Capítulo Um: Invocando o Espírito da Porcelana

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 4047 palavras 2026-02-09 16:13:28

Depois do primeiro encontro com o que parecia ser um fantasma, deixei minha terra natal. Quase não voltei mais e, num piscar de olhos, já era tempo de terminar o ensino fundamental e ingressar no ensino médio.

Meu pai, preocupado com meu futuro, matriculou-me numa turma de elite de uma escola famosa. Vale mencionar que, àquela altura, ele já havia deixado para trás a pobreza de outrora e se tornado um empresário e proprietário de imóveis muito renomado na região. Com o bolso mais cheio, também se desfez da minha mãe e casou-se com uma mulher bonita, mais de dez anos mais nova que ele.

Olhando para trás, acredito que foi esse choque que transformou meu temperamento, de extremamente travesso para silencioso e contido.

Para ser sincero, naquela época eu realmente não gostava do meu pai, que se tornara arrogante e pretensioso, parecendo um típico novo-rico, só que com um pouco mais de educação que os demais. Por isso, quando ele disse, com aquele rosto severo, que se fosse para a escola de elite teria que morar lá, aceitei sem hesitar!

Ele ficou surpreso, claramente contrariado. Provavelmente pensava que eu não suportaria ficar longe dele.

Assim adentrei outro mundo, um universo feito só de gente rica — justamente o tipo de ambiente que mais desprezava. Podia-se dizer que era um inferno repleto de pequenos tiranos, onde os abastados se esmeravam em ser mimados e caprichosos.

Nesse mundo estranho, sentia apenas que todos eram difíceis de lidar, cada um com uma personalidade insuportável. Como não os respeitava e desprezava suas disputas de status, mantinha-me afastado, sem vontade de socializar. Acostumado à vida simples, quebrei as regras de ostentação tácitas da turma, e por isso, aqueles que se achavam superiores passaram a extravasar em mim sua prepotência.

Desabafos à parte.

Em resumo, apanhava bastante, até que, num fim de semana, meu pai enviou o motorista para me buscar na escola. Sob olhares atentos de todos, entrei calmamente no carro de luxo, e a turma inteira arregalou os olhos de surpresa.

Sorri. Pela primeira vez, senti o peso do dinheiro.

Depois disso, aqueles valentões converteram toda a raiva que tinham de mim em elogios intermináveis, como o fluxo incessante do rio Yangtzé.

Assim, o tempo passou em relativa tranquilidade até o terceiro ano do ensino médio. Embora todos fossem gentis comigo, eu ainda preferia a solidão, sem considerar dignos de amizade aqueles que agora me bajulavam.

Mas essa paz não durou. Até que, certo dia, Zhang Wen me chamou: “Ei, Xiao Ye, quer um pouco de emoção hoje à noite?”

“O que vocês estão aprontando agora?” Zhang Wen, o rei das travessuras, sempre tinha ideias malucas.

Ele se aproximou, com ar misterioso: “Já ouviu falar do espírito do copo?”

Fiquei surpreso: “Vocês querem invocar aquilo? Dizem que, se não conseguir mandá-lo de volta, coisas horríveis acontecem.”

Zhang Wen deu de ombros, como um especialista: “A chance de não conseguir é mínima. E se chamam de espírito, é porque não faz mal à toa.”

Franzi a testa: “Essas coisas sobrenaturais é melhor evitar. E, além disso, não está explícito no regulamento escolar que é proibido brincar com isso?”

A escola realmente era excêntrica ao escrever tal proibição nas regras, o que deixava tudo ainda mais estranho.

Ele riu: “Como vai encarar a prova surpresa de matemática? Dizem que, se invocar o espírito do copo, pode perguntar qualquer coisa. Olha, mesmo que sua matemática seja melhor que a nossa, ainda está longe de passar.”

De fato, nunca fui bom em matemática. Mas daí a recorrer ao sobrenatural? E só de ouvir falar nisso, sentia calafrios.

“Não vou participar.” Neguei sem hesitar.

“Sério?”

Sem paciência para ele, virei as costas e fui embora.

Mas ainda ouvi sua voz: “Hoje à meia-noite, eu, você, Urso, Pato e Xue Ying, cinco pessoas na sala de aula. Não falte!”

Desgraçado! Ele realmente não se importa com a opinião dos outros.

No fim, naquela noite, acabei indo. Nem sei explicar o porquê. Talvez, no fundo, sempre tive curiosidade por essas coisas misteriosas.

Meia-noite.

A noite cobria todo o vasto colégio.

Diziam que a escola fora construída sobre um antigo cemitério, e que, ao cair da noite, fantasmas revoltados vagavam pelo campus. Claro que não acreditava nessas histórias, mas ao ver o prédio solitário mergulhado na escuridão, não pude evitar um arrepio na espinha. De fato, as lendas assustadoras do colégio tinham muito a ver com o contraste entre o ambiente de dia e à noite.

No caminho, encontrei Xue Ying, a garota mais bonita da turma. Fiquei surpreso ao vê-la ali, pois ela não tinha notas ruins.

“Vamos mesmo fazer isso?” Xue Ying puxou minha manga, assustada.

“Não foi vocês que planejaram? Só estou aqui de penetra, nem sei por que me trouxeram.” Respondi friamente.

“Fiquem quietos, se o segurança ouvir estamos ferrados.” Pato sussurrou, abrindo devagar a porta da sala. Entramos os cinco.

Puxei uma cadeira, sentei e observei indiferente enquanto os outros arrumavam as mesas, acendiam velas, estendiam o papel com o diagrama do bagua e, por fim, pegavam um pratinho de óleo, como nas oferendas ao deus da cozinha. Equipamento simples, mas talvez fosse justamente isso que tornava o jogo tão popular.

“Quem começa?” Urso segurava o pratinho. Era o valentão da turma, seu tamanho intimidava muitos.

Silêncio.

Depois de um tempo, Pato disse: “Acho que o mais racional aqui é o Xiao Ye. Ele e Xue Ying deviam ser os primeiros. Um casal de belos sempre dá sorte. Que tal?”

Pato era o capanga do Urso, medroso e submisso.

Resmunguei: “Já disse que só vim para ver, não vou participar. Além disso, Zhang Wen não se gabou dizendo que ninguém teria coragem de enfrentá-lo? E aí, cadê tua bravura?”

“Quem… quem fugiu?” Gaguejou. “Tá bom, eu vou. No máximo, se der errado, na próxima vida serei um herói.” Sentou-se à mesa.

“Vou em segundo”, disse Urso. “Se nós dois não conseguirmos, passamos para o próximo, até todos tentarem. Fechado?” Como ninguém discordou, decidiu: “Então vamos começar.”

Zhang Wen e Urso, sentados, estavam visivelmente tensos. Afinal, o mistério em torno do espírito do copo despertava tanto curiosidade quanto medo.

“Espírito do copo, venha do outro lado da madrugada. Espírito do copo, venha das profundezas frias da terra, atravesse a escuridão, cruze os rios…” Cada um pressionava uma ponta do pratinho com o dedo indicador, recitando o mantra.

Três minutos se passaram e nada aconteceu. Outros três minutos e tudo continuava igual.

Zhang Wen suspirou aliviado: “Próximo, próximo.” Saltou e bateu na mão de Pato.

“Posso não jogar?” Mal terminou a frase, o olhar de Urso o intimidou. Encolheu a cabeça.

“Tudo bem, tudo bem. Eu jogo. Não precisa me encarar!” Sentou-se tremendo e pousou o dedo indicador tão delicadamente no pratinho que parecia temer que ele o mordesse.

O mantra ecoou outra vez, mas nada ocorreu.

“Agora é a vez da Xue Ying.” Urso avisou.

“Não é justo, Xiao Ye nem participa. Acho melhor desistir, esse jogo é assustador!” Xue Ying protestou, escondendo-se atrás de mim, embora normalmente fosse arrogante e altiva.

“Então, Xiao Ye fica por último”, disse Urso.

“Não vou jogar.” Repeti.

“É só uma brincadeira para testar coragem, não precisa levar tão a sério.”

“Não tenho interesse.” Insisti. Agora penso que, com toda minha curiosidade, era estranho recusar repetidamente um jogo sobrenatural desses. Talvez meu sexto sentido já intuísse que algo ruim estava para acontecer.

“Xiao Ye, toca no pratinho só um pouquinho, assim conta que você participou.” O tom de Urso era ríspido, quase ameaçador: “Você não quer que amanhã a escola inteira saiba que Xiao Ye é um covarde, quer?”

“Xiao Ye!” Xue Ying suplicou com um olhar.

Ah, nunca liguei para nada na vida, mas nunca soube dizer não a um pedido de uma garota bonita, mesmo não tendo muita simpatia por Xue Ying.

“Só vou encostar um pouco.” Suspirei e estendi o dedo indicador.

Minha intenção era apenas tocar de leve e pronto, mas algo surpreendente aconteceu quando tentamos tirar o dedo.

O pratinho mexeu!

Naquele instante, os cinco na sala ficaram paralisados, hipnotizados pelo movimento do pratinho. Deslizava silenciosamente, levando nossos dedos pelo papel com desenhos do bagua, como se procurasse algo.

Recuperei-me rapidamente. Tentei tirar o dedo, mas percebi, surpreso, que uma força estranha grudava meu dedo ao pratinho. Lutei com todas as forças e consegui soltar.

Xue Ying não teve a mesma sorte; seu dedo continuava preso.

“Tira a mão daí!” Gritei, confuso com a situação bizarra.

“Não consigo soltar!” Ela chorava de medo, aos prantos.

“Como assim?” Corri até ela e puxei com força sua mão, e, furioso com os outros três, gritei: “O que estão esperando? Venham ajudar!”

Com meu grito, eles despertaram — mas, para minha surpresa, começaram a berrar “Fantasma!” em pânico e fugiram da sala sem olhar para trás.

Chamei-os de traidores, e, tomado pela raiva, puxei forte até conseguir soltar. Curiosamente, mesmo com tanta força, o pratinho não se levantou da mesa, mas, desafiando todas as leis da física, continuava deslizando loucamente sobre o papel.

Xue Ying e eu fugimos sem olhar para trás.

Ao passar pela porta, olhei para trás instintivamente e vi, surpreso, que o pratinho se movia entre três caracteres.

Esses caracteres eram: “À”, “beira”, “d’água”!

Em seguida, ouvi um “clac”, como se o pratinho tivesse caído e se quebrado no chão.

À beira d’água? O que significava aquilo? Será que o espírito realmente apareceu e queria nos passar uma mensagem?

Fugimos os cinco, e nada nos aconteceu. Não quebramos ossos, não caíram nossos cabelos. Parecia que tudo tinha acabado…

Mas será que realmente terminava assim tão fácil?

Talvez não fosse tão simples! Os acontecimentos seguintes me mostraram, de forma cruel, que aquilo era apenas o começo de uma sequência de tragédias.

No campo, pássaros noturnos gritavam de forma lúgubre; seus sons aterrorizantes, um após o outro, soavam como notas de um presságio, anunciando que o terror estava prestes a chegar…