Capítulo Vinte e Quatro: O Ritual de Invocação dos Espíritos (Parte Um)
Na manhã seguinte, fui subitamente despertado por uma estranha sensação.
O céu estava envolto por uma penumbra difusa; olhando pela janela, percebi que o vento ainda soprava forte, como se anunciasse uma tempestade repentina a qualquer momento.
Espantado, notei a silhueta de alguém movendo-se em direção à floresta atrás da casa. Pelo contorno, parecia ser a mesma garota que eu encontrara no dia anterior. Impelido pela curiosidade, levantei-me depressa, vesti-me rapidamente e, pulando pela janela, segui-a discretamente.
Mantive certa distância, sem me aproximar demais.
A garota entrou na floresta e avançou rapidamente por uma trilha, demonstrando familiaridade com o ambiente. Tomei cuidado para não me perder, marcando setas nas raízes das árvores mais visíveis conforme caminhava.
Após cerca de meia hora de perseguição, ela desapareceu subitamente a uns dez metros à minha frente!
Inacreditável! Ainda que os arbustos fossem densos, não era possível desaparecer assim, como se tivesse ficado invisível!
Aflito, corri alguns passos, mas parei de repente, escondendo-me rapidamente entre as moitas ao lado.
Por pouco, não caí numa armadilha! Pessoas não somem no ar sem motivo; só podia haver uma explicação: diferença de nível no terreno. Provavelmente havia ali um declive de pelo menos dois metros — um excelente esconderijo e também um local perfeito para testar se estava sendo seguida.
No entanto, após alguns minutos, nada se mexia ao longe.
“Parece que imaginei coisas demais.”
Cocei a cabeça e fui até lá, mas, ao olhar, fiquei completamente atônito!
Ali havia uma cratera circular de mais de trezentos metros de diâmetro, com bordas suaves, impossível distinguir se era obra humana ou fenômeno natural.
O mais surpreendente era o imenso templo no centro da cratera, de aparência extremamente antiga e estranha, com sinais claros de ter sido parcialmente consumido por incêndio muitos anos atrás, restando apenas parte de sua estrutura em pé.
Por que aquela garota viera sozinha a um lugar que faria até um homem tremer de frio? Seria um esconderijo secreto, ou haveria algum motivo religioso?
Achei aquilo tudo fascinante e desci até lá, pronto para abrir a porta desgastada do templo e investigar. De repente, senti algo duro pressionando minhas costas, seguido por uma voz gélida: "Por que está me seguindo?"
"Annie! Hahaha, eu... eu sou o Noturno, pode abaixar a arma!" Reconheci sua voz e tentei disfarçar minha surpresa.
"Haha! Mas que coisa! Então era só você, Noturno! Tem assistido televisão demais, hein? Mal sabia que um pedaço de pau te assustaria tanto, chega a ser engraçado!"
Annie saltou para o lado, rindo, mas havia algo estranho em sua expressão bela — um quê de inquietante.
Ri, constrangido, sem saber como iniciar a conversa.
Para minha surpresa, ela falou primeiro: "Noturno, sabe que lugar é este?"
"Me parece um velho templo", respondi, olhando ao redor.
Annie suspirou: "Já ouviu falar do Massacre Escarlate?"
Assenti: "Vi no noticiário alguns anos atrás. Diziam que, nos Estados Unidos, mais de mil membros da seita Cobanis cometeram suicídio coletivo em um templo, envenenando-se e incendiando o prédio. Ah! Foi na Rodovia Escarlate, passei por lá na viagem, o templo foi reconstruído e até pode ser visitado! Dizem que serve de lembrete para que os americanos não esqueçam o passado!"
"É basicamente isso", Annie concordou, "mas você sabia que o número real de mortos da seita Cobanis é muito maior que os mil e trezentos divulgados pelo governo? Não, na verdade, foram cinco mil setecentas e trinta pessoas!"
"O quê!" Fiquei boquiaberto, levantando-me de um salto e olhando novamente para o templo ao meu lado.
"Exato", disse Annie, com tristeza. "Este lugar é outro local, não divulgado pelo governo, onde milhares de seguidores da seita Cobanis tiraram a própria vida. Aqui jazem os outros quatro mil quatrocentos e trinta corpos!"
"Mas... por que me conta tudo isso?", perguntei, sentindo um calafrio percorrer minha espinha.
Annie não respondeu; apenas fitou as ruínas, murmurando suavemente: "A pressão espiritual aqui é intensa demais. Este lugar não suporta mais nenhuma atividade relacionada ao sobrenatural..."
A noite caiu. Às onze em ponto, conforme prometido, esperei atrás da casa.
"Psiu, ufa, quase não consegui escapar!" Yao Jia, com um vestido branco que não lhe caía muito bem, se aproximou resmungando e puxou minha mão: "Vamos logo! Aviso, o caminho é assustador, hein? Não vá chorar!"
"Eu, medroso como você? Nem pensar!" zombei, aproveitando para provocá-la: "Não imaginei que fosse usar um vestido tão recatado!"
"Que nada! É da minha irmã!" Ela olhou ao redor, escolheu uma direção e avançou.
"Para onde vamos?", perguntei, intrigado.
"Vamos a uma sessão de evocação! Você também quer saber como minha irmã morreu de verdade, não quer? Chamei uns amigos que entendem do assunto para tentar trazer de volta o espírito dela e perguntar!"
"Não sabia que nem você conhecia a verdadeira causa!" Fiquei surpreso.
Ela me olhou profundamente, balançando a cabeça com amargura.
"...Mas será que isso funciona mesmo?", questionei.
"Naquele lugar é infalível! Pode confiar, só precisa ser lá!"
"Oh! E onde é esse lugar tão poderoso?"
"É um velho templo aqui perto! Sempre que fazemos sessões lá, dá certo!"
"O quê?!" Gritei, parando imediatamente, tomado pelo pavor.
O templo fora construído há cento e trinta e sete anos. Quanto ao motivo de ter sido erguido num lugar tão ermo, não havia registros na biblioteca local. Dizia apenas que ali ficava uma mansão de um homem rico, que morreu repentinamente, e então os habitantes de Onak ergueram o templo sobre as ruínas da antiga casa.
Estas eram as únicas informações que encontrei na biblioteca após me separar de Annie.
À primeira vista, nada parecia suspeito, mas ao pensar melhor, tudo ficava nebuloso: por que construir um templo justamente ali? Haveria algo impuro naquele solo? Quanto mais eu pensava, mais misteriosa parecia a morte do milionário.
Por alguma razão, aquele templo me transmitia uma sensação opressiva, como se algo vivesse em seu interior, pronto para explodir a qualquer momento!
Por isso, ao ouvir Yao Jia dizer que fariam uma sessão de evocação lá, não pude evitar um grito de espanto.
Yao Jia tapou minha boca rapidamente, sussurrando em tom repreensivo: "O que foi? Se estiver com medo, volte sozinho!"
"Não, claro que não tenho medo! Só que..."
"Psiu! Só falta meia hora! Conversamos quando chegarmos. Vamos logo!" Ela cortou minha frase, apressando-se à frente.
Pouco depois, a cratera oval surgiu diante de nós.
Pensei então que, naquela manhã, Annie me fizera dar uma grande volta de propósito! Ah, aquela garota estranha... Quem seria ela, afinal? Parecia saber de coisas que ninguém mais sabia...
Por alguma razão, sempre que pensava nela, sentia uma urgência quase obsessiva de desvendar todos os seus segredos!
"Jone, todos já chegaram?", Yao Jia chamou baixinho.
Despertei de meus pensamentos ao ouvir sons vindos dos arbustos à esquerda. Em seguida, um garoto de cerca de quinze ou dezesseis anos apareceu.
"Todos aqui, só faltava você." Jone me lançou um olhar curioso, riu e estendeu a mão: "Dizem que os chineses sabem artes marciais. Isso é verdade?"
"Haha, sim, é lei no nosso país", brinquei, apertando sua mão.
Yao Jia riu tanto que quase se dobrou, zombando: "Jone, não acredite em nada do que esse aí diz. A única arte que ele domina é contar vantagem!"
A noite estava espessa. O céu negro, sem estrelas nem lua, tornava o templo em ruínas ainda mais assustador sob aquela escuridão devoradora.
Empurramos a porta carcomida e entramos no grande salão principal. As mesas e cadeiras haviam sido afastadas, deixando um espaço vazio de mais de trinta metros quadrados no centro.
Vinte e poucas pessoas se ocupavam: algumas desenhavam símbolos no chão, outras acendiam velas ao redor.
Que lugar sombrio! Esfreguei os olhos e, ao perceber o que se desenhava no chão, fiquei paralisado!
"O Círculo de Exorcismo de Abucolus!" gritei, apontando para o desenho, espantado. "Vocês conhecem isso?!"
"Eu já tinha dito, não?" Yao Jia fez uma careta.
Um rapaz próximo a ela me olhou surpreso e estendeu a mão: "Sou Jame, presidente do Clube de Fenômenos de Seattle. Não pensei que um amigo do longínquo Oriente reconheceria o nome de um pentagrama tão especial!"
"O quê? Então é mesmo o Círculo de Exorcismo de Abucolus?"
Fiquei ali feito um tolo, sem palavras diante do desenho.
Abucolus, nome originário da mitologia europeia, fora um arcanjo do poder e do desejo, mas traiu o Senhor devido à cobiça crescente em seu coração, desejando tomar Seu lugar. Ao ser descoberto, desenhou com sangue um símbolo que abriu o portal entre o Céu e o Inferno e conseguiu escapar.
O desenho ficou conhecido como Círculo de Exorcismo de Abucolus e, segundo a lenda, permitiria abrir o trânsito entre os mundos dos homens, dos demônios e dos deuses, tornando-se um dos tipos de pentagramas.
"É um círculo mágico incrível; basta ter um objeto pertencente à pessoa em vida e um parente de sangue para chamar seu espírito. Interessante, não? O Clube de Fenômenos de Seattle já o estuda há gerações!" Jame contemplava o círculo com entusiasmo.
"Vocês estão brincando? Sabem onde estão?!" Soltei sua mão e gritei.
Devido à minha própria história, já havia lido vários tratados sobre o sobrenatural e sabia das propriedades desse círculo mágico.
Dizem que só funciona em lugares de alta pressão espiritual, mas é terminantemente proibido em locais onde há espíritos inquietos. A lenda afirma que ele atrai almas penadas, causando azar e até perigo de morte!
Se Annie dizia a verdade, aqui teriam morrido pelo menos quatro mil quatrocentas e trinta e uma pessoas!
Que consequências traria um número tão aterrador? Por mais curiosidade que tivesse, não queria descobrir!
"Pelas descrições nos livros, posso afirmar que a pressão espiritual aqui é altíssima, perfeita para um círculo desse porte", disse Jame, com olhar vidrado.
"Não é disso que estou falando! Sabe ao menos onde está? A história desse lugar? Sabe se já morreram pessoas aqui?" gritei, sem conseguir disfarçar meu nervosismo.
Jame ficou confuso, mas de repente estremeceu.
"Ah! Você quer dizer que a pressão espiritual é alta porque há almas penadas aqui?!" Ele virou-se bruscamente e gritou: "Apaguem as velas! Apaguem o círculo! Depressa, apaguem com os pés... Maldição! Já é tarde!"
Olhou o relógio e, nesse instante, uma luz intensa saiu do círculo mágico. Brilhava fortemente, mas sem ferir os olhos, como uma névoa gélida que gelava até os ossos.
Todos ficaram petrificados.
A luz preencheu o salão, rodeando cada um como se procurasse algo. Nossos corpos ficaram rígidos... Pareceu durar um século, até que a luz, como se tivesse decidido algo, convergiu toda sobre Yao Jia.
"Não!"
Ela gritou apavorada, mas estava completamente imóvel!
"Jame! Esse círculo não tem um feitiço de encerramento? Recite logo!" Olhei para Jame, tentando me fazer ouvir.
"Tem, tem! Quase esqueci!" Jame balbuciou algumas palavras arcaicas: "Atravessando a fronteira entre o hoje e o amanhã, tu renascerás."
A luz do círculo de Abucolus desapareceu abruptamente, mas todos continuaram parados, suando frio de terror.
"Acabou, né..." Yao Jia murmurou, ainda assustada.
"Se soubesse, não teria feito isso aqui!" Jame balançou a cabeça e, ao sentar no chão, pareceu se lembrar de algo e saltou de novo.
"Haha..." Jame sorriu amarelo para nós: "Tenho uma notícia não muito boa... Acho que confundi o feitiço de início com o de encerramento..."
O silêncio foi total.
"Depressa! Todos ao chão!" gritei, pulando sobre Yao Jia.
Com um estrondo, a luz do círculo irrompeu como um vulcão. Mal consegui proteger Yao Jia sob meu corpo e já senti uma força me alcançar por trás, depois tudo ficou escuro em minha mente...