Capítulo Sessenta e Oito: O Assassino Estranho

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 2532 palavras 2026-02-09 16:19:26

— Quem é você?
— Sou Li Xuren.
— Por que matou Zhang Xiuwen?
— Eu matei Xiuwen? Com que base diz que fui eu? Policial, tem provas?
Sentei-me à sua frente e sorri, olhando diretamente em seus olhos. Disse calmamente:
— Ela era sua namorada, não? Ela morreu, por que você consegue permanecer tão calmo?
Li Xuren não desviou o olhar nem por um instante e respondeu, surpreso:
— Existe alguma lei neste mundo que diga que, se a namorada morre, não se pode manter a calma?
Seus olhos, cheios de veias avermelhadas, não demonstravam a menor fadiga; seu ânimo era estável, e quase não se percebia que aquele sujeito estava há quarenta horas sem dormir. Realmente, um sujeito estranho.

Levantei-me e disse:
— Existem pessoas que preferem enterrar seus sentimentos, não importa o quanto sofram; jamais demonstram o que sentem. Você é assim?
Li Xuren levantou a cabeça e me encarou, respondendo pausadamente:
— Você acha que sou esse tipo de pessoa?
— Sim — respondi sem hesitar.

Li Xuren de repente caiu numa gargalhada estrondosa, como se tivesse escutado a maior piada do mundo, quase desmontando o rosto de tanto rir. Depois de um bom tempo, conseguiu conter-se e, zombando, comentou:
— Não imaginei que você fosse tão espirituoso.
— O mesmo digo de você — retruquei sem me ofender. Continuei:
— Você é impressionante. Só com palavras conseguiu deixar todos neste departamento de polícia à beira de um ataque de nervos. Mas tenho uma dúvida: por que alguém tão qualificado como você viria abrir uma clínica de psicologia nesta cidadezinha esquecida? Não teria oportunidades melhores numa grande metrópole?
— Adivinhe — disse ele, com um olhar astuto. Depois, num tom levemente sarcástico, prosseguiu:
— Aposto que, por mais que tente, nunca vai descobrir. Assim como eu não entendo por que um bando de loucos deste departamento deixaria um pirralho sem nem um fio de barba me interrogar.

Fiquei um pouco surpreso; não imaginei que ele perceberia minha idade apenas com dois olhares. Droga, eu sabia que não devia confiar no Wu, aquele que vive maquiando cadáveres! Cocei a cabeça, forcei um sorriso e disse:
— Na verdade, você deveria adivinhar. Se fui eu escalado para interrogá-lo, é porque tenho meios de fazê-lo dizer a verdade.
— Tanta autoconfiança assim? — Li Xuren também sorriu, mas o canto da boca mantinha aquele ar irritante de desprezo, como se debochasse da minha falta de juízo. Ele soltou um longo suspiro:
— A juventude é realmente maravilhosa, os jovens sempre tão cheios de energia.
— Você também só tem vinte e quatro anos, ainda está longe de envelhecer.

— Eu? Vinte e quatro anos? — Os olhos de Li Xuren ficaram turvos; ele sorriu amargamente:
— Vinte e quatro anos! Sim, é verdade, tenho vinte e quatro. Ah, também sou jovem.
O que ele queria dizer com isso? Por que falava de modo tão confuso, como se nem tivesse certeza da própria idade? Hum, será que queria me enrolar?

Franzi as sobrancelhas e fiquei observando-o por um tempo. Li Xuren de repente levantou a cabeça, sorriu para mim e disse:
— Não estou tentando enganá-lo, foi só um impulso de emoção.
Senti um frio percorrer minha espinha. Ele realmente adivinhou o que eu estava pensando.

— Esqueça — suspirou, murmurando:
— Meu jovem, já pensou como este mundo é perverso?
— Perverso? — meu coração acelerou, pressentindo que o espetáculo ia começar. — Desculpe, não acho isso.
— Haha, por isso digo que você ainda é jovem — disse Li Xuren, com um tom grave:
— As pessoas deste tempo adoram dualidades, dividem tudo em dois: homens e mulheres, bons e maus... Eles acreditam que essas divisões são absolutas, mas será mesmo? Um homem pode mudar de sexo e virar mulher, e um bom sujeito, diante de certas situações, pode se tornar mau. Portanto, divisões absolutas são absolutamente relativas.
— O que quer dizer com isso? — perguntei, franzindo ainda mais o cenho.
— Nada demais. Só acho que não percebe o quão perverso é tudo isso.
— E qual é o problema? Onde está a perversidade? — retruquei, rindo friamente. — Suas palavras não fazem sentido algum para mim.
— Não, você vai entender. Um dia você vai — ele se endireitou e me fitou nos olhos. — Já ouviu esse enigma psicológico, feito por um mestre da área a seus alunos antes de morrer?
— Ele perguntou: se existe um homem astuto, um canalha dissimulado que passou a vida inteira fingindo ser um cavalheiro, nunca praticou nenhum mal, só fez o bem, mas tudo com o objetivo de realizar um grande plano maligno. Supondo que, prestes a concretizar seu plano, ele morra de repente, diga, ele é um homem bom ou mau?

Respondi sem hesitar:
— Ora, é claro que ele...
Mas a resposta morreu na garganta. Fiquei com a cabeça zonza.

Sim, ele era bom ou mau? Bom, pois fez só boas ações, mas foi por interesse! Então ele seria mau, mas... na verdade, nunca praticou o mal. Esse dilema é tão insolúvel quanto a pergunta sobre o que veio antes, o ovo ou a galinha. Não há resposta fácil!

Li Xuren sorriu enigmaticamente, com uma expressão de fervor quase insano no rosto:
— Viu? Você sentiu! Não acha que tudo é perverso neste mundo?

Meu rosto empalideceu; demorei um pouco até balançar a cabeça e dizer devagar:
— Sei onde quer chegar, mas isso não significa que haja perversidade nisso.
Sim, entendi o sentido da questão de Li Xuren: ele queria me transmitir sua visão, uma ideia de negação absoluta.

Continuei:
— Talvez todos ajam por algum motivo, seja para o bem ou para o mal, mas isso é normal. Quem age sem motivo? E mesmo que alguém faça o mal, não significa que seja apenas por interesse pessoal.

O fervor desapareceu do rosto de Li Xuren; decepcionado, ele voltou o olhar para o teto, sem mais se dignar a olhar para mim. Depois de um longo silêncio, disse friamente:
— Pode ir. A partir de agora, não direi mais uma palavra.

— Você está brincando? Ele disse que não ia mais falar e você saiu assim? — meu primo, Ye Feng, quase deixou cair o queixo de espanto. — Desde quando você ficou tão fácil de convencer?
Respondi, largado na cadeira:
— Não havia o que fazer. Você viu que ele não é uma pessoa comum. Se disse que não fala mais, aposto que, mesmo que eu ficasse cem anos com ele, ficaria mudo esse tempo todo. Além disso, a sessão não foi inútil. Pelo menos, tenho certeza de uma coisa.
— Grande amigo! — Ye Feng sorriu e me deu um tapinha no ombro, cochichando:
— De que você tem certeza?
— Li Xuren não é o assassino.

Ye Feng espantou-se:
— Não é o assassino? Aquele cara cheio de discurso sobre o mundo perverso não é o assassino? Tem provas?
— Nenhuma, é puro sexto sentido! — sorri ingenuamente para ele.

— Sex... sexto sentido?! — O rosto de Ye Feng ficou vermelho, seus olhos se arregalaram e ele quase pulou, apertando a garganta para não me xingar e, quem sabe, lembrar minha mãe, sua tia, de forma nada educada.

Ao sair do departamento, meu sorriso sumiu por completo. Li Xuren, esse cara é realmente interessante. Hehe, parece que preciso investigar a fundo esse sujeito.