Capítulo Dezessete: A Distância Entre a Vida e a Morte (Parte Um)
O que é sonambulismo súbito? Para compreender isso, primeiro é preciso entender o que é narcolepsia.
Trata-se de um distúrbio grave do sono que pode ocorrer a qualquer momento. A pessoa acometida pode ter episódios a qualquer hora do dia, durante atividades cotidianas: pode acontecer enquanto caminha, conversa ou mesmo ao dirigir.
O sonambulismo súbito é uma manifestação que ocorre dentro do quadro de narcolepsia. As causas desse tipo de sonambulismo ainda são desconhecidas; sabe-se apenas que, na maioria dos casos, manifesta-se entre os dez e vinte anos de idade.
Segundo estudos de psicólogos, a narcolepsia atinge cerca de duas a dez pessoas a cada dez mil, e os que podem desenvolver sonambulismo súbito são ainda mais raros.
Enquanto eu estava sentado na sala de aula, observando Xue Ying dormir profundamente em meu colo, balancei a cabeça. Conheço Xue Ying há pouco mais de dois anos; embora só recentemente tenha passado a me aproximar e reparar mais nela, nunca percebi nada de diferente em seu comportamento. Ela não deveria ser portadora de sonambulismo súbito.
Então, como explicar o que aconteceu com ela há pouco tempo?
Não faço ideia.
Será que Xue Ying havia mesmo sido possuída por um espírito? Será que o espírito que evocamos acidentalmente com o tabuleiro, há mais de uma semana, a possuiu? Só de pensar nisso, balancei a cabeça com força, sem querer continuar.
Um famoso filósofo disse uma vez: “O que é superstição? Quando alguém se apega obsessivamente a algo, idolatra, venera, exclui ideias contrárias e se força a não aceitar nada que contradiga aquilo, isso é superstição.”
Talvez, ao longo do tempo, eu também tenha começado a ser supersticioso, mas em relação à ciência e tudo aquilo que pode ser explicado e deduzido logicamente.
No entanto, uma série de acontecimentos recentes à minha volta tem minado a minha convicção e torturado meus pensamentos. Cheguei até a duvidar se minha inteligência era mesmo tão alta quanto sempre imaginei...
Xue Ying se virou em meu colo, abrindo lentamente os olhos sonolentos. “Como vim parar aqui?” Ela me olhou preguiçosamente, surpresa, mas continuou deitada em minhas pernas, sem vontade de se levantar.
“Você desmaiou há pouco. Eu tive que carregá-la de volta para a sala.” Não queria preocupá-la, então disse uma pequena mentira inofensiva.
Xue Ying passou os dedos pelos cabelos despenteados de tanto dormir, esforçando-se para lembrar de algo, até que de repente sorriu para mim: “Tive um sonho horrível. Sonhei que fui enterrada viva em um buraco escuro e assustador, sem enxergar nada ao redor. Tentei desesperadamente sair de lá, mas era impossível. Sentia meus membros completamente imóveis, como se estivessem sendo pressionados por alguma coisa.
“Tudo estava silencioso, e além dos meus gritos, só conseguia ouvir, do outro lado da parede, o som fraco de água correndo. Foi terrível, realmente terrível!” Xue Ying me abraçou com força, tremendo mais uma vez.
“Não tenha medo, estou aqui com você!” Maldição, será que vai acontecer de novo?! Assustado, abracei-a com força, deitando-a no chão comigo.
Para minha surpresa, Xue Ying ficou imóvel, não resistiu. Senti seu corpo enrijecer, e através da roupa fina pude perceber seu calor aumentando.
Ao notar que a situação parecia diferente da anterior, abaixei a cabeça, surpreso, quase tocando os lábios rosados e delicados de Xue Ying.
Ela me fitava com os olhos grandes e brilhantes, com um olhar doce e levemente envergonhado, enquanto sorria suavemente.
Fiquei paralisado, mantivemos aquele olhar, separados apenas pela ponta do nariz, por um bom tempo. Quando me dei conta da situação, tentei levantar-me, constrangido, mas Xue Ying rapidamente me envolveu o pescoço com os braços. Ela passou a língua nos próprios lábios, fechou os olhos.
Pronto! Aquele seu jeito, se oferecendo sem reservas, estava destruindo minha resistência.
Senti minha cabeça abaixar devagar, o rosto perfeito dela tornando-se cada vez mais próximo, até ficar tão perto que tudo se tornava um borrão... As respirações ofegantes se misturavam, se encontravam e se dissipavam.
Por fim, ouvi um estalo na mente, como se tudo tivesse se partido... minha razão havia desaparecido por completo...
No exato momento em que minha vontade se esvaía, um barulho vindo do lado de fora da sala nos despertou, alguém revirando objetos. Recobrei os sentidos de imediato.
“Ouviu isso? Parece que alguém está procurando algo na sala ao lado.”
Levantei-me e cutuquei Xue Ying. Ela abriu os olhos, o rosto corado, não querendo sair dali. “Tão tarde, quem iria à toa no prédio da escola?” Ela fez cara feia para mim, claramente me chamando de covarde, idiota, tapado e tudo mais que pudesse ofender minha falta de romantismo.
Sorri amarelo, puxei-a comigo e fomos sorrateiramente até a janela da sala ao lado, espiando com cuidado.
Vimos um homem de mais ou menos um metro e setenta e cinco, agachado no canto direito da sala, revirando papéis e documentos espalhados do armário.
Coloquei o dedo indicador nos lábios, olhei para Xue Ying, e me movi lentamente para a esquerda, tentando ver o rosto do homem. Mas, sem querer, esbarrei na lixeira.
O homem se assustou, levantou-se num pulo e, sem hesitar, saiu correndo e sumiu de vista.
“Droga!” Fiquei frustrado, segurando a cabeça e chutando com força a lixeira que tinha me feito tropeçar.
“Aquele ladrão é mesmo azarado, foi roubar justo um escritório abandonado!” Xue Ying comentou, rindo.
“Acha mesmo que ele é burro? Não me parece.” Entrei no escritório que o ladrão havia arrombado e perguntei: “Sabe por que esse escritório foi abandonado?”
Xue Ying pensou e respondeu: “Dizem que há mais de dez anos, uma professora tímida não aguentou o bullying de seus alunos e se enforcou aqui dentro. Depois disso, ninguém teve coragem de usar esse lugar. Os professores sempre diziam que o ambiente era sombrio, e à noite aconteciam coisas estranhas. Por isso, exigiram que a escola fechasse a sala. Acho que foi por esse motivo.”
“Exato.” Liguei a lanterna e comecei a vasculhar o lugar onde o ladrão estivera, enquanto comentava: “São quatro escritórios neste prédio, não é? Reparou que os outros não foram mexidos? Por que ele escolheu justamente este, que não é de fácil acesso? Tem algo errado.”
“Xiao Ye, acho que você está exagerando.” Xue Ying torceu a boca, duvidando da minha teoria.
Fui analisando os documentos até que, de repente, estremeci, levantei a cabeça, rígido, e disse: “Dessa vez, nem que eu queira, não consigo mais duvidar.”
Entreguei um dos documentos para Xue Ying, que o leu e ficou boquiaberta: “Quem diria! O filho do diretor, Zhong Dao, também era aluno da turma 3 do terceiro ano, na sexagésima segunda geração! Ele era colega de Zhou Jian e da Li Ping, que foi estuprada por ele!”
O que eu havia encontrado era um dossiê escolar de Zhong Dao.
Por alguma razão, sentia que estávamos cada vez mais próximos da verdade. Eu tremia, olhando para Xue Ying com emoção.
Ela pensou, preocupada. “Pelo menos, agora temos a pista mais clara: Zhou Jian, Zhong Dao e Li Ping eram colegas. Se partirmos daí, será que o triângulo amoroso envolvendo Li Ping não aconteceu justamente entre eles?”
“Brilhante!” Aplaudi sua dedução e acrescentei: “Além disso, precisamos confirmar algumas coisas. Primeiro, se aquelas roupas e peças íntimas rasgadas eram mesmo de Li Ping. Segundo, por que o crachá de Zhou Jian estava entre os retalhos das roupas. Terceiro, se aquele triângulo amoroso era mesmo só um triângulo.
“Pense: Li Ping amava um dos rapazes, mas ele gostava de outra garota e queria deixá-la. Indo além, não seria possível que outro rapaz também fosse apaixonado por Li Ping? É como uma questão de múltipla escolha: já temos duas respostas, só precisamos encaixá-las.”
Eu falava com entusiasmo, querendo despejar todas as minhas dúvidas em Xue Ying, quando ouvi passos suaves se aproximando.
Dei um sinal para ela, puxei-a para trás de um armário de onde podíamos observar o escritório inteiro.
Pouco depois, entrou um homem de cerca de um metro e setenta e cinco, de estatura semelhante ao ladrão anterior. Ele tinha o rosto pálido, expressão cansada e abatida, as costas curvadas pelo peso da vida. Quando vimos seu rosto, quase exclamamos de surpresa.
Era Zhong Dao.
Zhong Dao olhou cautelosamente ao redor, depois agachou-se para vasculhar os papéis.
Senti o corpo de Xue Ying tenso. Droga! Um mau pressentimento tomou conta de mim. Puxei-a com força e perguntei, em voz baixa: “O que vai fazer?”
“Claro que vou confrontá-lo!” respondeu ela, como se fosse óbvio.
“Ficou louca? E se ele for mesmo um assassino? Se esse documento for importante para ele, não hesitaria em matar mais dois!” Olhei para ela, incrédulo. Cada vez entendia menos as garotas de hoje.
Xue Ying fez beiço, descontente: “Xiao Ye, você se preocupa demais. Sabe aquele ditado: ‘Oportunidade perdida não volta’? Fique de olho e veja minha atuação.” Ela se soltou de mim, piscou e saiu.
“Zhong Dao, está procurando isto?” Xue Ying ergueu o dossiê escolar, perguntando em voz alta.
Zhong Dao estremeceu, virou-se devagar, surpreso. “Quem é você?” Olhou ao redor, assustado.
“Ora, devia perguntar quem somos nós.” Forcei um sorriso e saí também.
Já que a emboscada falhou, o jeito era mudar para o confronto direto.
Xue Ying me lançou um olhar de desculpas e continuou: “Por que faz tanta questão desse dossiê? Há segredos aqui que precisa destruir? Tem medo de que revelem que você violentou Li Ping e depois a matou?”
“Eu não violentei Ping’er, muito menos a matei.” Zhong Dao murmurou, desolado.
“Mentira! Se não a violentou, por que foi preso?” Xue Ying não tirava os olhos dele.
Zhong Dao sentou-se no chão, olhos vidrados. “Não posso dizer.”
“Claro que não pode, pois não tem como negar!” Xue Ying resmungou.
Puxei Xue Ying para trás e sussurrei: “Não acha que o comportamento dele está estranho?”
“Ele está fingindo”, ela disse, com desdém.
Balancei a cabeça e apontei: “Ele está fora de si, parece alguém que usou drogas.”
“Sim, usei drogas.” Zhong Dao ergueu a cabeça, respirando fundo. “Acreditem ou não, nunca violentei Ping’er, nem a matei. Também não fui preso, fui internado numa clínica de reabilitação.
“Depois que ela morreu, passei a me anestesiar com álcool, depois aprendi a usar drogas.” Ele olhou para o teto, perdido, e continuou: “Ela morreu aqui, enforcada com um cachecol de seda que eu lhe dei.”