Capítulo Quarenta e Quatro: O Sepultamento do Bebê (Parte Um)
Se eu for pensar seriamente, na verdade sempre tive uma postura cética em relação a histórias de fantasmas e espíritos, desde criança. Embora ao longo dos anos eu tenha me deparado com muitas situações estranhas e inexplicáveis, ao refletir sobre elas, percebo que, na maior parte das vezes, eram as pessoas ao meu redor que presenciavam ou sentiam algo. Elas descreviam suas experiências e emoções com palavras e gestos diante de mim, mas eu mesmo nunca me aprofundei, nunca pesquisei de modo direto ou sensorial essas coisas.
Por isso, se aquela mulher de vestido vermelho realmente fosse um fantasma, então essa teria sido a primeira vez, no verdadeiro sentido da palavra, que avistei um espírito. Quanto a isso, no entanto, não dei muita importância; encarei como um breve episódio em meio ao calor sufocante de maio e, assim, deixei que caísse no esquecimento. Logo veio junho, depois a prova de admissão escolar, e, para minha infelicidade, acabei sendo aprovado justamente no colégio que estava vinculado à minha antiga escola. Maldição! Nem sei como avaliar a sorte que tive!
Só de pensar em ter que voltar a morar no dormitório, todas as tragédias em série que aconteceram depois de brincarmos de “jogo do copo” no ensino fundamental voltavam à minha mente como um filme. Então, liguei para meu pai, que estava “viajando a trabalho”:
“Pai, fui aprovado no colégio vinculado à minha antiga escola”, anunciei.
“Muito bom, é assim que se espera do meu filho!”, respondeu ele, instantaneamente entusiasmado ao saber que entrei no tão prestigiado colégio.
Mas minha próxima frase caiu como um balde de água fria: “Mas eu não gosto de lá. Quero estudar no Segundo Colégio, que fica aqui perto.”
“Seu idiota! Quem é como você?! Já entrou num colégio de ponta, e ainda quer ir para uma escola comum, dessas com baixíssimo índice de aprovação? Não! De jeito nenhum!”, esbravejou meu pai, claramente irritado.
“Mas eu simplesmente não quero ir para lá. Você ainda se lembra do que aconteceu comigo no fundamental, não lembra?”
“Isso... mesmo assim, não! Desta vez, não vou ceder às suas vontades!”, ele respondeu, categórico.
Ah, já esperava por isso. Vi que não adiantava tentar o caminho da gentileza.
Fiquei em silêncio por um instante e, de repente, perguntei: “Pai, para ser sincero, o motivo dessa sua viagem está muito estranho! Fico pensando, por que você disse para a tia que estava viajando a trabalho, mas não mentiu para mim? Chegou a falar que ia viajar com ela, mas quando descobri, mudou o discurso e disse que ia encontrar uma pessoa que ela não gosta... Isso é mesmo estranho. Será que você tem algum segredo oculto? Por mais que pense, não consigo entender. Por isso, decidi perguntar tudo para a tia amanhã. Ela é tão esperta, vai descobrir alguma coisa!”
Do outro lado da linha, o silêncio se instalou. Depois de um tempo, meu pai falou, num tom amargo: “Não sei quantas dívidas deixei para você na vida anterior, que nesta veio para me torturar assim! Está bem, entendi. O Segundo Colégio, não é? Vou ligar para o diretor de lá.” E desligou o telefone com força.
Pronto, resolvido! Espreguicei-me e subi na cama.
Na verdade, eu estava mesmo curioso sobre o objetivo daquela viagem do meu pai. Apesar do tom confiante ao telefone, como se já tivesse pegado ele no flagra, até agora não consegui decifrar o motivo de tanto mistério. No fim das contas, parei de pensar nisso; é sempre bom saber a hora de parar, pois se irritar aquele velho não me traria nada de bom.
Muito tempo depois, só então descobri que, por trás daquela “viagem a trabalho”, meu pai escondia um grande segredo. Mas isso já é assunto para outra história estranha...
As longas férias de verão de dois meses estavam prestes a terminar. Meu pai cumpriu a palavra e, de fato, permitiu que eu estudasse no Segundo Colégio da pequena cidade. Fui colocado na turma 1-5.
“Noturno! Humpf, o destino adora pregar peças mesmo. Não imaginei que acabaríamos na mesma sala.” De repente, senti alguém bater forte no meu ombro. Levei um susto, reagi segurando a mão que me tocava. Era uma mão feminina, macia, pequena e delicada. Percebi e não soltei a mão de imediato, então me virei para ver quem era.
Claro, era a pequena Zhang Lu. Ela me olhava atônita, o rosto todo vermelho, esquecendo-se de soltar minha mão.
Ao lado dela estavam mais três pessoas, que nos olhavam e, imediatamente, começaram a rir e cochichar.
“Seu idiota! O que pensa que está fazendo?” Só então Zhang Lu notou o olhar estranho dos amigos e, corando ainda mais, puxou a mão de volta e exclamou, indignada: “Noturno, como ousa se aproveitar de mim em público!”
“Então, quer dizer que se não for em público, está tudo bem? Haha, entendi.” Sorri. O jeito como ela ficava brava era encantador, e provocá-la, pelo visto, era divertido.
“Você...!” Ela ficou sem palavras, bateu o pé e saiu correndo. Os outros três caíram na gargalhada.
“Sou Shen Ke.” O único rapaz entre eles estendeu a mão para cumprimentar-me e, apontando para as duas garotas, apresentou: “Essas são Wang Feng e Xu Lu, amigas da Zhang Lu desde o fundamental. Agora, somos todos colegas de turma.”
Xu Lu sorriu: “No fundamental, a pequena Lu era famosa por sua língua afiada. Nunca a vi tão irritada assim.”
Wang Feng riu: “É isso aí, sempre tem alguém mais forte. Vilão bom só apanha para vilão pior. Essa, a pequena Lu, finalmente encontrou um adversário à altura.”
“Ei! Vocês duas, que tipo de amigas são? Nem pra me ajudar!” Zhang Lu, que voltara sem que notássemos, reclamou indignada.
Foi então que ouvi alguém chamar por uma bela garota. Quando me virei, fiquei paralisado.
Uma moça alta, vestindo o uniforme escolar branco, passou diante de mim. Seu andar era elegante e leve, os cabelos longos e sedosos caíam suavemente sobre os ombros frágeis, os olhos brilhantes e negros cintilavam como estrelas no céu noturno, fascinantes. Ela percebeu meu olhar atônito, virou-se e me lançou um sorriso doce.
“Ela... ela é!” Senti meu coração afundar.
“Ela se chama Mi Jingyun. Embora estejamos só no treinamento de integração, já é considerada a mais bela da escola, que, aliás, não tem muitas beldades. Haha, quem diria, vamos ser colegas de classe de uma dessas!” Shen Ke também parecia embasbacado, demorou um pouco até responder.
“Mi Jingyun?” Fiquei ainda mais surpreso, achando que tinha escolhido o colégio errado.
Zhang Lu me beliscou forte, dizendo com ironia: “Nem pense em querer o que não pode ter. Dizem que ela já tem noivo, inclusive prometido antes de nascer! Ninguém sabe quem é, mas é isso.”
“É mesmo?” Sorri, resignado.
“Chega! Como as adoráveis férias acabam depois de amanhã e voltaremos para aquele inferno chamado sala de aula, declaro que hoje nosso grupo dos cinco vai comemorar na casa do Shen Ke!” exclamou Zhang Lu, empolgada.
Olhei ao redor, confuso: “Mas vocês não são só quatro? Por que grupo dos cinco? Quem é o outro?” Os quatro, em uníssono, apontaram para mim.
“Ei, ei! Nunca disse que queria fazer parte desse tal grupo!” protestei, indignado.
“Qual o problema?” Zhang Lu agarrou-me pelo braço e foi me arrastando para fora. “Mesmo que você seja riquinho, de vez em quando precisa saber como os pobres vivem. Não queremos sua vida, só sua companhia!”
Meu Deus! Com esse grupo de malucos, meu destino estava selado.
A comemoração foi realmente animada. Shen Ke morava perto do portão dos fundos da escola, e como sua família não estaria em casa, tínhamos a casa toda para nós. Os quatro se esbaldaram na cozinha, cada um querendo mostrar seus dotes culinários. Eu, que nunca tive talento para a cozinha, fui expulso por Zhang Lu, que me disse que eu só atrapalhava.
Anoiteceu. Quando o tédio bateu, começamos a contar histórias de terror. Só depois das onze da noite nos despedimos, cada um para sua casa. Zhang Lu e eu morávamos na mesma direção, então seguimos juntos.
“Que frio”, disse Zhang Lu, tremendo. “Uma noite de setembro e está gelado assim.”
Olhei para a rua e vi uma névoa fina se espalhando pelo chão. Para uma região de planície, uma noite de verão com esse clima era mesmo estranha! Quando nos preparávamos para entrar na Pequena Rua do Sul, onde encontrei a mulher de vermelho, Zhang Lu parou e pediu, quase suplicando: “Vamos pelo caminho principal hoje?”
Parece que a Pequena Rua do Sul estava sem luz de novo; a névoa girava na entrada da rua, exalando um frio que congelava até os ossos. Aquela atmosfera sombria e assustadora me fez estremecer.
“Tudo bem.” Sem hesitar, virei o guidão da bicicleta em direção à avenida principal e seguimos em frente.