Prólogo

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 1049 palavras 2026-02-09 16:19:16

Antes de contar esta história, permitam-me, ainda que pareça supérfluo, explicar o significado de “pés voltados para a porta”. Como o próprio nome sugere, trata-se de deitar-se de maneira que os pés fiquem diretamente voltados para a porta.

Claro, para que essa situação se concretize, três condições precisam ser atendidas: primeiro, é preciso ter um par de pés vivos; segundo, é preciso haver uma porta; terceiro, ao dormir, deve-se estar deitado de modo que os pés fiquem exatamente em direção à porta.

Se, ao dormir, você se enquadra nessas três condições, então parabéns.

A qualquer momento você poderá…

Morrer.

Esta história começa, mais uma vez, numa noite.

Era uma noite tranquila e serena. Xiuwen estava deitada sozinha na cama, remoendo sua mágoa. O motivo? Naturalmente, outra discussão com seu namorado excêntrico. Só de pensar nele, sentia-se cheia de raiva. Para todos os efeitos, ele era um psicólogo de certa notoriedade na cidade, mas, por algum motivo, parecia incapaz de compreender o que se passava no coração da própria namorada.

“Maldito Li Shuren, infeliz Li Shuren, acredita mesmo que um dia eu não seria capaz de morrer só para te mostrar?”, Xiuwen, tomada de despeito, atirou o travesseiro no chão e gritou.

Nesse instante, a campainha tocou. Olhou para o relógio pendurado na parede: já passava de uma e quinze da manhã.

“Aquele desgraçado, só agora resolveu vir pedir desculpas. Pois saiba que não estou nem um pouco disposta a abrir a porta!” resmungou, mas, apesar das palavras, saltou imediatamente da cama, o coração acelerado de expectativa, e foi até a porta.

Um homem alto e vestido de preto estava encostado no batente, parado em silêncio do lado de fora. Xiuwen fez beicinho, tentando parecer zangada, e falou em voz alta: “Mesmo que eu abra a porta, não quer dizer que vou te perdoar. Hoje você realmente passou dos limites!”

Ela virou as costas e caminhou em direção à cama. O homem continuou em silêncio, apenas entrou calmamente no quarto. Aproximou-se dela, envolveu seu pescoço com força com a mão esquerda.

Xiuwen soltou um leve gemido e, ao tentar virar-se para olhá-lo, percebeu de relance uma sombra no chão. Ele! Na mão direita, segurava uma faca longa e afiada.

“O que você vai fazer?!” gritou, apavorada.

Atrás dela, ele exibia um sorriso arrepiante no canto da boca. Com indiferença, destreza e sem a menor hesitação, cravou a lâmina em seu pescoço. A última coisa que conseguiu ver foi um vermelho intenso. Devia ser o próprio sangue.

“Ah!” Xiuwen sentou-se na cama, pálida como a morte, respirando com dificuldade, ainda presa ao pânico doloroso do pesadelo.

“Um sonho! Era só um sonho!” murmurou para si mesma, mas nem por isso sentia alívio.

Por que teria sonhado algo assim? Era real demais! Assustadoramente real! Levantou-se da cama, pensando em tomar um banho frio para clarear a mente, quando, de repente, a campainha tocou mais uma vez.

Um medo inexplicável tomou conta de seu coração. Fitou a porta, e de repente sentiu que aquela porta, tão próxima, transbordava uma estranheza impossível de descrever. Era uma estranheza que a atraía irresistivelmente, dominando todos os seus sentidos. Xiuwen estendeu a mão, lentamente, em direção à porta...

À meia-noite, o relógio de parede continuava a marcar o tempo na escuridão com seus tique-taques. Por fim, ele parou, imóvel, exatamente à uma e quinze da madrugada.