Capítulo Dezenove: A Dama Fantasma
No dia seguinte, depois de muito pensar, finalmente fui até a delegacia contar onde o Pato havia morrido, e assim a escola mergulhou novamente no caos.
Os policiais abriram o abrigo antiaéreo e, na seção abaixo do canteiro de obras, encontraram dois corpos masculinos. Um deles era, de fato, o do Pato, inchado por ter ficado imerso em água suja. O legista constatou que ele morrera de infarto agudo do miocárdio, e o tempo da morte... foi duas horas antes do encontro com aqueles alunos do primeiro ano!
Então, quem era a pessoa que naquela noite esteve com aqueles garotos? Seria mesmo um fantasma?
O segundo cadáver tornou tudo ainda mais misterioso. Ficara jogado no abrigo antiaéreo por vários anos, restando apenas ossos e cabelos corroídos pela água. O legista não conseguiu identificar sua aparência, mas por sorte encontraram uma carteirinha escolar junto ao corpo, revelando sua identidade — ele era ninguém menos que o estudante do segundo ano, Wang Qiang, cuja misteriosa desaparição cinco anos atrás, após ouvir um choro de bebê perto do coreto, havia se tornado lenda na escola.
Em menos de um mês, várias mortes seguidas e, entre elas, a perda do filho amado do diretor. Evidentemente, a escola não queria que tais fatos se espalhassem, e o dinheiro mais uma vez falou mais alto.
Já os alunos ficaram à mercê de tudo. Não só os preços de qualquer coisa dentro da escola subiam loucamente, como também surgiam taxas de todos os tipos, justificadas ou não.
Depois daquele dia, senti-me exausto, pedi uns dias de licença e voltei para casa. Minha cidade natal era próxima, bastava meia hora de carro até a vila vizinha. Meu pai, é claro, já sabia dos acontecimentos na escola, mas, diferentemente do habitual, não me perguntou muito.
— Ah, nada como estar em casa... — murmurei, de pé diante da janela do meu quarto, observando a fonte no centro do jardim no terraço, que, sob a forte chuva, lançava jatos espumosos como ondas brancas.
Mesmo após dias de quase isolamento, o coração continuava inquieto. Havia ainda uma dúvida... Quem seria o próximo a morrer? Seria Xue Ying? Ou eu?
Cansado de ficar de pé, liguei a televisão e sintonizei o canal local. O telejornal do meio-dia tinha começado há pouco, e assistia distraidamente, captando vagamente a notícia de mais um suicídio por salto, ocorrido na manhã anterior.
— Por que será que as pessoas estão tão entediadas hoje em dia... Será que não dão valor algum às próprias vidas? — resmunguei, aumentando o volume para descobrir quem era a nova vítima.
Na tela, começaram a exibir a foto do suicida, mas antes que eu enxergasse direito, ouvi um som vindo do térreo.
Ding... ding... era a campainha. Olhei pela janela: uma garota de vestido branco estava do lado de fora. Não conseguia ver seu rosto de cima, mas a silhueta era familiar, de corpo esguio.
Ao descer, para minha surpresa, era Xue Ying!
Ela estava completamente encharcada, o rosto tomado pelo pavor, e assim que me viu, agarrou-se a mim, chorando descontroladamente...
Seu corpo era macio, mas assustadoramente frio, provavelmente por estar ensopada pela chuva... Céus! Fiquei totalmente confuso. — O que... o que aconteceu?! — Nunca fui bom em consolar garotas, criaturas tão emotivas que sempre fazem coisas que não entendo.
Depois de quase uma hora tentando acalmá-la, ela trocou de roupa e sentou-se.
— Vinho ou café? — perguntei.
— Tanto faz — respondeu ela, a voz ainda trêmula... Ah, queria mesmo saber que coisa tão terrível havia ocorrido.
Segurei minha curiosidade e, só depois que ela tomou alguns goles de vinho, perguntei suavemente: — Pode me contar agora... Por que veio até aqui? E por que está tão assustada?
Xue Ying assentiu e disse: — Pode me dar sua mão? — Antes que eu reagisse, ela já a segurava com força, como se buscasse coragem ou quisesse confirmar que eu realmente estava ali. Só então começou a contar:
— Hoje de manhã fui à aula como de costume, mas na terceira matéria comecei a me sentir mal, com muito sono. Pedi licença ao professor e voltei mais cedo para o dormitório descansar.
— Normalmente, naquele horário todos estão em aula, quase ninguém fica no dormitório. Mas ao abrir a porta do meu quarto, vi uma garota mais velha sentada de costas na minha cama, vestindo um vestido azul-violeta. Achei que tivesse entrado na sala errada, pedi desculpas rapidamente e saí.
— Mas ao conferir a placa, não tinha erro! Era mesmo meu quarto! Voltei e disse: “Moça, você entrou no quarto errado.” Ela não se virou nem respondeu, apenas continuou sentada, imóvel.
— “Ou será que está esperando alguém? Talvez minha colega de beliche, Zhang Jia?” — insisti, observando-a e me aproximando. O vestido dela era muito antigo, devia ser de mais de dez anos atrás, e tinha até alguns remendos na barra, mas estava limpo e simples.
— “Numa escola tão elitista, aceitaria uma aluna tão pobre?” — pensei, sentindo até uma pontinha de pena. — “Moça, seu vestido está rasgado... Troque por um novo, comprei uns ontem, mas ficaram grandes para mim. Em você devem servir, quer experimentar?”
— Ela continuou muda, sem olhar para mim, sem qualquer reação, como se estivesse completamente sozinha naquele quarto. Pensei que talvez tivesse dito algo errado. Ah, não! Dizem que alunos mais pobres sentem-se inferiores na cidade grande, talvez eu tenha ferido seu orgulho. Isso não é bom! Apressei-me: “Não quis dizer isso!”
— Finalmente ela reagiu, virou-se lentamente para mim. Ai! Ela... ela não tinha rosto! Ou melhor, onde deveriam estar os traços, havia apenas um vazio, como um desenho de rosto contornado e cabelo... mas sem feições!
— Gritei e saí correndo, mas ouvi nitidamente, atrás de mim, sua risada estranha e fria, repetindo: “Perto da água... tem mais um... perto da água... tem mais um... hehehe... hahahaha...”
Enquanto contava, Xue Ying apertava tanto minha mão que quase cravou as unhas na minha pele. Era fácil imaginar o terror em seu coração!
— Então você veio me procurar? — perguntei sem demonstrar emoção.
Ela assentiu.
Suspirei: — Já está quase na hora do almoço, venha comer comigo. Depois te levo de volta à escola.
— Não! Não quero voltar! — gritou ela.
— E o que pretende fazer? Vai morar aqui? — questionei.
— Por que não? — disse, confusa.
Fiquei entre o riso e o choro diante de tamanha ingenuidade. — Claro que não pode! Pense, uma garota tem casa, mas decide dormir na casa de um rapaz. Aí alguém pergunta: “Ei, dois jovens saudáveis passaram a noite juntos, o que será que aconteceu?” E outro responde: “O que mais podia ser?” E quando os boatos começarem, eu até aguento, mas você...
— E daí? — retrucou ela, sem se importar. — Estou quase perdendo a vida, quem liga para isso? Além disso, você prometeu me proteger!
— E estou protegendo... sua reputação.
— Mas se me levar de volta, vou ficar com medo!
— Não há motivo para temer — sorri. — Da próxima vez, não ande sozinha.
— Mas...
— Sem mas.
— Você realmente não vai me acolher?
— É para o seu bem.
— Então tá bom! Seu cabeça-dura, volto agora mesmo, satisfeito? — Ela saiu, aborrecida.
— Ei, precisa exagerar? Eu te acompanho! — Peguei o casaco e fui atrás.
Ah, é por isso que detesto mulheres indecisas. Esse jeito inconstante me deixa perdido. A gente se preocupa com elas e ainda leva bronca!
No ônibus de volta à escola, Xue Ying parecia ter esquecido a raiva.
Na entrada do dormitório, pediu: — Pode ficar comigo mais um pouco? Se eu for para a aula, o professor vai me dar uma bronca daquelas...
— Não é boa ideia. Se alguém me ver no dormitório feminino, estou perdido.
— Que nada, está todo mundo em aula! Ou você não se preocupa comigo? E se aquilo aparecer de novo? — Ela me puxou para dentro.
Suspirei resignado.
Era minha primeira vez num dormitório de garotas, tão limpo e organizado, bem diferente da bagunça dos rapazes. A cama de Xue Ying era a de baixo, junto à janela, com lençóis azul-claros e o cobertor dobrado com perfeição.
— É, combina com ela, tudo arrumado, parece que nem foi usada ontem — pensei. Mas logo estranhei: por que tive a impressão de que a cama não foi usada à noite?
Sentamos na beira da cama, em silêncio. Ela me olhou um instante, depois fitou a janela.
— Gosto de observar aquela árvore grande em frente. Às vezes vejo um ninho de pássaro nos galhos. Lá tem um papai, uma mamãe e um filhotinho. Ele ainda não sabe voar, só fica piando, esperando os pais voltarem — disse sorrindo.
— Então continue observando, até o dia em que o filhote aprenda a voar e migre com os pais no outono — comentei.
— Mas será que ele volta?
— Deve voltar...
— Jura?
— Ah, quem pode jurar?
Ela ficou me olhando, imóvel, e de repente disse, num tom inocente: — Acho que o filhote vai voltar sim, sozinho, e ali, no ninho onde nasceu, vai formar sua família. Porque ele não consegue deixar esse lugar, nem quem ama, mesmo que essa pessoa não saiba ou não goste dele...
— Mas mesmo assim, ele vai amar em silêncio. E mesmo sem ter esse amor para si, fará o outro nunca se esquecer dele, nem que custe a própria vida. Só por esse alguém... Você acha que o pássaro é tolo?
— Não, talvez seja apenas seu destino, do qual não pode escapar — respondi, tocado pela emoção dela.
Nesse momento, o sinal do fim da aula tocou ao longe. Sem perceber, o tempo tinha passado.
— Bom, tenho que ir. Se alguém me vir aqui, vão me chamar de pervertido.
Xue Ying me olhou com tristeza e dor, como se fosse a última vez que me visse ou visse o mundo. Ela me segurou, depois hesitou e soltou.
De repente, levantou a cabeça e pressionou seus lábios rosados nos meus. Fui pego de surpresa, sentindo apenas que sua boca era macia, porém gelada, tão gelada que doía o coração...
Naquele instante, um flash da foto do suicida no telejornal passou pela minha mente... Era Xue Ying.
— Não! Não pode! Não deveria ser assim! — gritei, desesperado.
Mas ela apenas sorriu docemente: — Fiz tudo isso por você. Quero que nunca me esqueça!
O vento voltou a soprar, passando pela copa da árvore e silenciosamente arrancando as folhas secas. Um passarinho piava, agitando as frágeis asas, dando seu primeiro passo para longe do ninho...