Capítulo Cinquenta e Três: O Jogo de Azar

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 2501 palavras 2026-02-09 16:17:47

No dia seguinte, que era sábado, fui logo cedo à casa de Mí Jingyun. O tio Li e meu pai foram grandes amigos na juventude e, embora hoje em dia já não se visitem com tanta frequência, ainda insistem naquele antigo acordo de casamento arranjado firmado há mais de uma década.

Ai, é difícil entender o que se passa na cabeça desses intelectuais antiquados.

— Ora, vejam só, é o Xiaoye! Mas que visita rara — disse a tia Li ao abrir a porta, cobrindo a boca com um sorriso. — Faz tantos anos que não nos vemos, e não imaginei que Xiaoye tivesse ficado tão bonito! Venha, entre.

— Tia, vim para ver a Jingyun — disse logo, percebendo que ela me olhava com aquele olhar caloroso de quem vê um futuro genro.

— A Xiaoyun? Ela está no quarto, pode ir vê-la. Hehe, eu e seu tio justamente íamos sair agora. Fiquem à vontade para conversar, vocês dois jovens — respondeu ela, sorrindo abertamente, ao mesmo tempo em que dava uma pisada forte no tio Li, que ainda estava sentado no sofá, sem tempo de dizer nada.

O chefe da casa só pôde sorrir resignado e dizer, cabisbaixo: — Sim, sim, haha, Xiaoye, hoje faça companhia para a Xiaoyun, ela sempre fala de você com saudade.

Céus! Parece que nesta casa acontece o mesmo que na minha: ambos comandados pelas esposas. Ouvi um barulho e Mí Jingyun apareceu descendo as escadas.

— É o Aye! Veio me ver? Hihi, estou tão feliz! — exclamou, radiante, segurando meu braço e me puxando para o quarto dela.

Para falar a verdade, eu já havia entrado em muitos quartos de garotas antes, mas nunca vi um tão especial quanto esse.

O quarto de Mí Jingyun era impecável, como se sofresse de mania de limpeza. Todo decorado em tons de rosa, transmitia um aconchego tipicamente feminino. O que mais chamava atenção era um piano importado, também rosa, no canto esquerdo.

— Aye, desde pequeno você sempre gostou de ouvir piano, não é? — disse ela, sentando-se ao instrumento e tocando suavemente algumas notas. — Por isso pedi para minha mãe me dar esse piano. Sempre sonhei em tocar músicas para você todos os dias.

Sentei-me na cama dela, sem me emocionar, e lancei um olhar de soslaio para a penteadeira. Pela experiência anterior, sabia que as palavras de Mí Jingyun eram perigosas: quanto mais encantadora, pior seria o resultado para mim.

— Ah, é verdade! Quase me esqueço de perguntar o que você quer beber! — disse ela, levantando-se apressada.

— Pode ser café — respondi distraidamente.

— Então espere um instante, Aye — disse ela, saindo do quarto.

Era minha chance! Corri até a penteadeira, abri a gaveta e comecei a vasculhar. Logo encontrei um envelope branco com o nome de Yang Shanshan escrito, e dentro dele, ao que parecia pelo toque, havia uma carta.

Era isso! Pensei comigo, e guardei o envelope no bolso interno da camisa.

— Aye, o que está procurando? — Uma voz suave soou atrás de mim de repente. Levei um susto e me virei apressadamente. Era Mí Jingyun, de mãos vazias. O sorriso doce permanecia nos lábios, mas o olhar era gélido como gelo.

Disfarcei o pânico, retomei a calma e disse: — Só queria ver que tipos de cosméticos minha noiva costuma usar. Estava pensando em fazer uma surpresa para você no seu aniversário, haha, mas acho que fui descoberto!

— É mesmo? — O olhar frio se desfez de repente. Mí Jingyun, manhosa, agarrou meu braço: — Aye, que bom saber que você lembra do meu aniversário. Hihi, mesmo sabendo que é mentira, fico tão feliz assim mesmo.

— Você não confia em mim nem um pouco? — respondi com um sorriso resignado.

Mí Jingyun me fitou por um instante, suspirou e disse: — Aye, eu te conheço demais. Sempre que mente, suas orelhas tremem um pouco. E você acha que o quarto de uma garota é um lugar proibido, só entra com um objetivo. Mas não vou perguntar o motivo da sua visita. Só de poder te ver, já sou feliz.

Ai! Ela me vê através de tudo. Segurei a cabeça, me perguntando que planos ela teria para mim.

— E meu café? — mudei de assunto.

— Ainda está passando, Aye. Você nunca toma café instantâneo, não é?

Mí Jingyun se encostou levemente em meu ombro, abraçando meu braço com força.

— Aye, por que você nunca sente o meu amor? — murmurou Mí Jingyun. — Desde pequena, fiz de tudo para amar meu noivo, só a ele.

Seus cabelos macios roçaram meu nariz, que ficou coçando, e senti inevitavelmente o perfume delicado dela. Minha boca secou.

— Sempre fui carinhosa só com ele, faria tudo por ele, mas ele sempre me evita, sempre se opõe a mim, nunca percebe que tudo o que faço é por ele! — Ela ergueu o rosto e passou os braços ao redor do meu pescoço.

— Me beija, por favor? Beija esta noiva já tão machucada.

Seus lábios rosados se aproximaram dos meus, os olhos brilhando como neon. Eu já estava completamente paralisado, sentado, sabendo bem que aquele beijo traria consequências desconhecidas e terríveis, mas incapaz de me mover.

— Ye Buyu! Você, seu caloteiro, saia já daqui! —

Um grito estrondoso, perfeitamente inoportuno, ecoou pela rua. Voltei a mim, afastei-a suavemente e abri a cortina.

— De novo essa mulher! — Mí Jingyun franziu a testa, irritada.

Lá estava Zhang Lu, a garota atrevida, não sei como tinha conseguido um megafone e, sem se importar com os olhares dos transeuntes, gritava para a janela. Fiz rapidamente um sinal de vitória para ela.

— Da última vez pedi um real emprestado para ela, e agora veio atrás de mim até aqui! — expliquei a Mí Jingyun enquanto corria para descer as escadas. — Então, Jingyun, desculpe, preciso ir.

Mí Jingyun foi até a janela com o rosto fechado, cheia de indignação: — Zhang Lu, você gosta tanto assim do Aye? Não vou deixar você roubá-lo de mim.

— Já disse que não gosto dele! — Zhang Lu respondeu.

— Veja bem, eu, Aye e você somos como três linhas retas — disse Mí Jingyun, ignorando completamente as palavras de Zhang Lu. — Você e eu, duas dessas linhas, só uma pode cruzar com Aye. Uma terá que se afastar para sempre. Acho que precisamos de uma disputa, uma competição valendo Aye. Quem perder, desaparece para sempre da vida dele!

Sacudi a cabeça desesperadamente para Zhang Lu. Apesar de me sentir injustiçado, tive que admitir: Mí Jingyun era um gênio em todos os sentidos. Desde pequena, ninguém jamais a superou em nada. Eu, que me achava tão inteligente, vivia caindo nas armadilhas dela. Zhang Lu, tão inocente, não teria a menor chance.

Zhang Lu olhou fixamente para Mí Jingyun por um longo momento e então assentiu: — Aceito! Mas o método da competição quem decide sou eu.

Céus! O que essa garota está pensando? É uma disputa totalmente desigual! Que vontade de dar um chute nela.

— Como quiser — respondeu Mí Jingyun com altivez.

— Muito bem — Zhang Lu sorriu enigmaticamente. — Então, depois de amanhã, à meia-noite, vamos ao quarto onde Ni Mei morreu e vamos descascar maçãs. Quem terminar primeiro, com a casca inteira, vence.

Mí Jingyun ficou em silêncio.

— O que foi? Não era tão arrogante agora há pouco? Está com medo? — provocou Zhang Lu.

— Está bem, aceito — respondeu Mí Jingyun, olhando para mim com serenidade. Suspirou e disse: — Aye, quero que saiba o quanto eu te amo!