Capítulo Sessenta e Nove: O Imortal (Parte Um)

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 3487 palavras 2026-02-09 16:19:30

Mais um inverno esplêndido e ensolarado. O calor que vinha de fora atravessava a miserável camada simples de vidro da janela, infiltrando-se na sala de aula e provocando uma sonolência abafada e irritante. Espreguicei-me, desviando o olhar dos documentos que já vinha espiando há várias aulas, e lancei um olhar de pena ao professor de física, que bocejava no púlpito, espalhando saliva para todos os lados. Suspirei.

Os documentos sobre Li Shuren, que peguei com meu primo, já foram lidos e relidos muitas vezes, e só pude chegar a uma conclusão: ele é uma pessoa extremamente simples.

Um ano atrás, ele chegou a esta cidade e abriu uma clínica de psicologia particular. Meio ano depois, começou a namorar Zhang Xiuwen. Sua vida era de uma regularidade admirável: acordava às cinco para correr, café da manhã às seis e meia, às oito e meia já estava na clínica, onde atendia até as seis da tarde. Segundo sua secretária, ele nunca tirava soneca após o almoço, tampouco o via comer durante o dia, e sempre tratou Zhang Xiuwen com muita gentileza; raramente discutiam.

Os vizinhos tinham uma opinião excelente sobre Li Shuren, elogiando-o como um homem extraordinário. Algumas senhoras idosas, inclusive, ficaram indignadas com a polícia, jurando que haviam prendido a pessoa errada — como poderia um homem de caráter tão nobre ser um assassino?

Bati de leve na carteira, atormentado por pensamentos incessantes, quando de repente uma bola de papel voou da direita e acertou minha cabeça em cheio. Virei-me irritado, querendo saber quem teria ousado cometer tamanha afronta — equivalente a cutucar um tigre adormecido. E quase esbarrei na cabeça de Shen Ke, que sorria de forma repulsiva, cheio de bajulação.

“O que foi?”, rosnei, incapaz de conter o tom ríspido, ainda que, como diz o ditado, não se deve bater em quem sorri.

Shen Ke riu, visivelmente bem-humorado. “Xiao Ye, hoje ao meio-dia finalmente saí com Xiao Lu. Ela foi tão carinhosa comigo, de verdade! Chegou a segurar no meu braço na rua. Você acredita? A Xu Lu, de quem sempre fui apaixonado! Ela mesma, tomou a iniciativa de segurar no meu braço!” Os olhos dele brilhavam de felicidade, os braços cruzados no peito, completamente absorto nas lembranças do meio-dia.

“Veja só, não esperava que aquela garotinha fosse tão ousada.” Olhei para o tolo diante de mim, e sem querer reparei numa pequena mancha amarelada no ombro de seu casaco. Suprimindo o riso, perguntei: “Sua Xu Lu anda resfriada ultimamente, não?”

“Sim! Hoje ao meio-dia fui com ela comprar remédio para gripe. Por quê?”, perguntou Shen Ke, confuso.

Balancei a cabeça e continuei: “E, enquanto ela segurava no seu braço, por acaso tentou apoiar a cabeça no seu ombro?”

“Como você sabe?” Ele estava tão surpreso que quase gritou, depois me lançou um olhar desconfiado. “Você não estava nos seguindo, estava?”

“Não sou tão desocupado quanto você.” Contendo o impulso de lhe dar um chute, suspirei e bati de leve em seu braço, dizendo: “A revolução ainda não triunfou, camarada, você precisa continuar se esforçando!”

Shen Ke me lançou outro olhar desconfiado, mas vendo que eu não quis explicar mais nada, logo mergulhou novamente nas doces lembranças do encontro.

Sorri amargamente e desviei o olhar de seu rosto abobalhado, voltando a tamborilar na carteira, ponderando se deveria contar-lhe a dura verdade.

Mas logo descartei a ideia. Por mais insensível que eu fosse, não seria tão cruel a ponto de destruir as doces ilusões de um adolescente apaixonado.

Ah, mas a vida é mesmo assim: diante das menores situações, as pessoas tendem a imaginar sempre o melhor, embora a realidade costume ser bem diferente — como o encontro de Shen Ke e Xu Lu ao meio-dia. Tenho certeza de que não foi como ele pensa. Os indícios são claros: a caminho do encontro, Xu Lu, gripada, ficou sem lenços de papel. Vaidosa como é, na pressa, usou o casaco do bobo ao lado como lenço improvisado. Para não ser descoberta, primeiro segurou o braço dele, depois encostou a cabeça em seu ombro, e ali, delicada e graciosamente, limpou o nariz no infeliz casaco. Posso até imaginar que, após o feito, ela ergueu o rosto limpo e alvoroçado, sorrindo docemente para o tolo. Coitado! Olhei para Shen Ke, que continuava fitando o teto, rindo sozinho como um bobo feliz. Nessas circunstâncias, mesmo que eu contasse a verdade, ele não acreditaria.

“Ah, lembrei! Você andou pesquisando sobre o caso do Li Shuren, acusado de matar a namorada, não? Alguma novidade?”, perguntou Shen Ke, de repente.

Imediatamente voltei a me atormentar. “Nenhuma descoberta. Os documentos que peguei na delegacia só trazem informações positivas, quase santificam o sujeito. Se continuar assim, até eu, ateu convicto, vou acabar acreditando que existem santos na Terra — ou que Li Shuren é a reencarnação de Jesus Cristo! Se ao menos houvesse algum dado negativo sobre ele…”

“Xiao Ye”, disse Shen Ke, olhando para mim como se eu estivesse louco, “ontem mesmo você disse que Li Shuren não era o assassino. Se ele não é culpado, quanto mais evidências positivas, melhor para inocentá-lo. Por que você quer achar coisa errada sobre ele?”

Bufei: “Eu não quero inocentá-lo, até porque as provas da polícia não bastam para condená-lo — no máximo, podem detê-lo por quarenta e oito horas. Deve ter sido solto ontem de manhã. Mas Li Shuren… algo nele é estranho, e tenho certeza de que este caso é mais complicado do que parece.”

Shen Ke sorriu amargamente. “Na verdade, quem é estranho aqui é você, com essa curiosidade sem limites.”

“Agradeço o elogio. Aliás, dê uma olhada nesses documentos, quero saber sua opinião.” Empurrei parte do material para ele. “Depois eu pago um café.”

“Ótimo! Só pelo café, leio até o fim esse calhamaço de folhas.” Shen Ke bateu na pilha de papéis com ar heroico, depois sorriu maliciosamente: “Será que a Xu Lu pode vir também?”

Apoiei o queixo na mão e sorri: “E você quer que, quando ela chegar, eu pague a conta e suma discretamente?”

“Xiao Ye! Não me subestime! Eu nunca faria isso com um amigo!”, exclamou Shen Ke, indignado. Mas logo mudou de expressão, esfregou as mãos e murmurou, rindo: “Mas, se você quiser…”

“Você está cada vez mais descarado”, resmunguei, dando-lhe um chute. “Leia logo isso. Se não terminar antes do fim da aula, amanhã cedo vai procurar sua cabeça para lavar o rosto!”

Satisfeito ao vê-lo resignado diante dos papéis, baixei a cabeça e voltei a ponderar cada detalhe registrado ali.

Li Shuren, homem, vinte e quatro anos. Aos dezenove, entrou numa famosa universidade para cursar psicologia. Dois anos depois, aos vinte e um, formou-se mestre em psicologia, um feito notável. Quando todos achavam que ele seguiria a carreira acadêmica, simplesmente largou tudo, mudou-se para uma vila obscura chamada Vila da Montanha Negra, e há um ano veio para cá.

Quanto mais pensava, mais minha cabeça doía. Os dados mostravam um sujeito de personalidade e opinião fortes. Mas, por outro lado, podia-se dizer que era excêntrico.

Do ponto de vista das pessoas comuns, Li Shuren foi tolo: no auge da carreira, quando todos invejavam seu sucesso, largou tudo para se esconder num povoado sem fama, aceitando uma vida simples e pobre, desproporcional ao seu talento. Mesmo para a lógica comum, era difícil entender tal decisão! Mas Li Shuren fez exatamente isso.

Ora, alguém capaz de concluir a universidade em dois anos e obter o título de mestre só pode ser um gênio, ou ao menos alguém muito inteligente. Pouco convivi com ele, mas pude perceber que era de fato inteligente — mais que a maioria, sem dúvida. Alguém assim não faria uma tolice dessas, mas ele fez… Meu Deus, por fora parece simples, mas, quanto mais se aprofunda, mais estranhas suas atitudes se revelam.

O que o levou a abandonar os estudos e se contentar em abrir uma clínica aqui? Estou certo de que um homem inteligente sempre tem um motivo claro para suas decisões. Qual seria o dele? Seria algum laço, algo que o prendesse aqui?

“Ei, que estranho”, murmurou Shen Ke, cutucando meu braço com a caneta.

“O que foi?”, aproximei-me imediatamente.

“Segundo os dados, Li Shuren tem vinte e quatro anos, certo?” Shen Ke folheou os papéis, hesitou um instante e prosseguiu: “Mas, olhando a rotina diária dele, não parece um jovem dessa idade. Parece mais um velho de setenta ou oitenta anos…”

Antes que ele terminasse, eu já havia esquecido que estava em aula e, tomado de espanto, levantei-me de um salto.

“É isso! Agora tudo faz sentido! Não é à toa que a rotina dele me parecia estranha!” Bati o punho direito na palma esquerda, gritando de entusiasmo.

A sala caiu num silêncio absoluto. Todos me olhavam, intrigados, como se eu tivesse enlouquecido.

De repente, um pedaço de giz voou certeiro e acertou minha cabeça. “Alguém aí sabe o número do hospício?”, perguntou o professor Li, batendo as mãos para tirar o pó e lançando-me um olhar severo. “Ye Buyu, você tem duas opções: ir para o hospício ou copiar o livro de física cinco vezes para entregar amanhã cedo.”

“Tem uma terceira opção?”, perguntei, cara de pau. Brincadeira — copiar o livro cinco vezes seria passar a noite em claro. Quem tem todo esse tempo livre? Ainda queria ir à cena do crime de Zhang Xiuwen hoje à noite!

“Claro, se quiser tomar uma advertência na ficha escolar, não me importo.” O professor Li deu de ombros, indiferente.

“Eu copio o livro”, respondi, derrotado, entregando as armas.