Prólogo II

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 2578 palavras 2026-02-09 16:14:54

A noite era de um negro profundo como tinta. A mansão erguia-se silenciosa no meio de uma alta floresta de cedros. Nenhuma luz brilhava dentro dela; afinal, já era madrugada, e tanto o proprietário quanto os criados dormiam profundamente.

O magnata deitava-se sozinho em uma enorme cama, esticando os membros com força. Apesar de possuir muitas mulheres, de vez em quando sentia a necessidade de desfrutar a companhia da solidão. Hoje era um desses dias em que precisava de paz, sem as vozes tagarelas das mulheres, e o mundo parecia subitamente mais silencioso.

Por algum motivo, sentia-se especialmente irritado naquela noite. Uma inquietação profunda enraizou-se em sua mente, sem possibilidade de escape; por causa disso, não conseguia dormir, nem mesmo os comprimidos para dormir traziam qualquer efeito.

Resignado, sentou-se na cama e, pegando um charuto, começou a fumar com grandes tragadas. O fraco brilho do fogo, alternando entre claro e escuro, feria de maneira aguda a escuridão do quarto.

De repente, um leve ruído de colisão veio do lado de fora do quarto.

Ladrão? Por um instante, o magnata ficou surpreso, mas logo sorriu. As dobras de gordura em seu rosto contraíram-se de modo grotesco. Achou graça porque ele mesmo era um ladrão de primeira; existiria alguém neste mundo mais habilidoso em roubar e pilhar do que ele? Para os outros, ele era sempre o filantropo, o homem de bem, quando na verdade tudo o que doava era fruto do roubo aos tolos que, ao vê-lo, agradeciam entre lágrimas.

Essas pessoas apenas se deixavam saquear, insensíveis, e mesmo depois de serem exploradas completamente, ainda o veneravam como se fosse um ídolo. Alguns nascem para ser inferiores! Suas vidas só servem para ser degraus para grandes homens como ele, destinados a gerar riquezas e serem pisoteados para sempre.

Sorrindo, o magnata retirou uma pistola debaixo do travesseiro, abriu silenciosamente a porta do quarto e saiu. Alguém ousava exibir suas habilidades na casa do maior dos ladrões? Para recompensar tal coragem, ele decidiu oferecer pessoalmente uma bala ao intruso.

No fim das contas, aquela noite estava entediante demais; talvez, se encontrasse um pouco de emoção e matasse alguém, dormiria com mais conforto.

O magnata deslizou silenciosamente pelo corredor; apesar do corpo largo e pesado, não emitia quase nenhum som ao caminhar.

“Tum, tum!” O ruído voltou a soar, ainda muito suave, como algo caindo ao chão. O magnata deduziu imediatamente que vinha de sua sala de coleções.

Por alguma razão, tinha uma estranha obsessão por coleções de figuras humanas, em especial marionetes. Talvez porque, por mais tolas que fossem, as pessoas ainda possuem sua própria vontade. Marionetes, porém, jamais a possuem; são completamente controláveis, incapazes de trair. Por isso, sempre que brincava com suas marionetes, sentia uma paz absoluta.

Era uma paz que dinheiro, poder ou mulheres jamais poderiam proporcionar.

O ruído vinha da sala onde guardava suas marionetes, cada qual com uma história fascinante – histórias de como, por meios vis e ardilosos, ele as arrancou de seus antigos donos e as tomou para si.

O magnata abriu devagar a porta da sala, ergueu a arma, mas não encontrou nenhum sinal de ladrão, apenas uma marionete deitada silenciosa sobre o tapete vermelho. Aproximou-se e a apanhou, franzindo a testa.

Não havia jogado aquela marionete fora? Qual criado teria trazido-a de volta? Não importava; afinal, para conseguir aquele brinquedo, não medira esforços.

Observou satisfeito o rosto marcado de cicatrizes da marionete, feridas feitas por ele mesmo com uma lâmina afiada, golpe após golpe! Aquela marionete era muito desobediente, incapaz de emitir qualquer som diante dele.

De repente, sentiu um arrepio. O rosto da marionete, assustador na escuridão, parecia exalar ódio, com olhos fixos sobre ele.

Estremeceu e jogou a marionete ao chão, pisando-a com força. A mola nas costas da boneca quebrou com um estalo seco.

O magnata riu alto, satisfeito: “Olhe para mim, encare o quanto quiser, de nada adianta. Você é apenas uma marionete. Mesmo que eu a quebre em pedaços, não poderá me fazer mal algum!”

A marionete continuava deitada, fitando-o com olhos rancorosos.

O magnata começou a se inquietar. Chutou a marionete para um canto do cômodo e voltou-se, contemplando lentamente suas preciosas coleções.

Marionetes mergulhadas na escuridão são as mais belas. Na penumbra, esses objetos inanimados exalam mistério e fascínio, e o magnata apreciava a excitação sensorial que lhe proporcionavam.

É como as mulheres: belas, com traços sublimes, são agraciadas desde o nascimento. Vestidas de branco, são nobres; de negro, misteriosas. Mas nem a mulher mais bela supera as marionetes esculpidas por mestres.

Mulheres belas envelhecem; marionetes, jamais.

O magnata foi tomado por um impulso: queria criar uma marionete baseada em suas amantes favoritas. Assim, mesmo quando envelhecessem e perdessem a beleza, teriam sempre sua companhia, sem jamais desobedecê-lo ou traí-lo.

Com a idade, as pessoas se tornam mais desconfiadas – e ele, que já o era por natureza, sentia um calafrio. Quando ficou tão frio assim? Olhou ao redor: tudo estava exatamente como antes, mas algo parecia diferente naquele quarto.

Deve ser imaginação.

Balançou a cabeça, pronto para sair, mas ao tocar a maçaneta, todos os movimentos cessaram abruptamente. De repente, girou-se e acendeu o candelabro, fixando o olhar num canto do cômodo.

Sumiu! A marionete que havia chutado para o canto não estava mais lá!

Sentiu o coração disparar. Vasculhou cada canto do aposento, mas não encontrou a marionete que, após ser jogada fora, reaparecera misteriosamente na sala de coleções.

Estaria tendo alucinações por falta de sono? O magnata logo encontrou uma desculpa reconfortante. Ricos sempre são hábeis em justificar seus próprios atos, e ele era mestre nisso. Massageou as têmporas com força.

Nesse instante, as velas se apagaram de súbito. Antes que pudesse gritar, um olhar gélido e maligno cravou-se em suas costas. Sentiu o corpo inteiro enrijecer; tremia incontrolavelmente sob aquele ódio, o suor frio brotando como uma fonte.

Uma sombra, mais negra do que a própria escuridão, foi se alongando até parar aos seus pés.

“Quem está aí? Quem é você?” perguntou o magnata, a voz trêmula. “Quer dinheiro? Mulheres? Se me poupar, dou tudo o que quiser.”

A sombra ficou em silêncio, imóvel, arrastando consigo um rastro alongado. Silêncio absoluto, enquanto o tempo se arrastava naquele ambiente carregado de tensão e mistério.

Ninguém sabe quanto tempo se passou até que o magnata, vencido pelo pânico, finalmente se virou.

O terror dominou-lhe a mente. Olhos arregalados, fixou-se no chão a poucos passos, o coração batendo descontroladamente, cada vez mais forte, quase explodindo do peito.

“Eu amo você...”

No instante em que sentiu o coração prestes a estourar, finalmente ouviu uma voz gélida, vinda do mais profundo dos infernos...