Capítulo Setenta e Cinco: A Lenda dos Pés Voltados para a Porta (Parte Um)
— Obrigada.
— Não foi nada. Se quiser mesmo me agradecer, que tal me isentar do aluguel do quarto?
— Xi, isso não pode.
No rosto entristecido de Vanessa Zhang, finalmente surgiu um leve sorriso.
A noite caiu mais uma vez. Pensando bem, já estou há dois dias em Vila Montanha Negra, e nem sequer comecei a investigar o que vim procurar; fui enredado pela bagunça dessa família, como um novelo de linha embaraçado, sem conseguir encontrar uma oportunidade sequer para perguntar algo sobre qualquer um dos Servos Li.
— Aquele homem se chama Pedro Qi, o filho mais velho da família Qi. Eles são poderosos e influentes; metade das pessoas da vila depende deles para sobreviver. Por isso, mesmo que nos tratem como cães, poucos têm coragem de reagir. Minha irmã foi ingênua, sabia que aquele canalha só estava brincando com ela, mas mesmo assim, insistia em se iludir.
A maioria dos que vieram prestar homenagens temia fantasmas vingativos e arranjou desculpas para ir embora. O quarto mortuário ficou vazio, restando apenas eu e Vanessa Zhang. Ela suspirou, olhando fixamente para o teto:
— Na verdade, eu também sou tola, não é? Como a mariposa que se atira ao fogo, sabendo que vai se ferir, mas ainda assim vai, sem hesitar. Pelo menos não sou como minha irmã, que foi capaz de se matar por alguém assim!
Sorri amargamente:
— Parece que todos na sua família são bastante passionais.
— Você acredita? Minha irmã sempre foi a que mais cuidou de mim. O que tivesse de melhor, fosse comida ou roupa, ela guardava para mim. Lembro de um inverno em que me perdi na montanha. O grupo de resgate da vila se recusou a sair por causa da nevasca, minha irmã quase enlouqueceu. Implorou muito para eles… No fim, foi sozinha me procurar à noite, quase perdeu a vida. Ela era tão tola... Na verdade, eu não estava perdida, só estava brigando com ela…
Vanessa olhava para frente, absorta, um sorriso doce brotando em seu rosto ainda marcado pelas lágrimas. De repente, como se tivesse se lembrado de algo, sua expressão mudou para raiva, quase histérica:
— Mas depois que aquele homem apareceu, minha irmã mudou. Aquele canalha! Foi ele quem a matou, tenho certeza! Um mulherengo daqueles, que morra de uma vez!
— Calma! — tentei acalmá-la, segurando seus ombros, quando ouvimos um estalo vindo do altar fúnebre.
Que barulho foi esse? Cocei a cabeça e fui até lá. Vi que a mão esquerda do cadáver pendia do altar, balançando com a força da gravidade.
— O que aconteceu? — perguntou Vanessa, com a voz rouca de tanto chorar.
— Nada, alguém deve ter mexido no corpo e não deixou a mão bem posicionada, agora caiu. — Peguei a mão esquerda com cuidado, usando três dedos, tentando ajeitá-la, mas algo me pareceu estranho. Peguei a mão e a examinei de perto.
— Que estranho, venha ver — chamei Vanessa, apontando para a pulseira de jade branco no pulso esquerdo do cadáver. — Ontem, quando vi o corpo, essa pulseira estava no pulso direito. Como foi parar no esquerdo?
— O que você disse? — O rosto de Vanessa empalideceu. Ela agarrou meu braço, nervosa: — Você tem certeza de que a pulseira de jade estava no pulso direito da minha irmã? Tem certeza que não se enganou?
Respondi sério:
— Se há algo que posso me gabar, é de ter boa memória e olhar atento.
— Maldito! Maldito seja aquele desgraçado! — Por um instante, o belo rosto de Vanessa pareceu deformar-se de raiva. Ela apertou meu braço com força e, de repente, virou-se e correu para o interior da casa.
O que deu nela agora? Cocei a cabeça e olhei em volta. O salão fúnebre, originalmente o saguão da pousada, era amplo, mas agora estava iluminado apenas por algumas lanternas trêmulas, criando um clima sombrio. De repente, tive a sensação de estar sozinho naquele espaço vasto e escuro, e ainda segurando a mão inchada e encharcada do cadáver...
Um calafrio percorreu minha espinha. Ri secamente.
Coloquei o braço no lugar, limpei a minha mão no pano branco que cobria o corpo, respirei fundo e gritei:
— Espere por mim! Maldição! Que lugar é esse?
Corri atrás de Vanessa Zhang. Atravessei o salão interno e os aposentos privados da família Zhang até o final do corredor, onde vi um feixe de luz.
Vanessa estava rígida diante da porta do porão.
— A cama — repetia ela, olhando fixamente para dentro.
— Que cama? — empurrei-me para passar e, ao olhar para dentro, fiquei surpreso. Céus! O quarto, com mais de trinta metros quadrados, estava completamente vazio, exceto por uma cama de solteiro num canto, disposta de modo estranho, com os pés voltados para a porta — exatamente como no quarto de Li e de Sophia Zhang!
— Outra cama de frente para a porta... — murmurei.
Vanessa se virou, espantada:
— Você também conhece a lenda dos pés para a porta?
— O quê? — franzi a testa.
Ela hesitou e sorriu amargamente:
— Ah, é mesmo, você é de fora. Não tem como conhecer essa história.
— Que história? Tem relação com a posição da cama?
Fiquei animado. Claro, Li e Sophia Zhang tinham vivido aqui. Se realmente há um costume ou lenda sobre a disposição da cama, talvez seja por isso que escolheram essa posição estranha. Seguindo essa pista, talvez eu encontre o assassino deles, ou até mesmo a razão da incrível longevidade do Servo Li...
De repente, todas as respostas pareciam ao alcance das mãos.
— Não é nada demais — disse Vanessa, com um olhar estranho. — Aqui existe a crença de que, se você dormir com os pés voltados para a porta, vai fazer com que o homem que ama fique completamente apaixonado por você.
— Só isso? — olhei desconfiado. — E por que ficou tão surpresa antes?
Uma expressão dolorida apareceu nos olhos de Vanessa:
— Fiquei surpresa por minha irmã acreditar numa superstição tão boba.
— E a pulseira de jade? — Senti que ela não estava dizendo tudo. Insisti: — Eu disse que estava no pulso direito da sua irmã, por que isso te fez correr para cá?
— Também está relacionado com a lenda — Vanessa fechou a porta suavemente e me fez sinal para subir ao segundo andar. — Dizem que usar a pulseira de jade no pulso direito duplica o efeito.
— Que costume estranho, parece coisa de jogo de RPG — zombei.
Vanessa parou de repente, estendendo o braço para me impedir de avançar.
— Noite Silenciosa, esta noite quero velar sozinha por minha irmã. Vá descansar cedo. Ela era muito tímida em vida, e não gostaria de ser perturbada por um estranho depois de morta.
— Quando você ficou tão polida? — resmunguei, também endurecendo a voz.
— Considere um pedido meu — disse Vanessa, abrindo a porta do quarto e me empurrando para dentro. Rapidamente, fechou a porta, tirou uma chave do bolso e trancou por fora.
Fiquei alarmado e comecei a bater com força:
— Ei! O que está fazendo? Me deixe sair!
Pelo buraco da fechadura, vi Vanessa encostar-se à parede oposta, respirar fundo e dizer:
— Não importa o que aconteça esta noite, não saia. Não quero te envolver nisso!
Ela se virou para descer as escadas, mas parou de repente e, olhando para mim, esboçou um sorriso deslumbrante e triste:
— Obrigada. Naquele dia à beira do rio, eu realmente queria morrer, mas, ao te ver, perdi a coragem. Ah, como teria sido bom se tivéssemos nos encontrado antes?
Ela sorriu enquanto balançava a cabeça com amargura, lágrimas rolando discretamente, brilhando como cristal, mas ainda assim com um sorriso curvando seus lábios.
— Adeus. Desta vez é um adeus de verdade!
Vendo-a desaparecer no fim do corredor, comecei a chutar a porta, indignado. Que drama é esse? Fala como se fosse uma despedida para sempre. Que garota teimosa! Nem sequer perguntou minha opinião, só resolveu tudo sozinha. Será que ela sabe quem eu sou? Eu sou Noite Silenciosa, o cara de face mais grossa do mundo, de curiosidade insaciável, mestre em pregar peças sem nunca ser enganado!
Depois de uns dez minutos chutando, desisti.
— Que porcaria! Não dizem que a qualidade dos produtos está caindo cada vez mais? Por que, então, essa porta é tão resistente? Ora, quem fabricou isso não entende nada de portas! Porta serve para barrar os honestos, não os desonestos!
Resmunguei por um bom tempo, até que minha cabeça esfriou. Certo, por que estou insistindo tanto? Ainda tenho um truque na manga.
Se a razão não me lembrasse que não era hora de ficar me culpando, eu mesmo me daria um tapa! Com muito custo, usando um pedaço de arame que sempre carrego, consegui destrancar a fechadura e disparei escada abaixo.
Vanessa não estava no andar de baixo, e o corpo sobre o altar sumira. O salão fúnebre, agora vazio e escuro, tinha a porta de fora entreaberta, rangendo ao vento gelado. Para além dela, a noite silenciosa. Um calafrio percorreu meu corpo enquanto eu me aproximava do altar.
O pano branco que cobria o cadáver estava jogado no chão. Ao pegá-lo, notei uma grande mancha de líquido vermelho. Sangue! De quem? Será de Vanessa? O que aconteceu? Olhei nervoso ao redor e, não muito longe do altar, encontrei um gato preto deitado.
Estava morto, mas ainda quente, devia ter morrido há pouco.
Mas quem teria sido tão cruel a ponto de cortar sua garganta com um objeto cego? Examinei o corte irregular, imaginando o sofrimento do animal, debatendo-se, vendo seu próprio sangue escorrer pela traqueia...
De repente, senti algo se aproximando silenciosamente pelas minhas costas. Um arrepio gelado subiu pela espinha. Minha boca secou, dominado por um medo avassalador, como se a própria escuridão me engolisse.
Lutando para controlar o coração que parecia querer saltar do peito, tentei me virar, mas tudo escureceu diante dos olhos e desmaiei...