embaixo, sem nada de estranho.

Mas o lugar é mesmo desconfortável! Lutando contra o medo inexplicável, andei de um lado ao outro, pulando e vasculhando. Depois, comecei a bater nas paredes com um martelo, mas não achei nada suspeito.

— Estranho... Será que não existe corredor secreto? — murmurei, surpreso. Pela experiência, mesmo que o túnel esteja longe, batidas fortes costumam revelar sons de oco. Olhei para Qiwei, que também desistira e, resignado, deu de ombros.

— Chega. Vamos pelo método direto: procurar no local onde desmaiei ontem à noite — disse, impaciente, já saindo.

De repente, senti um olhar frio e penetrante nas costas. Forcei-me a não olhar para trás, pois sabia com certeza que o dono daqueles olhos era a astuta raposa Qiwei. Será que, de propósito ou sem querer, revelei algo que o deixou desconfiado de mim?

Ah, conquistar a confiança desse tigre não vai ser fácil. Preciso logo cravar um tridente em sua cabeça.

Talvez alguém se pergunte por que dou tanta importância ao corredor secreto do porão. É fácil entender: se realmente existe um caminho que facilita o transporte de coisas e a obtenção de informações, eu não me afastaria muito dali. Tudo se simplifica: basta encontrá-lo, segui-lo até o outro extremo e, com sorte, chegar até Zhang Wenyi sem grandes dificuldades.

Hoje é minha quarta noite em Vila da Montanha Negra, e a cada dia os acontecimentos se tornam mais estranhos. As bruxas daqui são ainda mais alarmistas: avisaram que, se até o pôr do sol de amanhã não encontrarmos o corpo de Zhang Xueyun, ela se transformará em um espírito vingativo, trazendo desgraça e destruição para todo o vilarejo.