Capítulo Quatorze: Uma Outra Abordagem (Parte Um)
Tenho uma curiosidade intensa e vibrante; esse é o primeiro traço que meus conhecidos percebem em mim. Claro, essa curiosidade já me colocou em situações de perigo, quase a ponto de perder a vida. Contudo, minha sorte parece ser bastante sólida, pois ainda estou vivo.
Naquela noite, às dez horas, consegui finalmente escapar sob o olhar atento do zelador. Mas, ao sair do prédio do dormitório, deparei-me com Neve Branca, encostada à grade, como se aguardasse alguém.
“Está esperando por mim?” Cheguei sorrateiramente atrás dela e falei de repente.
“Você não consegue me assustar.” Ela virou-se sorrindo para mim. “Já tinha te visto faz tempo.”
“Mais uma vez, fui um tolo.” Fingi resignação.
Ela balançou a cabeça: “Tenho medo de ir à sala sozinha, vamos juntos.”
Assenti e seguimos pelo velho caminho. Estranhamente, esta noite a trilha parecia diferente; ao olhar com atenção, vi que estava adornada de luzes de neon coloridas.
“Quem será o superior que vem inspecionar? A escola faz toda essa decoração, sem medir esforços nem custos.” Suspirei.
“Pois é.” Neve Branca franzia a testa. “De tempos em tempos, renovam tudo para as tais inspeções: escola modelo nacional, escola exemplo de higiene… A cada ano, gastam bastante com isso.”
Soltei um resmungo: “No fim, quem paga somos nós. O governo mal repassa fundos, mas a escola precisa agradar os superiores e ainda se desenvolver. De onde vem o dinheiro? Acabam nos explorando.”
“Hmm…” Ela parecia refletir, mas logo soltou uma risada.
“O que houve?” Perguntei, curioso.
Neve Branca respondeu: “Hoje, o colega Noite Silenciosa está tão gentil.”
“Quer dizer que normalmente pareço um monstro terrível?” Ri também.
“Não, não. Normalmente, o pequeno Noite é tão orgulhoso e distante, difícil de se aproximar.”
Difícil de se aproximar? Céus, sempre pensei que eram eles os inacessíveis… e agora sou eu? Que ironia! Meu sorriso se tornou amargo; sem palavras, voltei a admirar as luzes.
Afinal, tudo isso é pago por nós, então nada de ver sem aproveitar.
“Olha, Noite! As luzes estão cada vez mais brilhantes, tão lindas!” Neve Branca exclamava, encantada.
Estranho, mas eu sentia o contrário: as luzes pareciam se apagar gradualmente.
Enquanto eu tentava entender, ela segurou meu braço, corando, e disse suavemente: “Antes, eu costumava imaginar meu futuro… Deve ser colorido, mas simples. Quero um marido que me ame, uma casinha pequena, mas aconchegante, e filhos adoráveis.
“E você, Noite, prefere meninos ou meninas? Ah, quero os dois. Quando estiverem brincando fora, eu cozinho na cozinha. Quando o marido voltar, estico a cabeça pela janela e grito: ‘Ei, meus queridos, lavem as mãos, é hora de comer!’ Ah, que coisa romântica!”
Meu Deus! Ela tem só quinze anos, e já sonha com tudo isso… impressionante!
Mas por que incluiu a mim nos sonhos dela?
Ao redor, as luzes tornaram-se ainda mais tênues, e senti um calafrio.
Neve Branca, ao meu lado, exclamou: “Mais brilhantes ainda! Veja, nossos pés estão iluminados de dourado, deve ser algum pó fosforescente. A escola realmente gastou muito desta vez. Está tão forte que mal consigo abrir os olhos!” Ela apertou ainda mais meu braço.
Mas, aos meus olhos, as luzes piscaram e mergulharam numa escuridão sem fim.
Será que mais uma vez estamos diante de algo sobrenatural?
Sem esperar, instintivamente puxei Neve Branca pela mão e corremos. Felizmente, o prédio da sala de aula não era longe, logo vi suas luzes.
“O que foi?” Ela perguntou, ofegante.
Não quis alarmá-la, então não mencionei o que sentira.
A porta da sala estava aberta, indicando que os outros já haviam chegado.
Entramos e vimos Urso, de costas, sentado bem no centro da sala. À sua frente, duas mesas unidas, com velas acesas, papéis com diagramas de octógonos e um pequeno prato, exatamente como da última vez em que nós cinco invocamos o Espírito do Prato, só que o ambiente estava mais sombrio e assustador.
“Urso… está tudo preparado?” Perguntei cauteloso.
Ele não respondeu, apenas ficou sentado em silêncio.
Esperei um pouco, constrangido, vendo que ele não falava, fui até ele.
“O que acha do desaparecimento do Pato?” Ele perguntou suavemente.
Parei, pensei com seriedade: “Não faço ideia. Mas deve estar relacionado àquela lenda.”
“Já pensou que pode ter relação com a invocação do Espírito do Prato? Não o enviamos de volta, então ele matou o Pato. E o próximo… pode ser qualquer um de nós.”
“Não pode ser… vocês disseram que era um espírito benigno!” Por algum motivo, minha voz tremia.
“Que ingenuidade!” Ele riu rouco. “Não percebeu? A invocação diz: ‘Venha do outro lado da noite, venha do frio subterrâneo, atravesse a escuridão, cruze os rios…’ Um espírito faria isso? Estamos invocando um fantasma! O Espírito do Prato é um fantasma!”
Invocar o Espírito do Prato é chamar um fantasma, eu sabia disso. E a relação entre o desaparecimento do Pato e o ritual, eu também já havia cogitado, só que inconscientemente evitava pensar muito.
Como uma criança brincando com fogo: acende o fósforo, mas, assustada, joga-o no chão cheio de combustível, sem apagar, sem se importar com as consequências, apenas tentando convencer a si mesma de uma falsa verdade improvisada…
“O que devemos fazer?” A criança, no fim, precisa acordar.
“Existe um modo de devolver o Espírito do Prato.”
“Sério? Qual?” Neve Branca perguntou, curiosa.
“Quem o invocou deve fazer o ritual novamente e enviá-lo de volta. Simples assim.”
“Eu não quero!” Neve Branca gritou. “Simples? Aquela experiência assustadora me marcou para o resto da vida!” Ela realmente estava apavorada com aquilo.
“Não depende de você! E você, Noite? Também não quer?” Ele gritou para Neve Branca e perguntou para mim, sem nunca virar o rosto.
Minha mente estava confusa, um pressentimento sombrio tomava conta de mim, mais intenso do que na trilha.
“Está bem, aceito repetir o ritual.” Após pensar, respondi.
De qualquer modo, se o desaparecimento do Pato tem relação com o Espírito do Prato, é melhor enviá-lo de volta. Não quero que isso se repita, apesar de não ter muita simpatia pelos outros.
“Noite!” Neve Branca protestou.
“Não vai acontecer nada.” Respondi friamente.
Ela suspirou: “Está bem, se você diz.”
“Então vamos começar.” Urso levantou-se e, só então vi seu rosto. Era um rosto inquieto, ansioso por algo que estava por vir, mas também tomado de medo e preocupação. Que mistura estranha.
Ao notar meu olhar desconfiado, ele desviou o rosto.
Que estranho, será que há algum segredo por trás deste ritual? Por que ele parece tão culpado? De repente me arrependi de ter aceitado tão impulsivamente.
Nesse momento, Neve Branca tocou-me e sussurrou: “Promete que vai me proteger, como da última vez.”
“Prometo.”
“Então você aceita?”
“Sim.”
Ela corou levemente, e então nossos dedos indicadores voltaram a tocar o pequeno prato.
“Espírito do Prato, Espírito do Prato, venha do outro lado da noite para junto de mim… Espírito do Prato, Espírito do Prato, venha do frio subterrâneo, atravesse a escuridão, cruze os rios…”
O prato não se moveu.
O Espírito do Prato não apareceu, mas vi uma sombra no chão, e o rosto de Neve Branca, espantado do outro lado.
A sombra era, obviamente, de Urso atrás de mim, e em sua mão havia algo diferente.
Era… uma faca!