Capítulo 102 Sussurros Fantasmagóricos
Meu isqueiro é de uma marca suíça renomada, famosa por ser à prova de vento; mesmo em tempestades fortes é difícil apagá-lo, e mais ainda nesta sala onde não há a menor brisa.
Ele respirou fundo e acendeu o isqueiro novamente, mas a chama logo se apagou. Desta vez, no entanto, Sanyuan sentiu claramente uma leve corrente de ar acariciando sua face pelo lado esquerdo, como se... como se houvesse uma criança travessa ao seu lado, que, sempre que ele acendia o isqueiro, soprava a chama com um gesto malicioso.
Um calafrio percorreu seu corpo, subindo dos pés até a coluna, seguindo até a nuca.
Tomado pelo medo, seu corpo ficou rígido, e ele se sentou imóvel à beira da cama, sem ousar se mexer.
Depois de um longo tempo, como se tomasse uma decisão importante, ele acendeu o isqueiro com força e olhou para o lado esquerdo.
Sob a luz tênue, não havia nada ali!
Parecia que o vento que sentira antes fora apenas uma ilusão.
Sanyuan soltou um longo suspiro de alívio e, de repente, viu sua própria sombra. A sombra pálida se estendia atrás dele, aparentemente normal, mas por alguma razão ele sentia que havia algo diferente do habitual.
Ele observou atentamente e, quando reconheceu claramente sua sombra, o medo que não cessara se multiplicou por milhões, congelando sua medula espinhal.
Na sombra, suas costas estavam levantadas como se algo estivesse deitado ali.
Era uma criança!
Sim, definitivamente uma criança, que abraçava seu pescoço com as mãos e se colava firmemente às suas costas.
Sanyuan tentou gritar por socorro, mas logo percebeu que seu cérebro havia perdido o controle do corpo, incapaz até mesmo de emitir som.
Sempre que tentava mover a garganta para emitir um som, mãos frágeis apertavam seu pescoço, forçando-o a engolir o som.
Mas o desastre não terminou aí. A janela começou a bater, como se algo tentasse arrombar.
De repente, o isqueiro acendeu sozinho, e com a luz fraca era possível ver a fechadura da janela se abrir violentamente sob uma força invisível.
A janela foi se abrindo lentamente...
A brecha aumentava, e ele podia até ver uma sombra negra mais escura que a noite lá fora, que estendia garras afiadas, acenando para ele enquanto empurrava a janela.
Um sorriso estranho surgiu no rosto de Sanyuan, que se levantou involuntariamente e estendeu a mão na direção da sombra.
Quando estava prestes a tocar naquela figura, sua mente despertou de repente!
Ele sentiu que recuperava o controle do corpo, mas, acostumado à mimosidade desde a infância, já não tinha forças para se virar e fugir.
Seu corpo fraquejou, e ele caiu no chão, gritando desesperadamente.
Suas calças estavam completamente molhadas, com um líquido amarelo pálido e sólidos fétidos se espalhando pelo chão — qualquer um saberia que aquilo era uma mistura de fezes e urina, excrementos e resíduos que ninguém gostaria de admitir.
Depois de sair do restaurante, voltei para o meu quarto, peguei as duas caixas pretas e as examinei novamente.
Embora ainda não tivesse descoberto nada, não estava tão ansioso quanto antes; afinal, contava com a rede de informações da família Takahashi, não era mais um gafanhoto sem rumo.
Além disso, se nem a família Takahashi conseguisse descobrir onde exatamente Usá estava no Japão, eu certamente não conseguiria. Na pior hipótese, teria que voltar para casa e esperar a morte ao lado de Zhang Wenyi na cidade de Kuroyama.
Depois de algum tempo procrastinando, finalmente fui calmamente para o quarto de Yumi.
Assim que cheguei à porta, ela se abriu imediatamente.
Yumi, exalando um perfume suave, apareceu à minha frente, vestindo um pijama de seda. Enquanto secava o cabelo com uma toalha, ela me lançou um sorriso doce e cheio de carinho.
— Você chegou? — ela perguntou, segurando meu braço e me puxando para sentar na beira da cama. — Quer beber algo antes?
— Não, obrigado — respondi, corando. — Na verdade, vim aqui para perguntar sobre...
Yumi colocou o dedo indicador sobre meus lábios e balançou a cabeça delicadamente. — Não diga coisas tão deprimentes, sabe que esta é a minha primeira vez!
— Q-que primeira vez? — gaguejei.
Ela me abraçou por trás, sorrindo.
Senti um enorme constrangimento, mas uma voz interna me avisava para não me deixar levar por essa mulher, para não ser destruído por ela.
Racionalidade! Eu precisava manter a racionalidade!
Cerrei os dentes, desvencilhei-me de seus braços e levantei da cama.
Mas Yumi pareceu mal interpretar minha atitude, sorriu levemente e se jogou na cama.
— Eu vim para ver se você cumpriu o nosso acordo — disse com calma.
— Eu estou cumprindo — Yumi sentou-se, apoiando o queixo no meu ombro.
Fiz um esforço para resistir, controlando o coração acelerado e falei o mais serenamente possível:
— Já se passaram dois dias, dois dias inteiros. Você conseguiu descobrir onde Usá está? O que exatamente aconteceu?
Yumi parou por um momento, mordeu meu braço com força e enrolou o pijama ao redor, descendo da cama.
— Dois dias atrás usei todos os canais de informação do Grupo Takahashi para encontrar esse lugar maldito para você, seu insensível. Foi um trabalho árduo, mas o estranho, o muito estranho é que não encontrei nada! Você tem certeza de que Usá é um lugar no Japão? Mesmo eu, que nasci e cresci aqui, nunca ouvi falar disso!
— Tenho certeza absoluta — afirmei com convicção.
Curiosa, Yumi perguntou: — Onde você ouviu falar desse nome?
Fiquei paralisado, como se tivesse levado um choque. Como nunca havia pensado nisso antes? Se tivesse pensado, não teria perdido tanto tempo.
— O que houve? — Yumi balançou meu ombro preocupada.
Agarrei sua mão imediatamente e disse em voz alta:
— Yumi, deixe Usá de lado por enquanto. Quero que me ajude a procurar um homem chamado Takayuki Ogino. Só tenho uma pista: ele escreveu um livro chamado "Crônicas dos Poderes Psíquicos".
— Sem problemas, vou passar o recado amanhã — Yumi concordou e sorriu maliciosamente. — Pronto, assunto profissional resolvido. Agora, que tal continuarmos o que estávamos fazendo antes, no âmbito pessoal?
Quando eu procurava uma desculpa para fugir, um grito horrível quebrou a quietude da noite...
Ninguém sabia que aquele grito marcava o início de uma série de tragédias.
Algo já havia fixado sua mira nesta família amaldiçoada, observando tudo com um olhar gélido, esperando pacientemente a oportunidade de levar a morte...