Prólogo

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 3317 palavras 2026-02-09 16:20:47

Na história do Japão, para ser mais preciso, no período Meiji, houve três mulheres dotadas de dons extraordinários que se tornaram extremamente conhecidas. Não se sabe ao certo se por coincidência ou por algum desígnio do destino, mas suas trajetórias, apesar de não se cruzarem, carregavam semelhanças marcantes.

Primeiro, todas eram mulheres. Segundo, todas, incapazes de suportar o escárnio e a desconfiança do mundo, acabaram, voluntária ou involuntariamente, afastando-se do palco da história. Chizuko Mifune morreu injustamente, Yukiko Nagao teve um fim misterioso, e a mais infeliz de todas foi Sadako Takahashi, que desapareceu sem deixar qualquer registro nos anais da história moderna do Japão.

Entretanto, a morte talvez não seja o destino supremo para aqueles que possuem poderes além do humano… Para pessoas comuns, frágeis em corpo e espírito, talvez a morte dessas mulheres tenha sido apenas o início de um pesadelo.

Então, vamos ao início desta história.

Mais uma vez, tudo começa numa noite.

Existe uma palavra que descreve um certo estado de espírito: inquietação.

E era exatamente assim que se sentiam dois repórteres de tabloides, agarrados cautelosamente a uma das árvores ao redor de uma mansão luxuosa.

Aquela era a residência de Mitsuo Takahashi, presidente do Grupo Takahashi.

No Japão, ninguém desconhecia o nome Grupo Takahashi. Assim como um amante do basquete jamais deixaria de ouvir falar de Michael Jordan, o Grupo Takahashi era considerado um verdadeiro milagre do mundo dos negócios japonês.

Fundado há trinta anos e inicialmente voltado ao comércio de importação e exportação, sob a liderança visionária e mão firme de Mitsuo Takahashi, o grupo rapidamente se destacou no competitivo mercado, acumulando fortunas e adquirindo, em apenas cinco anos, mais de vinte empresas de diferentes setores.

Até hoje, o grupo jamais revelou publicamente qual o montante real de seus ativos, líquidos ou imóveis. Mas, no meio empresarial, e mesmo entre os mais perspicazes japoneses, todos sabiam: Mitsuo Takahashi era, sem dúvida, o homem mais rico do Japão. Seu patrimônio pessoal talvez superasse o tesouro nacional.

Muitos, movidos pela curiosidade ou por razões inconfessáveis, tentaram investigar a origem dos fundos do grupo e suas fontes de riqueza. Todavia, sem exceção, todos encontraram fins misteriosos e trágicos.

O ser humano aprende, e aprende rápido.

Com o tempo, certos indivíduos perceberam que o bondoso Mitsuo Takahashi talvez não fosse tão fácil de lidar quanto aparentava. Quanto mais se buscava saber sobre ele, mais mistérios insondáveis surgiam ao seu redor.

E aqueles que ousavam desvendar tais enigmas invariavelmente eram tragados pela infelicidade.

Os mais inteligentes, então, passaram a evitar qualquer investigação sobre ele, sua família, seu grupo; qualquer coisa relacionada ao seu nome era tratada com indiferença, com receio de pisarem, sem querer, no rabo de uma cascavel.

Mas, recentemente, uma sucessão de acontecimentos no Grupo Takahashi começou a atrair, novamente, a atenção de curiosos e audaciosos, inteligentes ou nem tanto, para os arredores da mansão…

Sem dúvida, aqueles dois repórteres na árvore não estavam entre os mais astutos.

— Por que aquela vadia ainda não apareceu? O chefe não disse que o quarto dela fica bem em frente a nós? — reclamou Kenjiro Ishita, largando os binóculos e massageando os ombros doloridos. — Ficamos aqui o dia todo e nem uma sombra apareceu. Droga, achava que ser paparazzi era fácil. Só fazendo é que se descobre que isso aqui não é trabalho pra gente!

— Shhh! — sussurrou Hiroshi Ishita, seu irmão. — Quer morrer? Fala baixo! Com tudo que aconteceu no Grupo Takahashi, a segurança aqui está mais rígida do que nunca. O chefe pagou caro por essa informação, não podemos estragar tudo!

— Mas não acha estranho? O velho Mitsuo Takahashi, ainda há três dias jogava golfe com altos funcionários do Ministério da Construção, todo cheio de vigor, com cara de que viveria pelo menos mais cinquenta anos. Como é que hoje de manhã saiu notícia de que está entre a vida e a morte? — Kenjiro franziu a testa, desconfiado.

— A vida é frágil, e se houver quem queira acelerar as coisas, qualquer doença, por mais leve, pode ser fatal — respondeu Hiroshi em tom sombrio.

Kenjiro arfou, assustado. — Você está insinuando que tentaram matá-lo? Quem teria coragem de tanto?

— Não fale besteira!

Hiroshi lançou um olhar fulminante ao irmão mais novo. — Nosso trabalho é conseguir pistas. Inventar teorias é tarefa do chefe… Espere! Prepare a câmera. Reiko Takahashi está de volta.

Reiko Takahashi retirou o casaco e o lançou displicente sobre a ampla cama, sentando-se em seguida diante do espelho.

Estendeu a mão direita e tocou o próprio rosto, belo, mas de expressão fria e apática.

Quantos anos já se passaram desde que essa face não conhece outro semblante além da rigidez?…

Mesmo ao receber a notícia terrível de que o avô, Mitsuo Takahashi, havia subitamente entrado em estado vegetativo, seu rosto permaneceu impassível.

Reiko observava, indiferente, a irmã mais nova chorar e gritar, caída sobre o corpo sem vida do avô. Em seu íntimo, nada se movia, e isso lhe parecia estranho.

Chorar assim traria o avô de volta?

E mesmo que o avô morresse, ela seria capaz de verter uma lágrima sequer?

Talvez não…

Às vezes, Reiko Takahashi se acusava de frieza excessiva. Mas, afinal, não era isso que o avô sempre lhe ensinara?

Não era esse o maior desejo do velho?

Hoje, houve uma reunião de emergência com aqueles anciãos sobreviventes do conselho de administração. Segundo as ordens deixadas por Mitsuo antes de seu coma, ela deveria assumir a presidência do Grupo Takahashi sem oposição. Contudo, inesperadamente, houve quem desafiasse o perigo, exigindo a reunião, e mais de trinta deles se manifestaram veementemente contra sua indicação.

Era óbvio: no segundo minuto após assumir o comando, todos os trinta e poucos foram sumariamente demitidos, obrigados a deixar o local.

Reiko cobriu o rosto com as mãos, fitando longamente aquela imagem impassível refletida no espelho.

Seria bela? Muitos diziam que sim, que era tão formosa quanto uma deusa. Para uma mulher, tal elogio deveria soar como algo grandioso, não? E frente aos elogios, não deveria sorrir, ao menos por cortesia?

Mas não conseguia sorrir, não por falta de vontade, mas porque… havia uma força que aprisionava sua alma.

Desde que herdara “aquilo”, suas expressões — todas as emoções e desejos — haviam desaparecido sem deixar vestígios.

Sem alegria, raiva, tristeza ou desejos, ainda seria humana?

Reiko forçou um sorriso diante do espelho, mas o esforço foi em vão.

De repente, notou pelo reflexo um breve lampejo vindo da árvore ao longe.

Com desdém, balançou a cabeça e fechou os olhos de estrelas hipnotizantes.

Seus lábios se ergueram num leve sorriso, mas este, por mais delicado que fosse, trazia em si algo sutilmente sinistro.

O sorriso se espalhou, não como o perfume suave da primavera, mas como a avalanche gélida do inverno profundo — perigosa, mortalmente fria…

— Malditos intrometidos, desapareçam todos!

— Por que ficou tão frio de repente? — Kenjiro apertou o casaco contra o corpo.

— Está maluco? Estamos em julho! — Hiroshi ajustava a câmera, ignorando o irmão.

— Está frio! Muito frio! — Kenjiro empalideceu, encolhendo-se ainda mais.

Talvez tenha notado o tremor do irmão, pois Hiroshi, contrariado, olhou para o lado — e quase deixou cair a câmera de tanto espanto.

O rosto e as sobrancelhas de Kenjiro estavam cobertos de cristais de gelo. Ele tremia e murmurava imprecações.

Impossível!

Ainda era pleno verão. Como poderia acontecer uma cena digna dos piores dramas de terceira categoria?

Hiroshi ficou paralisado, incapaz de compreender o que via; sua mente ficou em branco.

De repente, Kenjiro ergueu a cabeça e lançou-se sobre ele.

— Me dá, me dá sua roupa!

Os olhos de Kenjiro, vermelhos de frio ou de medo, já demonstravam traços de insanidade.

— Kenjiro, o que está fazendo? Pare! Eu disse para parar! — Hiroshi gritou, instintivamente.

Mas Kenjiro ficou ainda mais agressivo. — Me dá, me dá sua roupa!

Segurou os binóculos e começou a golpear a cabeça do irmão.

Uma vez.

Duas vezes.

O sangue escorreu, descendo pelo tronco até ser absorvido pela terra seca, deixando apenas uma mancha rubra.

Por fim, Hiroshi não se moveu mais.

Kenjiro despiu rapidamente o cadáver, abraçando as roupas ensanguentadas enquanto ria de forma insana…

De repente, percebeu, de forma vaga, que fizera algo imperdoável.

Ergueu a cabeça bruscamente, fitando a cena atônito.

— Irmão, o que houve? Fui… fui eu quem te matou?

Tremendo, chorava e sacudia os ombros de Hiroshi, mas era inútil: mortos não respondem jamais.

Tomado de terror, empurrou o corpo do irmão e encolheu-se na árvore, mordendo os dedos com força.

Ao longe, ouvia-se um rumor crescente — parecia que muitas pessoas corriam naquela direção.

Kenjiro, de olhar vazio, contemplou as mãos manchadas de sangue e, em seguida, olhou para a cerca com pontas de ferro lá embaixo.

E então voltou a rir, sem razão.

— Irmão, você deve estar muito solitário aí, não é? Não se preocupe, logo vou te fazer companhia!

Naquela noite, às vinte e três horas e onze minutos, hora de Tóquio, o silêncio foi rompido pelos gritos lancinantes de quem enfrenta a morte…