Capítulo Cinquenta e Sete: A Noite Sedenta de Sangue (Parte Um)
Neste mundo, existem todos os tipos de pessoas: idosos, crianças, homens de bem, hipócritas. Existem gênios como Mi Jingyun, capazes de calcular cada passo do outro em seus próprios planos, e também tolos excessivamente ingênuos, como Zhang Lu.
— Quer voltar atrás? — Mi Jingyun falou suavemente para Zhang Lu, que queria cancelar a aposta. — Mulheres volúveis não costumam ser agradáveis.
Zhang Lu bufou: — Isso é problema meu. Vai aceitar ou não?
Mi Jingyun não respondeu de imediato. Com toda a calma, aproximou-se da janela, contemplando a distância, e disse lentamente:
— Zhang Lu, lembro que seus pais trabalharam na empresa do pai de Ye, não é? Uma pena terem sido demitidos de forma estranha há três anos. Desde então, seus pais, sem nenhuma habilidade, vivem de pequenos biscates, em extrema pobreza.
— E dizem por aí que seus pais odeiam a família de Ye, mas o que me intriga é: por que você se aproxima tanto dele? É porque gosta muito dele? Ou será... — Mi Jingyun olhou fixamente e pronunciou cada palavra pausadamente: — Ou será que seus pais pediram que você se aproximasse dele para se vingar?
— Mi Jingyun! — Zhang Lu estava tão furiosa que parecia que seus olhos iriam cuspir fogo. Gritou, indignada: — Você pode me insultar, mas não insulte meus pais! Sim, somos pobres, mas nunca nos vitimizamos! Meus pais podem não ser muito capazes, mas são as melhores pessoas do mundo, compreensivos e bondosos. Nunca seriam mesquinhos e inescrupulosos como você!
— Ah, é? — Mi Jingyun riu, desdenhosa. — Preto e branco, é o que você diz. Não posso saber. Mas, pela sua explicação, posso entender que você realmente gosta de Ye?
Zhang Lu ficou perplexa: — Nunca disse isso!
Mi Jingyun fechou o rosto, fitando-a com raiva: — Se não quer se vingar, nem gosta dele, por que sempre insiste em se meter entre mim e Ye? Por que sempre nos impede? Nunca ouviu dizer que é melhor destruir dez templos a separar uma família? Ou será que você realmente não tem o que fazer e acha graça nisso?
— Eu... eu... — Zhang Lu ficou tão nervosa que não sabia o que dizer. Sua mente simples ficou confusa, percebendo, de forma vaga, que sua situação realmente era delicada.
Mi Jingyun prosseguiu: — Afinal, o que quer que eu e Ye façamos? Sabe o quanto dói gostar de alguém? Amo-o loucamente, não só porque é meu noivo, mas porque somos muito parecidos. Ele, por curiosidade, também não mede esforços, até mesmo trai amigos. Só eu posso fazê-lo feliz! Por favor, não nos atrapalhe mais!
— Não! Ye não é nada disso que você diz! — Zhang Lu, de súbito, recobrou a lucidez e gritou: — Ye é gentil, inteligente, confiante e leal. Enfim, ele é digno de confiança, nada a ver com o tipo de pessoa que você é!
Mi Jingyun observou a emoção de Zhang Lu, surpresa, e deixou transparecer uma rara irritação: — Zhang Lu, você é muito ingênua. Não vou cancelar essa disputa. Só vencendo você é que fará desistir de Ye de uma vez por todas.
Zhang Lu também sorriu friamente: — Agora também não vou cancelar nada. Não deixarei você se aproximar de Ye, não vou permitir que ele se perca!
Depois de ouvir o relato de Zhang Lu sobre os acontecimentos anteriores, não pude deixar de rir:
— Zhang Lu, você foi completamente manipulada por Mi Jingyun!
— A culpa é toda sua! — Zhang Lu exclamou, irritada. — Se não fosse por você, por ter gritado na porta da casa dela para me ajudar, não estaria nessa situação agora!
— Mas eu nunca pedi sua ajuda... — murmurei baixinho.
Zhang Lu me lançou um olhar fulminante, como se fosse me devorar:
— O que disse?
Suei frio imediatamente e forcei um sorriso:
— Haha, agradeço muito o seu grande favor!
Mudei rapidamente de assunto:
— Então vocês realmente foram naquela noite ao prédio, ao banheiro onde Ni Mei morreu, e lá descascaram maçãs?
— Isso mesmo. Só de lembrar ainda sinto medo, foi muito estranho! — Um calafrio percorreu Zhang Lu, que estremeceu.
— Então, o que aconteceu exatamente naquela noite? Pode me contar em detalhes? — perguntei ansioso, entregando-lhe um copo d'água.
Zhang Lu assentiu, resignada, e começou a relembrar, assustada, os acontecimentos da noite passada.
Por volta das onze e meia, Mi Jingyun chegou acompanhada de Yang Shanshan e Huang Juan.
— Elas são as juízas da competição — explicou Mi Jingyun, apontando para as duas.
Zhang Lu torceu o nariz:
— Medrosas. Quem está com medo é você!
Mi Jingyun sorriu suavemente:
— Zhang Lu, você pensa mal de mim. Sou um pouco impulsiva, admito, mas prezo muito pela justiça. Durante a competição, elas vão esperar do lado de fora. E, para garantir o equilíbrio, preparei algumas coisas nos quartos.
Yang Shanshan, com uma chave sabe-se lá de onde, abriu a porta. Assim, as quatro corajosas garotas entraram devagar e subiram as escadas.
Ni Mei, em vida, morava no primeiro quarto à direita do quarto andar daquele casarão mal-assombrado. Para surpresa de Zhang Lu, a porta estava escancarada.
Então, Mi Jingyun explicou:
— Antes de entrarmos, vou explicar as regras. O jogo exige que cada uma fique em um quarto separado. Como não havia dois banheiros, dividi o quarto de Ni Mei em dois com uma divisória de papel, e, para ser justo, abri um buraco entre os dois lados.
Ela olhou para Zhang Lu e continuou:
— Sei que não confia em mim, por isso pode espiar pelo buraco e verificar se estou mesmo descascando maçã, assim como você. Preparei todos os utensílios nos dois lados. Quem terminar primeiro de descascar a maçã sem romper a casca deve avisar. A outra para imediatamente, todos se reúnem à porta e mostram o resultado.
— Vejo que você pensou em tudo! — ironizou Zhang Lu.
— Claro, faço tudo pelo homem que amo — Mi Jingyun sorriu docemente e completou: — Ah, e o tempo-limite da prova é de cinco minutos. Há um cronômetro no quarto; terminado o tempo, todas devem sair, mesmo que não tenham terminado. Se ninguém conseguir, ou se ambas quebrarem a casca, vence quem tiver feito o pedaço mais longo. Concorda com as regras?
Zhang Lu bufou:
— Você pensou em tudo, não tenho nada contra.
— Ótimo, então vamos começar! Quando acabar, não importa quem ganhar, podemos ser amigas, não acha? — perguntou Mi Jingyun, com expectativa.
— Sinto muito, agradeço sua intenção, mas não me atrevo a ser sua amiga. Vai que um dia você me vende e eu nem descubro como morri! — Zhang Lu fez logo cara de desconfiança.
— Que pena! Achei mesmo que poderíamos ser amigas — Mi Jingyun, decepcionada, foi a primeira a entrar.
Zhang Lu entrou logo em seguida no quarto de Ni Mei, que era bastante espaçoso. Como Mi Jingyun dissera, o cômodo de vinte metros quadrados havia sido dividido ao meio por uma divisória de papel. Ela escolheu o lado esquerdo.
À fraca luz do abajur, distinguiu uma mesa, uma cadeira. Sobre a mesa, um espelho de uns vinte centímetros quadrados, uma maçã vermelha, uma vela branca assustadora e uma faca de frutas afiada.
A faca, sob a luz alaranjada, reluzia com um brilho acinzentado, transmitindo uma estranha sensação de opressão. Zhang Lu estremeceu, espiou pelo buraco da divisória: do outro lado, Mi Jingyun já estava sentada, segurava a maçã, pensativa.
Sem mais distrações, Zhang Lu também se mexeu: acendeu a vela, apagou o abajur e sentou-se.
De repente, percebeu que sua mão tremia ao segurar a maçã. Olhou-se no espelho. A chama da vela tremulava, projetando uma luz sombria, e a própria imagem refletida balançava, o rosto ficava pálido, tomado por uma estranheza intensa.
— Estou com medo? — murmurou para si mesma. — Tudo culpa de Ye! Amanhã vou tirar satisfação com ele!
Agarrou a faca e começou a descascar.
A polpa da maçã era firme, fácil de descascar. Zhang Lu se concentrou, pondo em prática tudo o que treinara nos dois dias anteriores. A lâmina afiada separava a casca da fruta.
Descascar maçã também tem sua técnica: para tirar uma casca longa, é preciso controlar bem a espessura da tira e a quantidade de polpa retirada. Se tirar demais, a casca fica pesada e quebra; se tirar de menos, é ainda mais difícil, pois pode partir facilmente.
Zhang Lu, discípula da mãe, que se dizia especialista, treinou de forma quase infernal por dois dias. A casa virou um campo de batalha: os pais, com medo de desperdiçar, não paravam de comer maçãs descascadas por ela, a ponto de todos desenvolverem uma estranha aversão à fruta.
Mas o esforço valeu a pena, e agora ela dominava o ritmo do corte.
Com muito esforço, terminou metade da maçã e respirou fundo. Só havia passado um minuto. Secou o suor da testa e espiou pelo buraco: Mi Jingyun também tinha avançado bastante, até mais rápido que ela!
— Não vou perder! — murmurou Zhang Lu, recomeçando com determinação.